Capítulo 14: Joaquim, Nhú Djokim; Pintur, Caiadur!

Tatitataia relata um pouco de tudo. Que fiquem entretanto cientes de que tudo quanto vos faz ler, teve como palco ou cenário, a nossa Guiné. Em suma, tudo aconteceu nessa terra que nos é muito querida e que querida continuará sendo! 

Foi costume em tempos idos, caiar o interior das casas normalmente umas semanas antes da quadra natalícia. Todo o nosso bom mundo queria ver e sentir a sua residência em estado apresentável de modo a agradar visitas e convidados como é comum aparecerem ao longo dessa quadra festiva. Nessa quadra, a procura por profissionais de pintura era obviamente maior que nos outros períodos do ano.

Mas passemos ao nosso Joaquim!

Durante largos anos, antes e pós-independência da Guiné, o prestável, amável e sorridente Joaquim era o homem-pintor que arregaçava mangas para dar um aspecto mais fresco e juvenil às paredes do interior da minha residência. E foi sempre para mim um verdadeiro deleite de fim-de-semana entabular conversa com essa figura que pelo seu paleio não deixava ninguém indiferente. Impossível ouvi-lo sem deixar escapar copiosamente: risos, sonoras e  saborosíssimas gargalhadas.

Um verdadeiro humorista na pele de um excelente pintor…

Procurarei inteirar-vos de umas quantas conversas tidas com Joaquim, as tais que davam sabôr aos fins-de semana em que se apresentava para responder ao compromisso firmado. E ohhh quanto nos fazem hoje falta esses pequenos e grandes momentos de felicidade quasi-gratuita, alimentados por pequeníssimas e insignificantes coisas: um simples e informal diálogo!

Nesses saborosos périplos de fins-de-semana completamente dedicados à pintura ou caiação, deixando a definição à vossa inteira responsabilidade, o nosso Joaquim a caminho da minha residência ia matutando, como mais tarde confessou, uma forma mais ardilosa de abordar comigo um novo preço para essa tarefa que vinha assumindo ao longo de anos e por sinal, a contento de todos os residentes. Entretanto, por razões que só a razão do nosso Joaquim entendia, via-o partir sempre sorridente e sem traços ou sintomas de desagrado.

Só dizia à saída: senhor Galvon, Déuss fika ku nhú té útru sábadu…

Mas lá acabou por chegar o sábado no qual o nosso Joaquim decidiu pôr as cartas na mesa. E fê-lo com uma notável desenvoltura dizendo-me: Senhor Galvon, pa tudu kê ke n’na buska: anhu nhu pudi kumi! Confesso ter ficado meio surpreendido com essas palavras que me chegaram aos ouvidos numa voz suave mas firme e olhando-me bem de frente…

Pudi kumi, em sentido figurado quer muito simplesmente dizer: você é mais forte do que eu, sem que necessariamente se trate de uma comparação baseada na compleição física. Ajusta-se bem melhor á capacidade pessoal de argumentação, na capacidade de convencer outrem e levar sempre a melhor. Entretanto meu feeling sem demoras me alertou quanto à iminência de uma nova proposta de ajustamento salarial, o mesmo que dizer aumento do custo da pintura da residência. E não tardarão ver que não me enganei… 

Joaquim fez-me nesse sábado saber as razões que o levam a reconhecer-me como mais forte que ele, traduzidas pela expressão: pudi kumi. Disse-me meio decepcionado que de há muito que vem arquitectando um plano, uma estratégia, um estratagema, enfim escolham o que melhor vos aprouver como expressão, para levar-me a reavaliar o mérito dele como pintor e muito naturalmente e em consequência: o valor pecuniário do seu trabalho. E acabou por explicar-me as raízes da sua enorme decepção pelo facto de nunca ter podido levar esse plano avante, essa sua estratégia, esse seu estratagema, enfim tudo quanto vinha ardilosamente arquitectando.

Quanto a esse plano, estratégia ou estratagema mencionados, o nosso Joaquim fez-me saber que cada vez que saía de casa em direcção à minha, vinha extremamente motivado trazendo em mente um só discurso focado na melhoria, mesmo que modesta, do nosso contrato de trabalho. Quando digo melhoria é óbvio que me refiro aos benefícios que ele queria mui logicamente ver revertidos a seu favor.

Segundo ele, por trazer a ‘lição sabida na ponta da língua’ não via como poderia eu sair vitorioso quando confrontado com o dito discurso por ele considerado teoricamente indestrutível, indesmontável. Para ser breve, o nosso Joaquim faz uso do crioulo para expressar com um sabor bem particular tudo quanto em português perderia todo o humor inerente e imprescindível à narrativa…

No fundo Joaquim tenta num discurso que mais se assemelha a um conto, justificar razões um quanto pitorescas… que o impediam de me convencer a melhorar o nosso contrato de pintura. E não mais que isso!

Oiçam-no…

Senhor Galvon: aóss i dia pâ’n konta nhú kê ke manda ami Djokim n’fâla kuma nhú púdi kumi. Nhú facim fabúr nhú ôbi!

Ke sédu éss: kâda dia ke’n sai de nha káu pâm bim tarbadja na káu de nhú, n’tâ bati planu pâ nhú. N’náu, kilâ máss planú. N’tâ n’djatâ nam própi pâ nhú… N’tâ fâla nha kabéssa: ahóss i dia k’éss homi na sibi kim ki bó Djokim. Kil ke na sédu, aóss ki na sédu!

Má senhor Galvon purbléma, i na kaminhu ki ta lánta.

Konforme n’na pértu kassa de nhú… assim ke n’ta sinti nha kurpu na kiri móli… N’ta sinti limpu kuma ki plánu ke n’djata pa nhú kána bai nim li ku lâ. Bardadi sabi konta!

Iohhh…káu ta kum’ssa fiu, i ora ke n’sibi skada de kau de ba nhú, nha rostu fila ku ki porta de riba. N’bom ora ke n’kunku porta lâ ke n’ta fâla nha kabéssa, ai Djokim bu ka bali nim um pééssss!… 

Lâaa…senhor Galvon, n’ta ôbi limpu, limpu, alguim déntu de mi ke tâ falâm: Djokim, bu sibi kéeee, maina éss bu planu. Éss homi sabi bókaaa… i na bim batiu. Se bú buli éss alguim, abó própi ke na kabanta pa riantal préss de bu tarbadju. Ahhh Djokim dissâ, dissa kila Djokim. Tém passença, dissa!

Senhôr Galvon, ami i mandjaku de Kalekiss. N’tam, ki alguim dentu mi ta ripitim é konbersa dús, triss biáss na orédja. Éss alguim ta kordân sintidú na lingu mandjaku. Má mandjaku limpu púss: “Djokim mé? Nintche utan… Nintche à sabe n’tum, kabi watu. Kassarai Djokim, utan!”

Quanto ao nosso contrato, Joaquim disse-me ter sérios motivos que o impediriam estar presente no próximo fim-de-semana. Sem ainda conhecer as razões dessa forçada ausência, disse-lhe: Joaquim acho que não é a mim que deves anunciar essa ausência mas à ‘mindjer garandi de kassa’, a minha sogra.  Aí Joaquim levou as mãos à cabeça e retorquiu: Senhor Galvon nhú tém passénça, kâ nhú randjam purbuléma. I kâ mi Djokim ke na fâla mindjer garandi kuma n’kana pudi bim utru sábadu. Tsse, tsse, tsse, ka nhu pensa kila!

Si nhú ka têm manêra de falal él, kila i ka ku mi dé. Anhu ke sibi lâ… 

Mas oiçam este delicioso discurso, uma verdadeira tese… tentando justificar a razão que o impediria avançar o trabalho de pintura em minha casa, no sábado seguinte. Convenhemos: hilariante e de certa maneira, revigorante…

Senhor Galvon, nhu ôbi nha bardadi: tarbadju na caiaçon i ka fácil otcha. Pâ tudo ké ke n’na buska. N’bom, n’tem dus alguim ke Déus pui na nha kaminhu ke n’ka pudi falsia elis é sábadu ke na bim. Nhu tem passénça nhu djudam…Ku kil purmêru n’tenê dja contratu firmádo. Firmádo tok firma kâba. Mà éss último, papé di mi ke pâdim… n’pudi fala nhu kuma i burru marradu ke’n otcha’: nhu anda nhu sibi kuma éss i purmêru biáss ke n’waga alguim préss si dunu ka mêrmériiiii, pa tudo ké ke n’na buska! Senhor Galvon, nhu anda nhu n’tindi: éss ‘koldadi’ de pécadur ka pudi kaplim….

O meu amigo Joaquim disse estar seguro de poder  contar com a minha compreensão pela solicitada ausência em minha casa no sábado seguinte. Tentando confortar e confirmar essa ausência foi-me dizendo: senhor Galvão não posso de forma alguma faltar aos dois compromissos.

Se eu faltar  a esses compromissos, ficarei em muito maus lençóis!

Mas o nosso Joaquim só é mesmo vedeta quando ouvimo-lo em crioulo. Pois oiçam-no uma vez mais!

Senhor Galvon, kil alguim ke n’firmanta dja kontratu n’na bai si kau pa n’kabântal tetú. Se n’fassi kilâ i ta discánsa e fiança kuma n’na kabantâl tarbadju. N’ka pudi maina é planú!

N’Bom kil segundú, kil ke n’fâla nhú kuma i ‘burru marradu’, n’na bai si kau n’bofatial un dús paridi (dar umas pinceladas…) pâ i fiança kuma nó kontratú firma. Kâ nhú médi senhor Galvon, utru semana na sta na kau de nhu rék pâm kabanta tarbadju.  Kila ka tem nim’nôss.

N’bé, i sta suma nhú ka kunsim…

Entretanto e para finalizar o relato desta cativante figura genuinamente bissau-guineense que não se amedronta com pequenas ou grandes dificuldades próprias do quotidiano e para as quais vai encontrando soluções muitas das quais por débrouillage…, faço-vos ouvir o que Joaquim pensava a respeito de determinadas profissões bem populares, a mencionar: carpinteiro, alfaiate, sapateiro, não podendo obviamente esquecer a nobre profissão de caiador…

Ao fazer a abordagem de cada uma das citadas profissões o nosso Joaquim quiz salientar o savoir-faire e o savoir-vivre, digamos a habilidade de cada um desses profissionais em encontrar justificação ou justificações por qualquer atraso ou imperfeição na satisfação dos seus compromissos assumidos. Em língua portuguesa essa habilidade é perfeitamente definida em todos os seus contornos pelo verbo ludibriar e melhor que esse não conheço.

Para os que ainda não saibam, essa habilidade em encontrar justificações para determinados precalços profissionais está perfeitamente traduzida pelo mais sociabilizado substantivo bissau-guineense: palam, arte de kambanta purbuléma…

Portanto, dar palam é no mínimo tentar ludibriar!

Mas esse relato como Tatitataia tem afirmado só se torna interessante e merecedor de uns poucos parágrafos quando exprimido em crioulo.

Portanto, vamos a isso…

Senhor Galvon: n’pensa kuma de anós caiadúris nhu kabanta kunssinu pâbia n’ka sukundi nhu nada ke nô ka sédu…Má nim ku sim nhu fika nhu sibi kuma nô tarpassa, nô palam, nô kambanta ô ké máss kila tudo i di mininu ke ka kabanta scola. Pâ nha mamé…

N’Bom gossi nhu sukuta ké ke n’tem pa fâla nhu de quil útruss. Ba nhu bartabáss…

Alfaiatis éssis é ka tem manêra de fassi tarpassa ku kil ke é kabanta kussi dja pabia kada pékadur tem si midida. Má na tecido ki ka toka inda, se contra alguim passa i mostra n’tréss na tecido (ke tem dunu…) ahhh lâ i na fâla kil alguim: se bu mistil pa utru kussa anda bu fâlam pabia n’ténel li ditandadu n’ka sibi ké ke n’na fassi kel. Kila gora ka nhu purfia…

Carpintêro tâm, i ka lundju alfaiate na si tarpassa….Se contra alguim bim punta pâ banco, cadêra, méssa, banquinha ô kalker kussa ki kumpuba dja n’bom i na séta bindi sim purbuléma é kussas ke tem dja dunu. Despuss i ta buska manêra de safa si kabéssa…Bom tarpacêros ke nhu odja sim!

N’bom senhor Galvon ali no tchiga nâ chefe di chefes. Rei de palam. Senhor Galvon ka nhu brinka ku sapaaaatêeeeruuuuu! Lai, lai, lai, lai…

Senhor Galvon anós ohhh, alfaiate ohhh, carpintêro ohhh nô palam vida ke sinanu él. Kil de sapatêru i bai nam scola pâ i sinadu él. Pâ nha boka mopi se n’na conta mintida, senhor Galvon.

Nhu ka misti sibi pabia de ké ke sapatêro ta sinta na n’trada de si porta e kata tarbadja dentro de si kau? Ahhh n’bom nhu pera n’fala nhu. I ta tarbadja na si porta pa i pudi bata odja kim ke na bim…

Assim ora ki odja kim ke na bim i ta fâla si ajudante: “djanti bu dam ki sandália ke sta riba de kil turpéssa ke perto bó”. É portanto óbvio que a sandália solicitada pertence ao cliente que o sapateiro viu aproximar-se….e assim o recém-chegado era premiado com um audível; nhu Braima anhu i futecêro. Alim kel na mom….

Senhor Galvon nhu anda nhu buska má máss ossanti ke sapatêru nhu kana otcha. Senhor Galvon, sapatêru ta bindi nhu kada koldadi de mintida ke anhu própri ke na burgunho el, nhu n’pina kabéssa. Má ora ki na konta nhu si mintida, el i ta odja nhu na kuku d’udju. I kata djngui kabéssa. N’ná, é bali pena…

O que acabam de ler, é o Joaquim que conheci e me deixou uma enorme saudade pois que nunca mais soube dele. A nossa Guiné teve e ainda tem muitos outros Joaquim(s) que nem sempre tiveram a merecida atenção…

Tatitataia voltará a estar convosco oportunamente. Fiquem bem!

 

 

 

Curta metragem II: Crianças, quanto valem…

Desta vez Tatitataia traz ao vosso conhecimento três pequenos episódios ocorridos entre um pai, não outro senão a minha modesta pessoa, dois dos meus filhos, Pedro e David e finalmente Ronnie, meu único sobrinho.

Pedro, o meu codé, foi um miúdo que passava do sorriso às lágrimas e das lágrimas ao sorriso com um desembaraço digno de nota. Numa das muitas tardes de sol radiante levei-o para uma passeata não longe de casa, mais precisamente em frente ao edifício do Sindicato que se transformou na UNTG no pós independência da GBissau. No passeio oposto ao edifício da UNTG ainda restavam alguns bancos rudimentares em cimento com dois suportes e uma placa horizontal que servia de assento. Pedro tinha na altura uns três ou quatro anitos. Tenho uma foto tirada nesse dia e com ele em franco sorriso. Mas passemos ao acontecido…

Quiçá por estar ‘farto’ da passeata o miúdo passa do sorriso às lágrimas. Querendo dar-lhe um pouco de conforto e curioso por descortinar a causa de mais uma ‘mudança de humor’, disse-lhe: Pedro, porquê a ‘mesma crise de sempre’? A resposta não se fez tardar: não é a mesma crise papá, esta é outra. Ai é outra, procurei saber; sim papá já te disse que não é a mesma crise. Obviamente que o nosso diálogo se fazia acompanhar por um choro intermitente mas com poucos ‘altos’. Na tentativa de ‘suavizar ou desactivar’  mais uma crise, aparentemente de origem e intensidade diferentes, retorqui: Pedro, pelos vistos estamos mesmo em ‘maus lençóis’ pois esta crise que dizes ser outra pode durar muito mais tempo que as habituais: o que é que pensas?

Tranquilizou-me de imediato dizendo: não te preocupes papá porque já está a passar. Ai é? E como é que sabes que está a passar? Como resposta não poderia ter obtido nada de melhor, mais convincente e sobretudo mais tranquilizador: ‘Estou a sentir’….

De regresso a casa era um Pedro esbanjando sorrisos!

Finalizarei esta ‘curta metragem’ com mais dois episódios ambos ocorridos à volta de uma travessa de camarão, episódios esses nos quais eu, meu David e meu sobrinho Ronnie fomos os principais protagonistas.

Apreciem ao que pode estar sujeito um pai e um tio se desatentos! 

A convite dos meus saudosos progenitores, eu e família deslocámo-nos à casa dos velhos num sábado à tarde para saborearmos não só uma tentadora travessa de camarão cozido que reteve imediatamente a minha atenção, como também outras iguarias como doce de batata doce, filhós, cuscús, café com leite, digamos um lanche tipicamente familiar. Desnecessário dizer que o camarão, como não podia deixar de ser, foi por mim acompanhado com cerveja da Cicer…

A um bom ritmo os camarões iam desaparecendo da travessa, sem que me tivesse apercebido do olhar um quanto reprovador e inquieto do meu David que muito naturalmente também gostaria de ter o direito de saborear esse pitéu.   Face à minha incompreensível falta de atenção em relação a esse olhar, eis que o miúdo não se fazendo rogado, decide atempadamente por os pontos nos ‘iiii(s)’ e de uma forma irrepreensivelmente peremptória que não me permitiu continuar esse comportamento pouco digno para qualquer pai. David olha-me ‘bem nos olhos’ e diz: “Papá, não sabes que os camarões fazem os meninos crescer”? Tudo quanto vos posso dizer é que fiquei obviamente estupefacto, procurando refúgio num pálido e desajeitado sorriso que nem sei ‘como  veio e muito menos de onde veio’! Demasiado para um pai…

Entretanto e pelo que se segue, acabarão ou acabaremos por concluir que de bem pouco  me serviu a lição do David. Sinceramente!

O cenário em nada diferiu do anterior na medida em que umas semanas depois e também em casa dos meus ‘velhos’, vi-me ‘a braços’ com mais uma travessa de camarão cozido tendo dessa vez  como concorrente, o meu sobrinho Ronnie. Acautelando-me do que me acontecera com o David, à medida que saboreava essa deliciosa iguaria tive o cuidado de ir oferencendo ao meu ‘adversário’ um ou outro saboroso crustáceo.  Obviamente dos mais pequenos… 

Eis que, no momento em que restavam pouco mais que dúzia e meia de camarões, o meu sobrinho me diz em bom som e sem vacilações: tio João, sabes que os meus pais também me dão dos grandes! 

Pelo conteúdo desta curta metragem vejo-me, por sobejas razões, forçado reconhecer que o camarão, esse apreciado crustáceo, me ajudou saber bastante mais sobre psicologia infantil. E que não restem dúvidas…

Hoje, com os três já bem adultos e pais de filhos, posso assegurar-vos que havendo uma travessa de camarão a partilhar com os mesmos, seria eu o mais vigilante e pronto a dizer de olhos bem abertos: ‘ei gente, também gosto dos grandes’! 

E se vier a ter os meus nétinhos como adversários num idêntico desafio de camarões… é certo e sabido que prepararei um pratinho contendo uns quantos desse petisco, a serem saboreados num espaço mais seguro, com paz e sossego.

Uma sábia forma de me acautelar do que poderia essa terceira geração, bem mais expedita, me reservar como decisão de partilha… Ai não! 

 

Curta metragem I: Assim se impediram algumas aulas…

Ao longo do seu percurso Tatitataia tem procurado chegar aos seus prezados leitores através de pitorescas narrativas de situações ocorridas no dia a dia do então liceu Honório Barreto e no lapso da década 1953-62 durante a qual os protagonistas desses relatos eram alunos que por carisma ou ousadia foram adquirindo alguma notoriedade acabando alguns por se tornarem figuras marcantes dessa instituição de ensino secundário, a exemplo de um Vaínga e sobretudo de um Olilas.

Porém, por todas as razões que tenham contribuído para que esses alunos se tornassem figuras marcantes desse liceu, não há registo de comportamentos reconhecidamente marginais. Tratava-se de jovens traquinas, voluntariosos e não mais que isso… 

Entretanto, esses jovens traquinas e voluntariosos tinham alguns atributos, chamemos qualidades, que os diferenciavam dos demais: 1. eram alunos que só muito esporadicamente, aquando uma ou outra prova escrita de avaliação mensal ou trimestral, se empenhavam na tentativa de se aproximarem dos melhores; 2. eram dotados de uma enorme capacidade para, em escassos segundos e sem muito alarde, levar ao rubro a adrenalina de qualquer docente…e para finalizar; 3. em circunstância alguma e em nome de santo nenhum, se esforçavam por figurar no prestigioso quadro de honra ou em qualquer outro indicador de excelência… A condição de simples alunos era largamente suficiente para alimentar seus egos, modestos em exigências e pouco apreciadores de estéreis protagonismos. Enfim, gente simples… 

O presente modelo de curtas metragens permitir-vos-á familiarizar com uma infinidade de pequenos episódios não menos interessantes que os que vêm sendo narrados neste espaço. Tatitataia espera que este novo formato vos proporcione momentos de agradável leitura.

Nesta primeira curta metragem tentarei descrever a forma bem pouco convencional, através da qual um saudoso colega de nome Júlio César conseguia, com notável eficiência, destabilizar uma aula chegando por vezes a impossibilitar a sua continuidade.

A título informativo, o protagonista deste sui generis desempenho também fez parte do plantel do já mencionado 3° B, 1958-59: um aglomerado de uns tantos alunos e de um punhado de estudantes que se tornou vitrina de uma perfeita e invejável simbiose constituída por essas duas categorias de educandos.

Sempre que solicitado para levar a cabo essa acção destabilizadora, o nosso saudoso amigo, sentindo-se enaltecido, não conseguia disfarçar um discreto sorriso. Esse sorriso que ainda hoje consigo ver… era estimulado por esse irresistível sentimento de orgulho em poder ser útil à sua comunidade estudantil. Nunca recusou esse gesto de solidariedade…

Mas é chegado o momento de saberem em que consistia esse gesto de solidariedade!

Pois caríssimas e caríssimos Tatitas: esse gesto de solidariedade mais não era que uma programada e doseada emissão de gases intestinais portadores de um intolerável e inqualificável odor. Ora o nosso amigo Júlio César, com inigualável mestria, conseguia comandar a contracção do esfincter anal e fazer com que essas emissões só fossem libertas quando oportuno e já agora, em doses com qualidade e volume susceptíveis de surtir o efeito desejado; impossibilitar o leccionamento de uma aula. E creiam que essa eficiência tocava as raias da perfeição. Julio César era inexcedível nessa função!

Esse gesto de solidariedade obedecia a umas poucas etapas escrupulosamente estabelecidas.

A primeira, absolutamente lógica e compreensível, era a de fechar todas as janelas da sala. Essa etapa era vencida ou cumprida, como queiram considerar, uns cinco minutos antes do toque da sineta anunciando o fim de recreio. Uma vez fechadas as janelas, o artífice desse mencionado método de destabilização, passava a dispor de uma sala sem viva alma, onde a preceito cumpria o que dele se esperava.

Ao sentir-se por escassos minutos dono e senhor da sala que se pretendia impraticável para qualquer actividade educativa, uma aula como exemplo, o nosso Júlio César orgulhava-se do seu talento e da sua total entrega no cumprimento da palavra dada. Como já afirmado: era inexcedível nessa função!

Percorria os quatro cantos da sala libertando em cada um uma boa dose de gás intestinal cujo odor nauseabundo se equilatava ao do malcheiroso gás sulfídrico, de fabrico industrial. Conseguia criar um ambiente horrivelmente fedorento e tão irrespirável quanto ao provocado pelas conhecidíssimas bombinhas de mau cheiro. O local ficava totalmente impróprio para consumo, o mesmo que dizer: imprópio para uma sala de aulas…

Findo esse périplo regressava à sua carteira onde, impávido e sereno, continuava  essa acção profundamente destabilizadora. Inclinando o corpo, elevava ligeiramente a nádega esquerda e depois a direita e, sem produzir qualquer ruído, ia libertando os gases intestinais.

Somos unânimes em reconhecer que essa popularíssima forma de libertação silenciosa de gases intestinais, fúss em crioulo, produz um efeito bem mais devastador que o menos discreto peido: ruidoso, incontrolável e socialmente condenável.   Júlio César exibia em perfeita descontracção  todo o seu savoir-faire nessa matéria de intoxicação através de gás intestinal, sem nunca recorrer ao peido.  Era um irredutível apreciador do fuss como método de emanação de gases intestinais, e nesse desempenho era um executante de luxo.

Esse gesto de reconhecido altruísmo era normalmente solicitado quando receávamos que uma dada aula pudesse vir a ser palco para avaliação do conhecimento dos alunos sobre uma matéria do domínio da disciplina a leccionar nessa dada aula. Normalmente os estudantes eram muito poucas vezes abrangidos por esse tipo de escrutínio. Essa avaliação de conhecimento, pouco do agrado de qualquer comunidade de alunos, tinha um nome que causava calafrios: ‘chamada’. 

E era nessa sala diligentemente asséptizada que alunos e estudantes ocupavam seus lugares na iminência da chegada da professora ou do professor. Os primeiros obviamente excitados e ansiosos, pela expectativa de conhecerem a reacção do mestre. Os segundos, compreensivelmente, mostravam-se muito menos complacentes com semelhante cenário…

Normalmente a primeira reacção dos professores era de manifesto descontentamento: ‘mas que raio de cheiro é este’? Abram imediatamente as janelas!

A essa esperada reacção contrapunha-se a de alguns alunos mais afoitos que reclamavam a anulação da aula. Shôtor, não aguentamos este mau cheiro. Há bicho morto nesta sala, puxa… E cada um a seu geito procurava instalar uma certa forma de anarquia e impossibilitar o bom funcionamento da aula. 

E entre os mais ousados aparecia sempre um a solicitar ao ufano Júlio César: Júlio, excelente trabalho. Oh pá envia mais umas pastilhas das tuas! O que em crioulo equiparava-se a: Júlio, hómi bu fâssi bom tarbadjú. Sim sinhôr! Pâ fadja éss kussa, anda bú búri um dús fúss de bom koldadi. Djanti homi… 

Por vezes o nosso amigo respondia ufanamente: mas vocês pensam que sou alguma botija de gás? Por hoje já dei o que tinha para dar….

E nessas circunstâncias, essas aulas tornavam-se pedagogicamente improdutivas por conta desse saudoso Júlio César. Paz à sua alma! 

Flash 3: Apodos, Epítetos do Dicionário de Insultos de Sérgio Luís de Carvalho.

Prosseguindo o tema iniciado no ‘flash’ anterior: insultar bem é uma arte, volto a consultar o Dicionário de Insultos, Estranhas origens e bizarras histórias dos insultos portugueses, Sérgio Luís de Carvalho, Editora Planeta”, para partilhar convosco a longa história dos insultos portugueses levada a conhecimento público com muita perspicácia e elevado sentido de humor na obra supramencionada.

E sigo partilhando novos achincalhamentos:

“Andar à gandaia…

Temos (depois) aqueles que passam a vida a andar à gandaia. Acham que não é um insulto? Pois bem, se se disser que isso significa andar sem fazer nada de útil ou, noutra asserção, andar à má vida e na vadiagem, convenhamos que não é coisa boa, pelo menos. A origem da expressão é espanhola (andar a la gandaya) e significa o mesmo que entre nós. No século XIX a expressão designava aqueles miseráveis que revolviam os lodos do Tejo à cata de algo aproveitável. Eram os pobres que andavam à gandaia.”

“Andar à nora…

Não tão mau como andar à gandaia é andar à nora, coisa que todos sentimos em alguns momentos da vida. Tal como o epíteto refere, isto está relacionado com as noras (não as noras de família, mas as de lavoura), aqueles instrumentos agrícolas para extração da água que giram sempre sem cessar, por vezes movidos por um animal que anda sempre às voltas (à nora). Soa familiar?”

“Andar à toa…

Sinónimo do anterior é o andar à toa. Curiosamente, a toa é corda ou tira de cabedal que serve para conduzir os animais. No fundo, para além do significado similar, também estamos a falar de bichos que são conduzidos. À toa ou à nora…”

“Andar à zorra…

Continuamos com os bichos e com os andamentos. Passemos ao andar à zorra, epíteto um pouco desatualizado (anacrónico, pois) que designa uma pessoa dissimulada e cínica. Ora sucede que zorra é o termo popular para a raposa, canídeo esperto e vivaço. Lembram-se do Zorro? E lembram-se do Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro? Esqueçam o Zorro e leiam o nosso Aquilino…”

“Andar ao deus-dará…

Semelhante ao andar à gandaia, é o famoso andar ao deus-dará. Coisa a evitar e que pode ser atirada como um insulto a alguém. Esta expressão remete para a história de Manuel Álvares, comerciante seiscentista português radicado em Pernambuco. No seu tempo, era comum haver salários em atraso entre os soldados da guarnição lusa. O comerciante, piedoso e solidário tranquilizava a soldadesca dizendo “Deus dará”. E dava. Na verdade era ele quem garantia os víveres e o sustento dos pobres militares. Por posterior mercê régia, acrescentou o apelido Deus-Dará ao seu próprio nome e até recebeu brasão com esse mesmo mote. Ainda há gente generosa e reis reconhecidos. Seja como for, e curiosamente, o termo passou a designar pessoas ociosas que vivem de mãozinha estendida, podendo até ser insultuoso. O tempo é cruel…”

“Andar aos bordos…

andar aos bordos é próprio dos bêbados. Por isso, se dito a alguém, é insulto e ponto final. A génese deste termo leva-nos à linguagem ou à vida náutica, mais especificamente a bordo dos navios que, oscilando pelas vagas do mar, nos fazem andar aos bordos. Como os bêbados. Em sentido figurado, andar aos bordos na vida é andar de cá para lá sem rumo certo.

Uma representação exemplar do andar aos bordos figura numa célebre cena de um filme de Chaplin, O Emigrante, quando, num navio em plena tempestade, um grupo de migrantes tenta comer à mesa… A não perder.”

Tatitataia terá periodicamente o prazer de, através da nova modalidade flash, fazer-vos conhecer mais formas de desconsiderações  provenientes do supramencionado Dicionário de Insultos, a utilizar com muita moderação pois não abonam a favor de ninguém. Seguramente que não.

Entretanto, sempre se disse que saber não ocupa lugar…

Capítulo 13: Memórias de Varela!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Os acampamentos da Mocidade Portuguesa sempre foram aguardados com exaltante expectativa. Por um período raramente superior a duas semanas nos era permitido disfrutar da ausência, ou melhor, da não presença dos pais ou de qualquer encarregado de educação.

A autoridade a que nos sujeitávamos durante essas duas semanas diferia substancialmente daquela que nos era administrada, tanto em casa quanto nos estabelecimentos de ensino.

Os dias que antecediam esses eventos pareciam não ter fim. Apercebia-se no seio da camada jovem um fervilhar de entusiasmo acompanhado de enorme ansiedade. E a confirmar essa enorme expectativa, o que mais se ouvia dizer entre os muitos candidatos a essa evasão era: teus pais deixam-te ir? Sempre vais?

Ahhh, e fiquem sabendo: uma vez assegurada a luz verde para o evento, essa rapaziada,  durante os dias que precediam a partida, tornavam-se inquestionáveis modelos de bom comportamento fazendo uso de uma exemplaridade digna dos melhores padrões…

Varela sempre foi, e ainda é,  uma estância balnear bastante apreciada pela sua beleza paisagística, pela qualidade da  praia com seu areal a perder de vista, seu amplo eucaliptal, seu pescado e suas ostras…, clima e muito mais. Um nunca acabar de atributos que justificavam a enorme ansiedade que precedia o momento de partida para qualquer acampamento da MP com Varela por destino.

Para esse acampamento, optou-se viajar por mar de Bissau a São Domingos e, por estrada, de São Domingos a Varela, em camiões militares. Para a primeira fase da viagem contámos com os bons ofícios de um velho rebocador de nome “Bissau”.

Deixámos a capital ao fim da tarde e, a meio da manhã do dia seguinte, o barco acostou no modestíssimo porto de São Domingos.

Ainda me lembro que essa viagem foi terrível para muitos, dos quais fiz parte, que não resistiram ao baloiçar, às subidas e descidas provocadas pelas ondas, aos solavancos dessa casca de noz com pretensões a  navio, ao cheiro a óleo e a essa maresia cujo odor chegava ao cérebro.

Essa traumatizante experiência fez que não poucos desses ‘marinheiros’ em dificuldades se envolvessem numa espécie de competição de vómitos, tão desagradável aos ouvidos quanto à vista. À chegada a São Domingos, o semblante marcadamente triste e apático desses jovens retratava, plenamente, as agruras suportadas durante esse trajecto por via marítima….

E é nesse quadro de extenuação e desânimo, com uns quantos já merecendo alguma compaixão, que dois colegas mais idosos, frescos que nem folhas de alface, decidem, antes de o barco acostar, passar breve revista às mochilas.

Depois de tanta atribulação, esses jovens, com evidentes sinais de prostração, já não dispunham de  energia que lhes permitisse reagir com adequada firmeza a essa violação de propriedade alheia a céu aberto.

Os responsáveis por esse exercício foram o saudoso Demóstenes Victor Robalo, dito espartano, e o ainda presente Nélson Nogueira Fernandes, mais conhecido por Nélson Couves.

Que fique bem claro, entretanto, que essas brincadeiras, absolutamente isentas de todo e qualquer propósito menos dignificante, nada tinham de comum com as actuais praxes violentas denominadas bullying:  intimidação pelo uso da força. Essas picardias não tinham outro objectivo senão o de optimizar esses raros e episódicos momentos de liberdade. Puro divertimento!

Como modus operandi, os autores dessa série de intrusões começavam por  inventariar o conteúdo das mochilas interpelando os proprietários das mesmas. E se decepcionados com o recheio de uma ou outra, interrogavam com uma certa aspereza: ei, ouve cá; a tua mãezinha só te deu isto? Seu egoísta, porque é que não disseste à tua mamã que te desse um pouco mais para partilhares com os teus amigos? N’tam bú ka fala bu mamé kuma bu tené kolégas? Kata burgunhu!

E, em constante diálogo, iam assumindo papel de juízes: olha, este só trouxe um pacote de bolachas; tomo ou deixo? Toma! Para a próxima ele saberá que há mais quem goste de bolachas. Si pâpia, koquil. É pá, waauuu! Temos atum que chegue…, o pai deste deve ser  comerciante: ah bom? atum n’pagâi? Sobra gajo duss lata pô. Duss lata na tchigal toke i sobra, sisss, m’tchssss! Si mérmeri, kokil, kim ki el? É óbvio que essa colecta era acompanhada de alguns aplausos e, naturalmente, de muitos resmungos proferidos em surdina. Porém, sempre numa boa!

Em São Domingos, antes de prosseguirmos viagem em direção a Varela, tivemos direito a uma refeição à base de sanduíches prenhes de um cornbeef próprio para famintos e acompanhadas por um café bem à tropa, o qual, pela sua qualidade, forçava  a flora intestinal a actividade suplementar…

Bem comidos e melhor bebidos, de mochilas aviadas e confirmado o efectivo vindo de  Bissau, a caravana deixou São Domingos a caminho de  Varela entoando, entre outras,  o bem conhecido hino da MP:

Lá vamos, cantando e rindo; Levados, levados, sim; Pela voz, de som tremendo; Das tubas, clamor sem fim…………..

E assim, de cantiga em cantiga e com muita galhofa, acabámos por chegar a Varela algumas horas depois.

Em Varela, temendo ver o Sol esconder-se no horizonte, foi numa trepidante azáfama que o pessoal, de mangas arregaçadas, se meteu a montar as tendas de campanha onde pequenos e grandes pernoitavam.

Os primeiros dias de estada serviam para matar saudades da maravilhosa praia e adquirir o ritmo das tarefas rotineiras dos acampamentos: cantina, provas desportivas, os longos serões ao redor da chama da MP, o recolher e os provocatórios actos de indisciplina que se lhe seguiam…

Esses actos, apimentados de muito humor, ocorriam quase sempre após o toque de recolher e visavam, normalmente, o chamado corpo de milícias de vigília ao acampamento.

Esse corpo de milícia, composto por indivíduos nem sempre graduados e aguardando incorporação militar, assumia entre o toque de recolher às 22.30 e o de alvorada às 7 e, através de efectivos revezados, o controlo  e a segurança do perímetro onde ficava instalado o acampamento. Em linguagem corrente, ficavam de plantão durante o intervalo acima mencionado.

E é entre esse toque de recolher, às 22.30, e o de alvorada, às 7 e em noites não consecutivas, que tiveram lugar duas saborosíssimas passadas que Tatitataia tem o prazer de fazer constar na ementa que hoje vos propõe saborear!

A primeira, como já vem sendo hábito, foi toda ela confeccionada pelo vosso Galvas.

Na tenda e depois do toque de recolher, sintomas de relaxamento do esfíncter,  sinónimo de iminente defecação, me pressionaram ao imediato abandono desse abrigo…

Sob pressão dessa ameaça e na ausência de uma acautelada vigilância da parte dos plantões, abandonei a tenda  muito sorrateiramente e, levando Deus comigo… embrenhei pelo eucaliptal a coberto de uma meia escuridão.

A um dado momento, com os calções ao nível dos joelhos, ponho-me de cócoras e, aí, vai de me aligeirar de tudo quanto o organismo entendeu por bem rejeitar. Devo dizer-vos que essa fisiológica acção de despejo foi sempre acompanhada de uma agradável sensação de felicidade…

Entretanto, atento ao menor ruído e ainda sob os efeitos dessa fugaz felicidade, senti-me repentinamente invadido por esses medos, cujas origens desconhecemos e que nos causam arrepios. Instintivamente e qual um sapo ou uma rã, dou um salto em frente. Mas o que aconteceu na imediata fracção de segundo é indescritível.

Foi num virar de cabeça que dei conta de uma pachorrenta vaquinha desgarrada que, depois de me ter acariciado o ânus com uma primeira bem-sucedida lambidela, saboreava descomplexadamente alguma porção do que eu me vinha aliviando. Baka limbim bunda!

Em sobressalto, num ápice e sem reflectir, dei ‘às de vila-diogo’. Bati á sola…

Essa fuga, ainda com os calções a meio das pernas e acompanhada de não modestos impropérios, fez-me tropeçar numa das cordas ou espias que seguravam as tendas e estatelar já muito próximo da estrada e sob os olhares de um ou dois milícias mortos de riso pelo meu ar esbaforido e meio envergonhado.

Como resultado dessa escapadela, vi-me na manhã seguinte privado da ida à praia e, mais tarde, na companhia de outros dois punidos por diferentes razões, ocupámo-nos da limpeza do espaço reservado para o serviço cantina.

Não só pela fuga, mas também e, sobretudo,  pela sui generis reacção dessa pachorrenta vaquinha, foi-me muito carinhosamente atribuído uma alcunha, algo que ainda perdura. Entre os que mais contribuíram para a propagação dessa alcunha figura o saudoso António Augusto de Oliveira Marques, o Tony Marques para os contemporâneos e amigos.

Hoje, os dedos de uma mão superam e bem o número dos que ainda me dão o enorme prazer de ouvi-los chamar-me  por essa alcunha. E como fico embevecido!

Mas não percamos tempo. Vamos à segunda passada, bem mais saborosa!

Os já mencionados sintomas de relaxamento do esfíncter, o que, em linguagem corrente, significa vontade de evacuar, foram  a causa principal das frequentes evasões nocturnas à semelhança da que nos brindou o criativo Galvas, useiro e vezeiro em envolver-se em situações susceptíveis de reprimenda. O protótipo de bulidur!

Essa segunda passada relata uma situação que, por dificilmente concebível, fez eco por todo o acampamento e, mais tarde, em Bissau.

Convém entretanto sublinhar que o incidente do Galvas não se reproduziu a papel químico na medida em que a nova vítima de mais um relaxamento de esfíncter rectal optou por não abandonar a tenda. Questão de estoicismo!

O acesso à cantina era efectuado em fila indiana e controlada pelos elementos da milícia. Aproximávamo-nos por sectores e, ao chegar à mesa onde eram servidas as refeições,  separávamos as peças da marmita de modo a receber o que era o rancho do dia, o qual não ia muito além de sopa, arroz, um prato de feijão com carne ou qualquer enlatado e um pedaço de pão. A água era distribuída e cada um encarregava-se de encher o seu cantil.

Esse segundo incidente acabou mui naturalmente por ser mais amplamente divulgado, por ter ocorrido à hora do almoço e, na presença da quase totalidade do efectivo dos jovens acampados.

O momento mais hilariante acontece no instante em que um dos pupilos, o conhecido Tonecas Parente, ao abrir a marmita para receber a ração, constata com enorme estupefacção, que uma das peças da mesma, não estava vazia…

E por mais inverosímil que vos possa parecer, essa peça da marmita do jovem Tonecas arrecadava um volume pouco invejável de cocó.

Sim, cocó, comummente denominado fóra em crioulo. Não podia haver margem para dúvidas. Cheiro, côr, textura, aspecto, enfim, tudo correspondia aos parâmetros ou requisitos que definem essa massa que o organismo humano rejeita pela via rectal.

Não dava lugar a especulações. Cocó e nada mais que cocó!

Sabendo com quem partilhava a tenda, o nosso Tonecas, vermelho de raiva, vira-se num ápice e, sem perda de tempo, dirige-se à pessoa visada dizendo: ó meu grande sacana, em tua casa tu cagas em marmitas? Olha, só te digo o seguinte: procura onde dormir esta noite porque se voltares a entrar na minha tenda eu parto-te o focinho. Mas os impropérios não se resumiram a esses. Pudera!

O visado não era outro senão o saudoso Coelho de Mendonça, vulgo lapin, colega de tenda do nosso Tonecas Parente, mais tarde conhecido como treinador de algumas equipas de futebol da Guiné a citar, entre outras, o Benfica e o Ténis Clube de Bissau.

E foram esses os episódios mais marcantes do segundo acampamento da MP em Varela e, por algum tempo, bastante lembrados em Bissau pela camada jovem!

Tatitataia voltará a estar convosco o mais breve possível. Sejam pacientes… 

   

 

Capítulo 12: Armando Salvaterra, vulgo ‘Vainga’!

Tatitataia de novo presente para o prazer de vos fazer conhecer e, ao dizer fazer conhecer, refiro-mo à geração mais jovem pois, os que frequentaram o então Liceu Honório Barreto nos anos lectivos vizinhos de 1960, não se permitem dizer que não conheceram o saudoso Vainga!

Essa saudosa figura marcou uma geração. A minha, da qual fazem parte muitos dos que se dão ao trabalho de ler  Tatitataia e, muito possivelmente, a geração seguinte que se foi  inteirando sobre essa figura que, como muitas outras, também marcou a década de 60 enquanto aluno do Liceu Honório Barreto.

Armando Salvaterra, Armandinho Salvaterra ou Vainga que, nos momentos de euforia, autoproclamava-se de Armando Das Sargóvias e Salvaterra. E quando em grupo se afirmava como tal, não era de todo parco nas habituais, sonoras e inimitáveis gargalhadas a que muito agradavelmente nos acostumou.

Bem poucos foram capazes de se evidenciarem e de se tornarem reconhecidos pelo riso, quanto foi o saudoso Armandinho Salvaterra. Só um outro nome me vem à mente: Filinto Cécil Nogueira Miranda, vulgo Katxetxi.

Falar de Vainga é viajar no passado e dispor de alguma memória para relatar as muitas situações em que se envolveu. Armando Salvaterra jamais poderia ser figura apagada. Não só durante o seu percurso académico como, também, já adulto nas mais díspares situações a que se viu confrontado. E não foram poucas…

São poucos os que frequentaram o Liceu Honório Barreto pós-1958 que não tenham algo a dizer do nosso Armando Salvaterra, tragicamente desaparecido num obscuro acidente de viação já no período pós-independência da Guiné-Bissau. Esse trágico acidente ocorreu em circunstâncias pouco naturais que nunca foram esclarecidas. Devo dizer que Vainga não morria de amores pelo poder instalado em Bissau a partir de Setembro de 1974!!!…

Depois deste já longo intróito, é chegado o momento de contar-vos, sem preocupações de ordem cronológica, algumas das muitas peripécias do inesquecível Vainga. Entretanto, por  tudo quanto venha a descrever, podem estar certos de que muito, muito mesmo, ficará por dizer sobre o saudoso Armandinho Salvaterra…

Em determinados dias de semana, a sede do Comissariado da Mocidade Portuguesa (MP), em Bissau que, mais tarde, deu lugar aos Serviços de Fazenda e Contabilidade, sito na Avenida Marginal, mesmo em frente ao símbolo dos Descobrimentos com os dizeres : Por mares nunca dantes navegados, abria as portas no período da tarde entre as 16 e as 18.30 para umas tantas actividades: Canto Coral, Culinária para as alunas, jogos como ténis de mesa (então mais conhecido por pingue-pongue), matraquilhos e outros. Faço saber que essas actividades tinham lugar em dias e semanas diferentes, portanto, sem possibilidade de sobreposição. O empregado, que nessa altura se encarregava da abertura e do encerramento desse Comissariado não era outro senão o saudoso Mansoa, vulgo Cara feia.

Vainga adorava o pingue-pongue e, entre os adversários mais assíduos no Comissariado da MP citarei: Alexandre de Carvalho (Papa de Mussá), João Cardoso, João Galvão, Olívio Mendes, Tony Delgado e, entre os menos assíduos, os brilhantes alunos João Armando Mascarenhas Araújo e Luís Augusto Rodrigues Fernandes, prestigiados médicos em Portugal. O primeiro, especialista em medicina interna e o segundo, cardiologista. Ambos de renome.

Entre as muitas experiências vividas nessas maravilhosas tardes passadas no Comissariado da MP apontarei a estratégia utilizada por Vainga para vencer-me nas nossas batalhas de pingue-pongue. E com esse método ganhava bem mais jogos do que os que esporadicamente perdia quando me enfrentava. Para que vos faça compreender melhor o nosso amigo, ele, ao bolar, fazia um breve compasso de espera que produzia um efeito desgastante na minha pessoa. Olhava-me desafiadoramente e, depois de fazer uso das suas habituais e por vezes enervantes gargalhadas, dizia: estás pronto? Olha que o meu bolar é tramado: ami nha bola i ka kualker kanadja ke ta panhal. Traduzido: o meu bolar não é para qualquer um; não é para o primeiro que chegue. E, para se tornar mais demolidor, acrescentava: si bu otcha kuma i ka bali pena n’pirdi tempu ku bo, anda bu dissa utru entra. Chatissa pá! O mesmo que dizer: se não te sentes capaz de enfrentar-me, dá lugar a outro. Esses sucessivos apoucamentos botavam abaixo o meu moral, deixando-me mais tenso que uma corda de viola e totalmente incapacitado para jogar o que sabia. E o resultado era, uma vez mais,  uma vitória do inesquecível Armandinho!

Deixemos o Comissariado da MP e passemos ao registo de alguns incidentes ocorridos no Liceu Honório Barreto e com o nosso Salvaterra no papel de vedeta…

Começarei por uma senhora de origem indiana: a dr.ª Palmira Lopes, professora de Ciências Físico-Químicas. Salvaterra sempre deu que fazer a determinados professores e, ao que parece, a dr.ª Palmira terá merecido uma atenção mais cuidada da parte do Armandinho. Pelo menos é o que consta… A comprovar, aqui relato apenas dois dos muitos momentos de desavença entre o aluno Salvaterra e a professora Palmira Lopes, incidentes ainda hoje presentes na memória de muitos dos que estão  lendo estas páginas.

O primeiro foi uma frase proferida com invulgar ousadia pelo Armandinho que, de viva voz e no decorrer de  uma aula de Física, disse à pobre professora, Palmira Lopes, o seguinte: a senhora foi a pior encomenda que o Pandita Nehru nos enviou.  Jawaharlal NEHRU foi o primeiro Primeiro-Ministro da Índia independente em 1947 e o grande arquitecto da Constituição desse país, elaborada em 1950.

O segundo, fica por conta da qualidade do português dessa mesma professora que, ao decidir um dia expulsar Salvaterra por mais uma atitude à margem dos preceitos estatuídos, aponta o dedo ao nosso Vainga e diz:  Salvaterra, vai fora! Ao que o nosso amigo prontamente respondeu: minha senhora, não tenho vontade. Já fiz fora esta manhã antes de vir para o Liceu. Ora bem! Essa resposta mais exacerbou a ira da professora, incapaz de compreender a ironia do Salvaterra.

Efectivamente, ir fora, bá fóra significa em crioulo: ir à casa de banho para satisfazer a mais comum das necessidades fisiológicas; defecar, cagar. Fazer cocó!…

Armandinho também deixou traços nas aulas de um dos ícones do Liceu Honório Barreto: o dr. Caldeira Firmino, professor de Inglês. O saudoso Tell me!

Sempre que solicitado pelo Tell me a dar resposta a uma questão, o nosso amigo fazia da palavra because um autêntico refrão. A resposta muito raramente passava da conjunção because. Because…., because…. because….. E daí não passava até que um irritadíssimo Firmino,  já pelos cabelos, o convidava a calar-se.

Vainga tinha por hábito meter nos pés os conhecidíssimos chinelos com duas tiras em espuma de plástico ou borracha que a gíria denomina sarampo e que os brasileiros chamam havaianas. Pois o nosso Tell me, por detestar esse meio de protecção aos pés, pressionava o nosso Vainga com constantes reprimendas. E, um dia, já cheio dos chinelos do Salvaterra, decide questionar: mister Salvaterra, Why are you steadly wearing these horrible man’s toe-thongs slippers instead of a decent pair of shoes? Por que te apresentas diariamente com essas horríveis chinelas havaianas em vez de algo mais decente? Seguramente que um colega mais conhecedor da língua inglesa terá traduzido a pergunta ao nosso amigo. Entretanto, se a pergunta veio em Inglês, o nosso Salvaterra, não se fazendo rogado, respondeu com uma fleuma bem britânica: Because….because….because n’ka tôpi nim um pésss! O que em Português corresponde a: porque não disponho de um centavo. Não tenho dinheiro…

Quanto às relações com as miúdas, Armandinho não denunciava a timidez própria dos rapazes adolescentes face às raparigas bem mais avançadas ou ousadas… nessas idades. Chegava, uma vez por outra, a aventurar-se dizer às miúdas, quando provocado ou desafiado: se n’panhau n’na rikitiu bunda! Se te apanhar, dou-te uma beliscadela nas nádegas…

Armandinho tinha no topo da sua longa lista de qualidades por ele mais frequentemente demonstradas: a arte de desmaiar. Eu não ousaria, porém, afirmar de que não era dotado para outros desempenhos. Quando muito, seria apenas menos afoito, menos desenvolto nas outras rubricas que tanto enriqueciam a sua mencionada arte de desestabilizar uma professora ou um professor com a finalidade de transformar os nem sempre suportáveis cinquenta minutos de uma aula em momentos bem mais agradáveis.

Tanta conversa para vos dizer que o saudoso Salvaterra era polivalente. Enfim, o aluno, o colega ideal para, em meia dúzia de palavras associadas a pequenos gestos raramente chocantes, apenas com conta e medida, fazer a adrenalina de qualquer professor ou funcionário afecto ao já mencionado estabelecimento de ensino, atingir os limites do clinicamente aceitável. Salvaterra foi esse aluno. Difícil descortinar alguém melhor que Vainga para assumir, sem reservas e com algum regozijo, esse tipo de incumbência.  

Quanto aos desmaios, citarei apenas dois!

O primeiro ficou por conta de um desafio, uma espécie de aposta.

Armandinho fez saber aos seus mais próximos colegas de turma, Tony Delgado, Olívio Mendes e João Cardoso, o seu bem presente desejo de cravar um pequeno-almoço ao saudoso reitor, dr. Alfredo Pequito, vulgo Reitas. Para ser mais preciso: uma sandes de fiambre e um copo de batido de groselha da Pastelaria Império de então, que pertenceu à família Estácio.

Para levar a cabo esse projecto genuinamente Vainga, Salvaterra pôde uma vez mais contar com os bons ofícios dos seus habituais compagnons de route, Tony Delgado, Olívio Mendes e João Cardoso: amigos e paus para toda a obra!

Antes do grande recreio, entre as 8.50 e as 09.20, visado para a materialização da aposta, essa pequena mas solidária associação de jovens comediantes fez questão de não deixar passar o fugaz intervalo das 7.50 às 8 sem dele tirar algum proveito, assegurando a primeira confrontação com o saudoso Pequito. Um bom desempenho nessa primeira confrontação era fundamental para o sucesso da aposta. Assim programado, melhor executado.

Precisarei, entretanto, de algum engenho para relatar, com minúcia possível, o brilhante desempenho e a coragem desses talentosos comediantes que permitiram a Salvaterra, em escassos 10 minutos, mui merecidamente ganhar a aposta lançada ao dr. Alfredo Pequito, o saudoso Reitas.

E vamos aos factos!

A postos para a acção, os nossos comediantes aguardaram que o dr. Pequito saísse da reitoria, situada no edifício de cima, a caminho do edifício de baixo, onde deveria leccionar uma aula no 2.° tempo, das 8 às 8.50.

Assim que calcularam o reitor a distância propícia para dar início ao projecto-aposta, os dois amigos de recurso posicionam-se, um de cada lado do pseudo-paciente e, num gesto de louvável solidariedade, transportam o nosso amigo Salvaterra que, segurado pelos braços passados à volta do pescoço de cada assistente e, também, amparado pela cintura por ambos os socorristas, esmerava em mostrar-se verdadeiramente diminuído fisicamente. Com esse cenário, foi permitido à assistência ver um frágil Salvaterra ser penosamente transportado por dois bons samaritanos. Esses comediantes chegaram a suscitar, através dessa cena, uma vaga de admiração associada a uma palpável incredulidade no seio da massa estudantil presente.

Uma cena verdadeiramente surrealista!

Entretanto, os dois excelentes comediantes feitos socorristas, ao se darem conta de um Pequito já próximo e um tanto estupefacto por esse quadro digno das melhores plateias, exibiram um invejável talento ao pronunciarem em comedidos mas perceptíveis decibéis: bolas, mas não há alguém que ajude?! Não vêem que o nosso colega não está bem?!

E, com esses dizeres, conseguiram extorquir do reitor a esperada pergunta pela qual vinham diligentemente obrando para que fosse pronunciada: mas o que se passa com esse miúdo, perguntou o reitor!

A resposta não se fez esperar…

Em boa voz e quase em uníssono, responderam: senhor reitor, o nosso amigo Salvaterra não jantou ontem e está neste estado, porque até agora não comeu nem um pedacito de pão. Nada, mesmo nadinha no estômago. O que ele tem é FOME!

Numa pronta reacção, o reitor, com manifesta autoridade afirma: não podemos deixar este garoto neste estado! E, aproximando-se de Salvaterra, interroga: o que te apetece comer, meu rapaz? Ao que um Salvaterra com ar meio abatido, fungando do nariz e emitindo uns soluços mal simulados, respondeu em voz titubeante: senhor reitor, uma sandesita de fiambre e um batidinho de groselha da Pastelaria Império.

Esse diálogo entre Pequito e Salvaterra, em que o último, com calma desnaturada e comovente humildade, pede  “uma sandesita de fiambre e um batidinho de groselha”, era merecedor de bem melhores plateias. Simplesmente sublime!

Um quanto apressado com o tocar da sineta para o início das aulas do 2.° tempo, 08-8.50, o dr. Pequito deixou instruções para que Salvaterra fosse conduzido a um exíguo reservado com ligação à secretaria situada no edifício de baixo. Acto contínuo, deu algumas moedas a um servente de nome Augusto para que o mesmo se deslocasse à Pastelaria Império a fim de comprar o menu que Salvaterra havia proposto para pequeno-almoço.

Dos rescaldos desse hilariante episódio ficou o registo de que Salvaterra, já meio recomposto, fez saber ao pessoal da secretaria de que já se sentia em condições de ficar só, pelo que prescindia da companhia dos colegas que até aí o vinham prestando cuidados. Esses dois colegas acabaram por regressar à sala de aulas sem terem podido colher o benefício da aposta para a qual tanto contribuíram.

Moral da história: o nosso Vainga, vitorioso e livre de qualquer concorrência…, pôde tranquilamente saborear o seu troféu convertido numa suculenta sandes de fiambre e num delicioso batido de groselha. Saudoso Armandinho!

O segundo desmaio foi fabricado numa aula de História orientada pela professora Leonilde Cabrita, mãe do Eng.° Lima Infante, um dos gerentes da então Sociedade Comercial Ultramarina. Como a aula estava sendo demasiado monótona e pouco aliciante, João Cardoso e Tony Delgado, inseparáveis amigos do nosso Salvaterra, acharam por bem solicitar os bons ofícios desse prezado amigo para que pusesse fim a essa aula que já se fazia um verdadeiro calvário.

Sentindo-se estimulado e engrandecido pela solicitação dos amigos, Salvaterra gesticula um braço em direcção à professora e diz: minha ‘cenoura’ e,  ainda sentado na carteira e com a frase por acabar, encosta a face direita da cara na carteira e deixa tombar os braços como dois pêndulos, um ao lado de cada perna.  Acto contínuo, João Cardoso e Tony Delgado transmitem à professora o diagnóstico: minha senhora, ai minha senhora, o Salvaterra desmaiou. Desmaiou, ai Deus, desmaiou. E fizeram um alarido…

Enquanto a professora se encarregava de comunicar o sucedido à reitoria, os bons samaritanos de serviço, Tony Delgado e João Cardoso, transportaram um fragilizado Salvaterra à casa de banho com a intenção de reanimá-lo através de uma boa molhadela na cabeça, acompanhada de algumas tapas no rosto… tapas essas, muito mal aceites pelo desmaiado que ia deixando escapar uns tantos impropérios.

De regresso da casa de banho, transportando pelos ombros e pela cintura um Salvaterra cada vez mais debilitado, esse trio teve a sorte de ser interpelado pelo professor Amaro, director da Escola Técnica (Escola Comercial e Industrial de Bissau), o qual, ao inteirar-se quanto ao preocupante estado de saúde de Armandinho, prontificou-se a levar ao hospital esse núcleo de excelentes comediantes.

Cómoda e principescamente instalados no banco traseiro do Cadillac do professor Amaro, não tardaram a chegar ao Banco de Socorros do Hospital Central de Bissau, hoje denominado de Hospital Simão Mendes. Para grande felicidade dos nossos comediantes, o professor Amaro, uma vez cumprida a missão de os transportar ao hospital, regressou ao seu posto de trabalho.

Vendo a viatura partir e livres de quaisquer constrangimentos, os nossos amigos orientaram a bússola rumo ao mercado principal, féra de praça, onde se regalaram comprando mancarra cozida (mancarra firbintidu), doce de mancarra e pouco mais. De regresso ao liceu a tempo de recuperar os haveres escolares…foram amplamente aplaudidos pelos colegas,  pelo gesto de solidariedade dispensado a um colega em dificuldade…

Assim eram os jovens dessa época. Entre esses (e por tudo quanto acabam de ler), Armandinho Salvaterra, enquanto ícone, merece estar num patamar acima dos demais: pela sua irreverência, sua graça, sua ousadia, sua criatividade e pelo muito que ficou por dizer dessa tão querida e estimada figura. Assim foi Armandinho Salvaterra

Ainda tenho comigo uma carta que o saudoso Salvaterra me endereçou nos últimos dias de Dezembro de 1972…

Tatitataia voltará a estar convosco o mais brevemente possível. Sejam pacientes!