Tony Marques!

Tatitataia já escreveu tantas estórias e já abordou, por um motivo ou outro, o nome de muitos que não passaram despercebidos enquanto alunos da primeira instituição de ensino liceal da nossa Guiné: o nosso tão querido Liceu Honório Barreto.

Lamentavelmente, muitos desses nos deixaram bastante cedo. E entre os que nos deixaram prematuramente, seria imperdoável não mencionar o nome de Tony Marques, António Augusto Oliveira Marques, o n° 2 dessa sobejamente mencionada turma B do  ano lectivo, 1958-59!

O desaparecimento físico do Tony produziu um imenso choque. Obviamente para a família em primeiro lugar: para a mãe, a D. Esmeralda ainda viva na altura, o irmão Waldemar, os filhos ainda em tenra idade, a Lara e os gémeos Samory e Jorge,  seu primogénito Valdemar com o diminutivo de ‘Djony’ e obviamente a inconsolável esposa Elsa Almeida Marques. E naturalmente para uma infinidade de amigos e conhecidos…

Esse trágico acontecimento, um mergulho à beira-mar numa zona escarpada, ocorreu, se a memória não me trai, em 1985. Estava eu em vésperas de deixar Bissau a caminho dos Estados Unidos, a coberto de uma bolsa de estudos. A notícia tombou em Bissau com enorme estrondo, como que o ribombar de uma trovoada.

Por se tratar de uma figura bastante conhecida em Bissau…, a notícia deixou meio mundo incrédulo!

Partiu na flôr da idade como é costume dizer-se. Pelas minhas contas, enquanto contemporâneo, Tony estaria na altura dessa tragédia, nos seus 40 anos ou 41 quando muito!

Tony, para além do seu espírito afável e comunicador, foi um desportista polivalente. Só me fica a dúvida quanto ao hóquei em patins. Entretanto vi-o praticar futebol no Ténis Clube de Bissau, bem como outras modalidades como o basketball, volleyball, handball para não falar da sua paixão pelo ténis, o lawn-tennis no qual o irmão, o saudoso Waldemar e o também falecido Jorge Sinais foram brilhantes praticantes.

Para além desses atributos no plano desportivo, não posso deixar de mencionar as suas qualidades artísticas. Viola, baixo e acústica nunca lhe puseram em xeque. Conjuntos musicais, serenatas e outras actividades desse género fizeram parte dos seus hobbies de predilecção.

Mornas e coladeiras, passando por sambas e canções brasileiras, tudo o saudoso Tony cantou. Parece-me ouvi-lo: “Oi dja Braba n’ka nêgábo, oi nha ninho n’ka dixábo…” ou se quiserem, contorcendo-se como só ele sabia, cantando e dançando os roc’n’roll de Bill Halley , de Chubby Checker ou de Elvis Presley o rei do rock-and-roll. Enfim, também polivalente na música e canções.

E quando se sentia mais românco, era delicioso ouvi-lo cantar slows como o September In The Rain do compositor americano Nelson Riddle ou o Love Is A Many Splendored Thing dos compositores Sammy Fain e Paul Francis Webster, como reza o Wikipédia… E conhecia muitas mais. Servia-se de um vastíssimo repertório das mais célebres vozes americanas da época: Sinatra, Dean Marin, Nat King Cole e & …

No plano profissional Tony ascendeu a posições de relevo tanto na Guiné como em Cabo Verde, nos Serviços Aduaneiros de ambos os países.

Mas passemos ao espírito Tatitataia para vos contar um pequeno episódio ocorrido numa sala de aula do Liceu Honório Barreto, acontecimento esse em que o Tony Marques foi vedeta.

Só um Tony Marques e só uma turma como o 3° B, poderiam tornar possível semelhante episódio. Oiçam porque vale a pena… 

Que acreditem ou não…, a cena que tentarei reproduzir o mais fidedignamente possível, teve lugar durante uma aula de matemática leccionada pela Dra Fernanda Barroso irmã de uma outra professora, essa de história e de nome Francisca Barroso que a malta entendeu alcunhar de Nha Xica! A rapaziada tinha portanto duas manas professoras: a ‘Nha Xica e Nha Fernanda’, ambas com ares de inveteradas solteironas.

E por conta dessa declarada inclinação pelo celibato…, os mais afoitos diziam que se num dia de sol luminoso a D. Francisca chegasse a vencer essa tendência para o celibato, ‘dando o passo’…, levaria a irmã na qualidade de um bónus… ao feliz ou infeliz do marido que lhe saísse na lotaria dos amores.

E não é que por conta desse imaginário ou inimaginável ‘bónus’…, a pobre da professora, refiro-me à D. Fernanda, deixa literalmente de ser mencionada pelo nome próprio para ser, dos pés à cabeça, conhecida como a ‘labarrémo’, o que em crioulo significa mesmo… GORJETA! E esta?!

Mas passemos ao relato da cena soberbamente interpretada pelo nosso Tony Marques. Prestem atenção…

Toca a sineta para o início das aulas e a garotada entra na sala onde, a caminho dos seus lugares ainda encontra tempo para uma palmada no colega, uma careta, pronunciar com suficientes decibéis  uma alcunha pouco apreciada, a qual, por pouco simpática dava direito a retornos nem sempre em conformidade com as regras de boas maneiras…, ou uma ou outra saída menos previsível que viesse à mente! Depois desses momentos de alguma atribulação, instaurava-se algum silêncio nem sempre suficiente e de qualidade a permitir que se processasse em devidas condições a conhecida chamada para conferir presenças.

Conferidas as presenças e com a professora Fernanda Barroso em vias de acabar de escrever no livro de ponto o sumário da matéria prevista para essa aula, a turma vê um aluno abandonar seu lugar com um sorriso nos lábios e muito seguro de si, avançar descomplexadamente em direção à secretária da professora, colocada por cima de um estrado e próxima dos dois grandes quadros em ardósia.

Sendo esse aluno o Tony Marques, a turma não precisou de nenhuma explicação de fosse quem fosse para se aperceber que a rapaziada estava na iminência de presenciar uma daquelas cenas a não ser tão cedo esquecida… Dominando  uma natural excitação, esse 3° B soube aguardar o momento para demonstrar a sua habitual solidariedade e a sua indefectível cumplicidade para com todo aquele que se mostrasse mais audaz. E uma vez mais, nesse dia e nessa aula, essa solidariedade foi assumida com bastante brilho. Mas que turma…

Tony vence os dois degraus do estrado e em pequenos passos aproxima-se da secretária da Nha Fernanda a labarrémo com um ar pedinchão e um sorriso bem maroto esperando o apoio da sua troupe. O silêncio é quebrado pela professora que diz: o que faz aqui o Marques? Vá para o seu lugar. E a reacção de Tony não tardou: minha senhora, eu quero cantar!

Foi exactamente isso que a professora e a turma ouviram desse Tony mantendo um aberto sorriso, cada vez mais envolvente, mais contagiante e perfeitamente descontraído como se estivesse tendo um comportamento merecedor de rasgados elogios.

E foi nesse preciso momento que a turma não se conteve e libertou dois pestinhas, e seria de estranhar que o Galvas não tivesse sido um deles…, que sobem ao estrado e se posicionam à frente do Tony e dizem à professora: ai Deus minha senhora, ai Deus… deixe o Tony cantar. Ele canta bem, bem, bem, muito bem mesmo. A senhora vai gostar!

E sem esperarem pelo aval da professora esses ‘dois pestinhas’ incitaram Tony cantar: Tony canta, ka bu médi; alinú li, kanta!... ao que ele não se fez esperar e muito menos rogado….

Daqui p’rá frente espero poder contar com a vossa imaginação para poderem na devida medida apreciar essa cena absolutamente surrealista, digna de ser vista e revista. É um Tony totalmente descomplexado e descontraído que, cantando e dançando ao mesmo tempo, premeia toda uma turma plena de alunos e de um pequeno punhado de estudantes, com a seguinte canção toda ela brasileira: Eu quero-me casar, eu quero-me casar, eu quero-me casar mas não sei com quem (?!), você quer (?!) , ta-ra-ra-ra-ra-ra…ra-ra-ra! Bis repitita… Eu quero-me casar, eu quero-me casar, eu quero-me casar mas não sei com quem (?!), você quer (?!) , ta-ra-ra-ra-ra-ra…ra-ra-ra! Isso tudo bem dançado e sempre estimulado pelos espectadores…

E não preciso dizer-vos que os mencionados pestinhas que partiram a apoiar Tony, envolveram-se de corpo e alma nessa coreografia dançando ao lado do Tony que, a cada vez que questionava o você quer…, punha as duas mãos sobre o peito como que a medir as batidas de um coração apaixonado. Como disse, surrealista MAS aconteceu ali à frente de uma salada de muitos alunos e poucos estudantes, prefazendo um total de cerca de pouco mais de vinte…

Isso foi obra do Tony Marques e desse 3° B de gratas memórias. Repousa em paz querido Tony!

E para terminar esta singela homenagem a Tony Marques ou se quiserem uma terna lembrança a esse meu saudoso amigo e companheiro de turma, tomo a liberdade de vos fazer ouvir duas canções que Tony, por apreciá-las sobremaneira, as cantarolava amiúde: September in The Rain na voz do inolvidável Frank Sinatra e Love is The Many Splendored Thing na suavíssima voz de veludo do não menos famoso Nat King Cole. Que sejam ambas do vosso agrado!

Saber não ocupa espaço!

Tatitataia tem o prazer de partilhar algumas saborosas e instrutivas expressões recolhidas de “Uma viagem pelas histórias das EXPRESSÕES PORTUGUESAS, Nova Edição nos trinques de NAS BOCAS DO MUNDO” do autor Sérgio Luís de Carvalho, Editora: Grupo Planeta. Página 65…

“Coisas de reis, de nobre e de cavaleiros:

A sociedade mediaval é uma sociedade tripartida, ou seja, assente em três grupos sociais: clero, nobreza e povo. As funções, hierarquias e estatutos de cada grupo estavam bem definidos. Cabia aos nobres manter a ordem e a paz (os belatores, ou seja, os que combatiam), cabia ao clero orar (eram os oratores, os que oravam) e ao povo cabia suportar a sociedade (eram os laboratores, os que laboravam).

Em termos de Estado, a medievalidade marca um período de tentativas de afirmação do poder real, numa relação nem sempre fácil com os grupos privilegiados, também eles detentores de poder: nobreza e clero. De facto, o feudalismo levou, em muitos países, a um esfacelar do poder régio.

Vejamos então expressões ligadas a reis, nobres, cavaleiros e demais gente dos grupos privilegiados deste mundo medieval. E muitas dessas expressões são, realmente…

Do tempo dos afonsinhos [afonsinos]

… que remete para algo muito antigo ou arcaico. Neste caso, é clara a referência à primeira dinastia portuguesa (século XII a XIV) fundada por Afonso I: a dinastia afonsina, que também se designa por dinastia de Borgonha. E já que falamos de reis… Nas suas cortes existiam tradições curiosas que deram origem a expressões que ainda hoje subsistem. Uma, assaz conhecida, é:

[Ser o] Bobo da corte

O significado é simples: ser aquele com quem todos gozam, ou aquele que faz tolices. Nas antigas cortes europeias, o bobo correspondia àquela personagem que podia ironizar com tudo e com todos sem ser punido (bom, desde que não exagerasse, claro). No fundo era alguém que não era levado a sério. Note-se, já agora, que o próprio termo “bobo” vem do latim balbus, que significa “gago”. A explicação é simples. Uma das formas de provocar o riso era através da imitação da gaguez, técnica ainda hoje usada por cómicos pouco imaginativos.

Mas a corte, nos primeiros tempos da nossa monarquia, não tinha poiso certo. Muitas vezes deslocava-se pelo país, estabelecendo-se em paços, em castelos ou em quintas régias. Daí vem a expressão…

Estar nas suas sete quintas

… que quer dizer  “estar deliciado, estar muito confortável”. Segundo uma antiga lenda, os reis nacionais possuíam sete quintas no Seixal, para as quais se recolhiam quando queriam descansar e folgar. Estavam nas suas sete quintas, de facto. Caberá aqui recordar que, por muito interessantes que as lendas sejam, não correspondem à verdade histórica. Mas que podem dar origem a expressões correntes, lá isso podem…

Continuando com os reis, uma expressão muito conhecida é…

Andar com o rei na barriga

… ou seja, “fazer-se importante, agir com soberba”. A origem desta expressão não parece complicada. Remonta ao tempo das monarquias europeias, quando a gravidez de uma raínha era motivo quer de preocupação quer de alegria. Preocupação pelo elevado grau de periculosidade associado à gravidez e ao parto (vinte por cento das mulheres do Antigo Regime morriam no parto), e alegria pelo príncipe que ia nascer e que assegurava a continuidade da dinastia. Por tudo isto, a raínha era alvo de atenções e cuidados constantes; literalmente, “andava com o rei na barriga”. Diga-se, entretanto, que de França, e associado a este tema, nos veio a expressão:

[Ser um] Delfim

… que mais não é que “ser o sucessor natural de alguém, ser o preferido de um líder para a sua própria sucessão”. Sucede que “delfim” (dauphin) era a designação do príncipe herdeiro na antiga monarquia francesa, sobretudo nas dinastias Valois (séculos XIV a XVI) e Bourbon (séculos XVI a XVIII).

E já que falamos de reis, podemos aqui referir uma curiosa e já pouco frequente expressão que é:

Não é nenhuma ucharia

A ucharia era um cargo mediavel que consistia em cuidar da despensa da casa real, sendo ocupado geralmente por um nobre. Era um cargo importante e bem remunerado, a julgar pela expressão acima citada.

Dos nobres e dos cavaleiros mediavais vem ainda a expressão…

[Ser um] Paladino

… que designa um nobre defensor de uma causa. No poema épico mediaval francês, Chanson de Roland, os Paladinos eram os doze cavaleiros de Carlos Magno. Recorde-se que o poema teve particular divulgação na Europa da época. Entretanto, diga-se que o próprio termo tem a sua origem em palatinus (oficial do palácio imperial), que, por sua vez, remonta ao monte Palatino, na Antiga Roma.

Mantenhamo-nos nos nobres, fidalgos, e cavaleiros, no seu mundo e hábitos. Se bem que, como hoje, as modas variassem e o costume de ter barba fosse condicionado pela moda, é também certo que as barbas eram geralmente sinal de sabedoria e nobreza. Assim, temos a famosa asserção…

Pôr as barbas de molho

… que se diz quando alguém se acautela contra um perigo iminente. A frase leva-nos, de facto, a estes tempos. Cortar as barbas, ou ser obrigado a cortá-las, era tido como humilhante para certos escalões sociais, sobretudo para a nobreza. Por isso, muitos homens eram muito cuidadosos na sua preservação. O próprio D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia, quando teve que reconstruir, em 1546, a fortaleza de Diu, empenhou as barbas como garantia de um empréstimo de vinte mil pardaus para tal tarefa. A frase completa é: “Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as barbas de molho.” Popularmente, só ficou a segunda parte. A vaidade cedia à humildade. Curiosamente (perdoe-se-nos o aparte), também na Rússia, China e Japão, as barbas e o cabelo eram considerados como marcas nobilitantes; de tal forma que quando alguns monarcas quiseram reformar os seus países, ordenaram o corte de barbas e cabelo aos súbditos, como marca de um forçado progresso. Esse foi o caso do imperador Pedro, o Grande, na Rússia, que, por volta de 1700, ordenou o corte das longas barbas da nobreza rural russa. Quem não quisesse, teria de pagar pesados impostos.

Aliás, que a honra e a coragem era algo de essencial para os nobres, prova-o a histórica frase que se segue e que ainda hoje é usada:

É fartar, vilanagem!

A expressão é usada por alguém que se considera injustamente alvo de críticas ou de perseguições por parte de pessoas tidas como “inferiores”. Na Batalha de Alfarrobeira, em 1449, o infante D. Pedro foi morto pelas tropas reais de D. Afonso V, na sequência de intrigas palacianas contra o infante. Nessa batalha pereceu também o seu grande amigo, D. Antão Vaz de Almada. Reza a lenda que, enquanto combatia, e já moribundo, D. Antão gritava desdenhosamente aos soldados que o trespassavam: “É fartar, vilanagem!” A frase passou a figurar como paradigma de altiva coragem e de desprezo pela adversidade.

Prossigamos com as artes bélicas. Afinal, não nos olvidemos de que, nesta sociedade tripartida e trifuncional, cabia à nobreza combater e dedicar-se à guerra. Eram os belatores, como vimos…

Uma expressão ligada aos nobres e às artes bélicas, é…

[Ser um] Cavalo de batalha”

Por hoje ficamos por aqui. A explicação de “[Ser um] Cavalo de batalha”, será tema para o próximo “Saber não ocupa espaço”, rubrica onde conhecerão outras não menos interessantes expressões todas recolhidas da mencionada “Uma viagem pelas histórias das EXPRESSÕES PORTUGUESAS, Nova Edição nos trinques de NAS BOCAS DO MUNDO” do autor Sérgio Luís de Carvalho, Editora: Grupo Planeta.

Sejam pacientes…

Uma turma especial…

Tatitataia tem o prazer de vos fazer conhecer uma turma especial!

Mussa Dabo, vulgo Mussa ‘Cowboy’!

Mussa Dabo, mítica e carismática figura do então Liceu Honório Barreto,  é com toda a justiça hoje recordado neste espaço feito de memórias que nos trazem momentos de saudade e nostalgia.

Por tudo quanto Mussa Dabo representa para uma geração de alunos desse liceu, dos quais  bem poucos serão os que dele nada tenham retido, Tatitataia sentiu-se no dever de redigir o presente texto em memória dessa saudosa figura. Vejamo-lo como uma singela e merecida homenagem.

Que o nosso Mussa Cowboy, repouse em Paz!

Porém, antes de abordar o sujeito, julgo absolutamente pacífico que lamente não haver, ainda hoje ( e por que não no sector de Bissau?), uma escola com o nome de Mussa Dabo, por modesta que ela fosse. Ficaremos na expectativa de ver um dia consumado esse acto de justiça.

A presente narrativa, enriquecida pela contribuição de muitos alunos dessa época, constitui como que uma colectânea de registos ocorridos há pouco mais de meio século. Muito do que aqui está escrito é fruto do relacionamento do vigilante Mussa Dabo, que com muita dedicação serviu uma instituição de ensino denominada Liceu de Honório Barreto, com os alunos que frequentaram essa mesma instituição.

Para os alunos cujos pais ou parentes Mussa tivesse conhecido em Bolama, sua terra natal, o nosso prezado amigo tinha uma resposta-padrão sempre que se aventurassem chamá-lo Cowboy: odja, ami n’mâti badjudéssa de bu mamé…ka bu léb’ssim! Se n’kontáu kriol, bu na lâba ku sete iágu, bu kána limpu! O mesmo que dizer: conheci a tua mãe em idade dos primeiros namoros. Portanto, aconselho que te portes bem para que não oiças umas quantas verdades que te farão perder o pio.

A patente Mussa Dabo!

No que me diz respeito, e o contrário seria de admirar, tenho a partilhar com os prezados leitores umas poucas estórias nas quais eu e o saudoso Mussa figurámos em posições nem sempre convergentes.

Comecemos pela mais corrente.

Mussa ia registando as minhas travessuras e, quando o seu ‘toleranciómetro’ atingia o tracinho vermelho, ele anunciava-me o veredicto que em crioulo, em mais ou menos palavras, queria dizer ter chegado o momento de levar essa minha colectânea de bons exemplos ao conhecimento do meu saudoso velho: bom! abó bú kabânta komplêta bú kinhôn. Ahóss bu nâ findidú kadêra na kassa, kilâ kâ tém nim nóss! N’na larga sôn n’bá tem ke bu papé, ki alguin ke gróss barriga, pam kontal fadjadu (com requintes, preciosismos…), kuma é buli ke bu ta buli, i ka de mininu ke mandadu pega skola.

Só si i ka ami Mussa: não me chame Mussa…

Melhor que ninguém, Mussa sabia como fazer uso do seu enorme talento para, com uma subtileza digna de registo, instilar nos ouvidos do meu saudoso pai um discurso muito bem orquestrado, veiculando por meias palavras as sanções que ele me julgava merecedor. Por exemplo, fazia chegar aos ouvidos do meu velho: se bu sibi kuma ke é bu fidju misti djugo de bola….com maior ou menor precisão; tu não imaginas como o teu filho ‘é mordido’ por futebol. E ficava assim plantada a ‘árvore das patacas’….

Devo dizer que esse virulento discurso acabava por me deixar completamente desarmado e numa posição pouco invejável…na medida em que, uma vez descodificadas e sobretudo interiorizadas as acusadoras palavras de Mussa, era um supermotivado Amílcar  que se apressava por chegar a casa!…

Com o velho chegado a casa… é que eu compreendia o ‘Ahóss bu nâ findidú kadêra…..’, essa espécie de profecia (…relato no qual se afirma prever acontecimentos futuros…) de Mussa, querendo sentenciar os meus atropelos às normas de boa conduta. E para mal dos meus pecados, Mussa raramente se enganou….

Recentemente licenciada em Lisboa, regressa a Bissau uma ex-aluna do Liceu Honório Barreto de nome Maria Dulce Almeida, mais conhecida por Dulce Almeida, para exercer nessa instituição de ensino, entre outras, a função de professora de Ciências Físico-Químicas, a partir do ano lectivo de 1968-69.

O facto da nova docente ter passado pelos bancos dessa mesma instituição de ensino liceal, despertou em Mussa uma enorme satisfação. Essa satisfação, acompanhada de uma indissimulável afeição, fez com que o relacionamento entre a nova professora e o funcionário Mussa se manifestasse de forma substancialmente diferente daquela que ele mantinha com os outros professores vindos de Portugal, então ‘continental’.

Era um relacionamento irrepreensivelmente informal.

Sempre que tivesse de se dirigir à Dra Maria Dulce Almeida, Mussa tratava-a unicamente por Dulce, coibindo-se de dizer Dra. Maria Dulce Almeida ou mesmo D. Dulce. Nesse relacionamento, entre o vigilante e a professora, estavam banidos os termos “doutora”,” dona”, “minha senhora” e quejandos.

Para Mussa, essa professora era a mesma Dulce que conhecera como aluna do liceu Honório Barreto. Portanto, para ele, a ex-aluna Dulce continuaria sendo a Dulce, e ponto final!

Com base nessa realidade a Dra Maria Dulce Silva Almeida, preparando-se para celebrar casamento no primeiro trimestre de 1969, decidiu muito naturalmente participar esse acontecimento a Mussa.

Radiante com a notícia, Mussa avança a mais natural das perguntas: Dulce posso saber quem é o teu futuro marido? Será alguém que eu conheça? A resposta não se fez esperar – Sim Mussa, estou certa de que o conheces muito bem. O meu futuro marido é o João Galvão!

Ao que um incrédulo Mussa reage de imediato: ai Déuss Dulce, ai Dulce bu ôssa udjuuuu. Éhhh! Má n’fâla: bu ka ôtcha ninguim fóra déss alguim? Bu kunci Galbôn mé?! Abó ke sibi la…Traduzido: ohhh Dulce, tu és mesmo ousada. Não te apareceu nenhum outro senão esse? Tens a certeza de conhecer devidamente esse Galvão? Tu lá sabes…

Mais uma com a patente de Mussa Cowboy!

Mussa atinge o apogeu da sua carreira na época do Dr. Alfredo Pequito que foi reitor, creio que no final dos anos 50 e no princípio dos 60.

A razão que está na base dessa ascensão não é outra senão a quasi ilimitada confiança que o reitas Alfredo Pequito depositava nele, pela sua dedicação e entrega e, sobretudo, pelos seus empíricos mas eficientes métodos de investigação, aqui e ali apimentados por um apurado feeling.

Conhecendo pela ponta dos dedos os traquinas, os buliduris desse estabelecimento de ensino, Mussá servia-se dessa experiência e da sua refinada intuição para, desde o início de qualquer pesquisa, poder visar um número mais reduzido dos suspeitos mais vocacionados para o tipo de transgressão em causa.

Esse trunfo permitia-lhe reduzir consideravelmente o escopo dos possíveis suspeitos, e chegar ao faltoso (ou faltosos) num espaço de tempo relativamente curto, com uma louvável percentagem de sucesso.

A cumplicidade e a qualidade do relacionamento entre o Dr. Alfredo Pequito, Mussa e seu fiel adjunto Malam evocam-nos a romancista britânica Agatha Christie.

Efectivamente, com um omnipresente Alfredo Pequito no topo de uma muito bem hierarquizada coligação de que faziam parte um Mussa assumindo, na perfeição, o papel do célebre detective belga Hercule Poirot, imortalizado pela literatura policial da mencionada romancista, e um Malam na pele do não menos famoso capitão inglês Arthur Hastings, melhor amigo de Poirot e seu parceiro inseparável, a instituição liceal Honório Barreto tinha sobejas razões para se orgulhar da qualidade desse núcleo de devotos profissionais.

E que não restem dúvidas…

Consequentemente, a probabilidade de uma transgressão aos preceitos estatuídos ficar impune era praticamente nula quando esta sui generis coligação decidia actuar à imagem de uma agência de Serviços de inteligência e contra-espionagem! E eu que o diga…

Mas não percamos Mussa de vista…

António Pedro Almeida, um dos que também se orgulha de ter pertencido à tal turma B do 3° ano do lectivo 1958-59, também fez parte do enorme plantel dos lesados pelo empenho e zelo de que o nosso Mussa fazia uso no exercício das suas funções.

O estudante, quero dizer o aluno António Pedro Almeida, conhecido  por Tony Almeida, é apanhado nas malhas de Mussa por ter diligentemente tentado imitar a assinatura do pai, o saudoso senhor Paulino Almeida.

Essa fraude foi descoberta pelo não menos zeloso funcionário, o saudoso senhor Raul Cabral, mais conhecido por Raulinho, que se aprontou a disponibilizar essa preciosíssima informação a um zeloso Mussa que soube, sem desperdício de tempo, fazer bom uso dessa relíquia…

Na posse de provas irrefutáveis que deixavam Tony Almeida em maus lençóis, Mussa, num estilo ex Cathedra, reza esta missa a Tony: rapassinho, bu sibi ké, bardadi sabi konta…abó bu mufna. Má mufna ke bâli. Ahóss bu na fika bu sibi kuma e ka tudu kóboy… ke ta séta lébssimenti!

Ahóss bu na matil, só si ka ami Mussa!

N’na pértu bu papé n’puntál: homi garandi, bu fidju fala Pikito nha chefe, kuma abó que scribi bu nomi na éss karta de falta. Djubi driiiiitu bu kontam se éss i abó ke scribi li. E juntando o útil ao agradável afundou o prego: homi garandi tem passéeeeença, pâpia ku bu fidju. Ké ki fassi abó própi bu sibi kuma i ka bonitu. Ésss i tempu pâ i pára um biáss éss koldade manera…

É obvio que com esse discurso extremamente elucidativo e sobretudo galvanizador…, o nosso Tony não pôde escapar a uma pesada sanção. Viu-se por algum tempo privado de passeatas, idas à UDIB, das tão apreciadas peladinhas….e seguramente de bem mais.

Mas de Mussa, por muito que se conte mais fica por contar…

O meu irmão Hugo Henrique Galvão dos Reis Borges, o Gui para os colegas dos tempos do liceu Honório Barreto e Hugo Borges para os demais, de regresso da sua pós-graduação em Sarajevo na Jugoslávia, cruzando Mussa numa rua em Bissau, fez questão de cumprimentá-lo. Este, radiante por ver um dos seus meninos de regresso, não só falou dos tempos desse liceu como também quis, em conversa absolutamente informal, saber dos projectos do meu irmão, da família e do corriqueiro.

E foi a meio dessa conversa amena que Mussa se mostra algo surpreendido em saber que o Gui é meu irmão. E ainda sobre o efeito dessa inesperada surpresa desanuvia: pára brinkadêra! Bu misti falâm kuma abó ku Galbôn bô sédu armon na um mamé ku um papé?’ Abô, dé di mininu bu sédu alguin drito, drito, drito. N’náaaa, bu ka pudi sédu armon de ki mufnado.

E passando esse discurso ao português não estamos longe do seguinte: deixa-te de brincadeiras! Tu não estás querendo dizer-me que és irmão, de pai e mãe, do João Galvão? Tu, que sempre foste um miúdo às direitas, não podes ser irmão desse indisciplinado-mor que dificultou a vida de contínuos e demais pessoal do liceu do vosso tempo.

E assim findaram essa conversa com um Mussa relatando as minhas traquinices e façanhas enquanto aluno do liceu e enaltecendo o comportamento exemplar do meu irmão enquanto estudante desse mesmo estabelecimento de ensino.

O parágrafo anterior confirma a ideia por mim defendida de duas categorias de educandos nesse estabelecimento de ensino secundário: alunos e estudantes, em proporções nada equiparáveis, sendo a  segunda categoria obviamente mais fácil de identificar e contabilizar…

Indo longa esta narrativa, que nunca será exaustiva, em relação à mítica figura que foi o saudoso Mussa Dabo, vulgo Mussa Cowboy, vou findá-la com o registo, que me lembre, de um dos muitos desafios, quiçá o último, que pressionei Mussa a enfrentar.

Esta narrativa merece a melhor das atenções…

Tal como aconteceu com o meu irmão no pós-independência, ao cruzar Mussa algures em Bissau, faço sinal para que me conceda uns minutos de conversa. Logo que desci da viatura disse-me de imediato: Galbôn, n’kunsiu dé, djubi dritu kê ke bú na bim kél… Um pré-aviso bem significativo!

Com as devidas cautelas e  num discurso bem musicado… tentei motivar Mussa a falar com um alto dirigente do Ministério de Educação Nacional com o propósito de solicitar uma modesta promoção que lhe permitisse uma eventual  subida de letra no quadro da função pública, de modo a possibilitar-lhe uma reforma mais desafogada.

Disse-lhe: Mussa, repara que quase todos os quadros dirigentes desse ministério passaram pelas tuas mãos enquanto alunos ou estudantes do ex-liceu Honório Barreto.

Com esse argumento tentava fazer-lhe ver que, a priori, não havia razão ou razões para que não levasse essa iniciativa avante. Tens o direito MORAL e não só, de formular esse pedido. Na tua posição, eu não hesitaria. Má ké ke bú médi, incitava eu!

Não tardou em responder dizendo: Bú sibi Galbôn é guintis, ora ke é panha pustu é ta diskici ké ke passaba na ki tempuba. O que quer dizer por outras palavras: Sabes Galvão, as pessoas quando chegam a lugares de chefia esquecem-se do passado…

Entretanto lá consegui ‘mobilizá-lo’ para essa missão. Suficientemente encorajado, prometeu dar andamento a esse projecto logo que se lhe deparasse a primeira oportunidade.

Meses volvidos, volto a cruzar-me com o Mussa num ponto da marginal que conduz à alfândega.

Peço ao condutor para que pare o carro e dirijo-me a Mussa, curioso por saber o que teria conseguido na sequência da minha anterior sugestão. Confesso não ter tomado as necessárias precauções quanto à qualidade da resposta…

Sem pestanejar, a resposta não tardou: Bú sîbi kê ké falâm? Kuma ki pustu ke n’pidi alguim djumna i tômál. Retorqui: má éss i kim ke toma ki pustu?

Galbôn, n’faláuba kuma é guintis ka bâli. Bú misti sibi kim ke é pui na ki pustu? N’Bom, fika bu sibi kuma BU PÁPÉ ké pui na ki pustu. Sacana de merda…

Dessa reacção, que traduz o que o nosso saudoso Mussa possuía de mais genuíno, o leitor sem muito se esforçar concluirá: 1. Que o pedido foi rejeitado, 2. E que muito naturalmente… Mussa terá ficado meio, senão inteiramente, convencido de que o aluno Galvas, que ele tão bem conhecera nos tempos do liceu, tê-lo-ia, malevolamente, induzido a apresentar aos seus superiores uma proposta inaceitável…

Entretanto, posso assegurar-vos que, na altura, eu acreditava que pudesse haver margem para um gesto, por pequeno fosse…

Muito mais fica por contar sobre essa saudosa e mítica figura!

Repousa em paz, querido Mussa Dabo!

Por quanto mais tempo?!

Por uma vez um Tatitataia disco-jóquei.

Tatitataia tem o imenso prazer em vos fazer ouvir no fim do presente texto e em vídeo, os clássicos mais relevantes da música popular da Guiné-Bissau, país o qual, parafraseando Blaise Pascal, 1623-62: por razões que a razão desconhece se transformou num inenarrável paradoxo.

Corrupção e impunidade de mãos dadas e em invejável harmonia com governantes e governados, um sistema de ensino pelas ruas da amargura, sem saúde pública, sem justiça, sem paz social,  e parecendo orgulhar-se da total ausência de quaisquer infra-estruturas de saneamento básico, designadamente, recolha e tratamento de lixo, esgoto, drenagem de águas pluviais, entre outras num ambiente escabroso de ruas esburacadas em que há muito o asfalto cedeu lugar a um amontoado de terra vermelha!!!

E não falemos no clima de permanente instabilidade política…

Mas por mais inverosímil que vos pareça esse país ainda consegue dar guarida a um considerável número de pessoas que vivendo principescamente, não se sentem minimamente chocadas e muito menos afectadas por essa colectânea de desleixos e irresponsabilidades!!!

Também é merecedor de um reparo especial o facto de um país como a Guiné-Bissau, de vocação eminentemente agrícola e com mão de obra maioritariamente composta por camponeses, não ter apostado numa agricultura mais comprometida em assegurar a tão necessária e ambicionada autosuficiência alimentar, preferindo ao invés especializá-lo na cultura do cajú, um produto tradicionalmente vulnerável à flutuação de preços no mercado internacional.

Esse cenário faz lembrar o rol de nefastas consequências geradas pela má aplicação da conhecida ‘Green Revolution’ no país de Mahatma Gandhi num passado não muito longínquo. Entre as mencionadas nefastas consequências, o êxodo campo-cidade figura como sendo o primeiro responsável por uma infinidade de problemas socioeconómicos ainda hoje não sanados!!

Essa cajumania de filiação bissau-guineense veio semear a instabilidade no seio da mão de obra inicialmente vocacionada às culturas tradicionais como o arroz de sequeiro, o conhecido n’pam-pam, o fundo, o milho em espiga, o milho bacil, a mancarra ou amendoim…, a mandioca, o inhame e em actividades como a colheita de regimes de dendém (o nosso chabéu!), a tecelagem e outras mais.

Que se tenha entretanto em conta que esse infeliz projecto não só desactivou grande parte dessa mão de obra quanto acabou por provocar o seu êxodo em direcção às zonas urbanas. Abandonam o campo onde sabem produzir, e aglomeram-se nos centros urbanos onde não estão qualificados para produzir. O resultado é clássico e amplamente conhecido: desordem social e delinquência, entre os mais nocivos.

E com o quinto decénio batendo à porta, permitem-se o luxo de não terem ainda definidos, que objectivos e quais as estratégias para qualquer futuro, seja ele: a curto, a médio ou a longo prazo!!! Fica tudo dependente da magia dos irans…

O quanto não é doloroso constatar em cada amanhecer, olhares de crianças escrutinando céus e horizontes procurando indícios de melhores dias e uma população que não esconde um enorme sentimento de frustração e insegurança alimentado por esse desfilar de manhãs despidas de esperança.

E é nessa pátria vitimizada por algumas décadas de desmandos para todos os gostos e feitios que uma caterva de pseudo-governantes continua apostada em recusar ao povo guineense o mais elementar dos direitos: o direito à paz e ao progresso. Mas esse povo saberá, como no passado, forjar energias e arregaçar mangas “pa finkanda purmêru dúbi di ki kassa ke nô mîsti kumpu”, como enfatizou o saudoso Zé Carlos.

Tatitataia entretanto recusa as vestes de promotor de fatalismos sobretudo durante uma quadra onde as famílias se juntam num clima de paz e harmonia para festejarem o Natal e não só…

Pois é com esse espírito de festa que Tatitataia deseja a todos os bissau-guineenses e respectivas famílias, no país ou na diáspora, uma quadra festiva com saúde, muita paz, muita alegria, mantendo-se sempre acesa a esperança em melhores dias como nos incita o nosso amigo Ernesto Dabo nas suas palavras impregnadas de encorajamento: “Ka nô tchôra péna Djussé, ka nô tchôra péna…..”.

Tatitataia não pode deixar fugir esta oportunidade sem formular sinceros votos de um 2017 pleno de realizações positivas para cada família guineense e sobretudo para o estóico povo da Guiné-Bissau. Certo que quarenta anos é já algum tempo…

Mas quantas mais décadas serão necessárias para que se decida mudar de rota e de timoneiros? Cansado está o povo guineense de ouvir esse estribilho: barco kána n’kadja…, quando na realidade esse pobre barco continua há umas longas décadas estagnado no ancoradouro, aguardando outros ventos, outras marés, destros marinheiros e adequados instrumentos de navegação… 

Com esse repertório de irresponsabilidades acumuladas, acreditamos inadiável o momento de exigir que seja prestada, sem apelo nem agravo, a devida atenção ao povo guineense!!!!!

Atenção mais que devida a esse povo que continua na expectativa de ver alvorecer no horizonte esse radioso futuro há seis longas décadas propalado por esse mundo fora e copiosamente prometido pelos auto-proclamados melhores filhos da nossa terra…

Recordo-me ter ouvido no pós independência uma senhora que já não está entre nós…, dizer a um membro de família regressado de Conackry: bô bai ku bardádi, bô riba ku mintida. Essa frase, por expressar uma indesmentível verdade, é merecedora de especial reflexão.

E a finalizar eis o novo Tatitataia feito disco-jóquei a fazer-vos ouvir as vozes mais expressivas e ouvidas da Guiné-Bissau.

Essas vozes ganharam espaço e dimensão não só pelos seus  timbres bem peculiares e pela excelência em outros parâmetros de qualidade, mas sobretudo por terem sabido dar justificada e merecida notoriedade aos maiores clássicos  da música popular bissau-guineense.

José Carlos Schwarz, Si bu sta dianti na Luta: composição do próprio Zé Carlos.

Ernesto Dabo e Karyna Gomes, Mindjeris di panu pretu: letra de Armando Salvaterra.

Diria que as palavras constituem uma espécie de lenitivo às angústias, às dores, aos sacrifícios, aos acidentes e incidentes de percurso, muito resumidamente: amenizam o período entre a génese do sonho e a concretização do mesmo. Esse longo período de construção… As vozes, essas, nutrem a esperança!

São esses artistas e esses clássicos soberbamente interpretados que irão proporcionar ás nossas tatitataianas e aos nossos tatitataianos alguma satisfação nos seus momentos de lazer.  E será ao longo desses momentos que nos veremos confrontados com aquela saudade, diria antes nostalgia…, dos tempos daquele Bissau de outrora…, de rosto lavado e perfumado,  cidadezinha bonita e limpa.

Dessa cidade que num passado um nada distante, sempre soube forjar razões que lhe permitissem mostrar-se orgulhosa dos seus jardins bem cuidados, das suas acácias, das suas ruas e avenidas alcatroadas, dos seus edifícios trajados de cores garridas, e como não mencionar a sua acolhedora marginal, entre o porto de Pidjiguiti e a Alfândega. Orgulhosa de tudo isso e seguramente de muito, de muito mais que isso…

Entretanto e a respeito “daquele Bissau de outrora…, de rosto lavado e perfumado,  cidadezinha bonita e limpa”…, tem estado omnipresente uma questão bastante incomodativa a qual ninguém tem sabido responder: quais as raízes, o móbil desse clamoroso desamor por essa cidadezinha bonita e limpa de outrora, paulatina mas progressivamente desfigurada de 1974 a esta parte?!

Só responde quem souber…

Bem hajam!

Tatitataia voltará a estar convosco. Saibam ser pacientes…

Lucínio…

Lucínio Jesus Henriques de Carvalho filho de um sargento de carreira, residiu no Quartel d’Amura, entre 1957-1962. Chegou a Bissau findo o ano lectivo 1956-57 vindo de algum liceu da Metrópole, expressão que diferenciava o Portugal continental das então províncias ultramarinas. Entretanto, este mundo e arredores sabe hoje que Portugal não dispõe de províncias ultramarinas depois da chamada Revolução dos Cravos de Abril, 1974….

Mas deixemos as revoluções, os cravos, as províncias, a metrópole e debrucemo-nos sobre o que foi o saudoso Lucínio durante a sua passagem por Bissau e não só…

Escrever sobre Lucínio transporta-me a um passado de algumas décadas, passado esse que me está ainda bem colado à pele. Esse amigo física e definitivamente ausente foi, aliás, é e será para sempre merecedor do meu afecto. Ainda oiço os ecos das suas desastrosas e intragáveis declinações, qual delas a mais estrangeira ao clássico: rosa, rosae, rosarum. Pois esse estudante, perdão, esse aluno servia-se dessas declinações vindas de um latim marginal até dizer chega, escrupulosamente suburbano, e de paternidade duvidosa, com o qual procurava dar alguma notoriedade a nomes de colegas, de coisas, situações ou mesmo objectos. Vejamos uns poucos exemplos, a começar pelo que ele Lucínio decidiu atribuir-me como nome: pimú Talpucinhas, que terão oportunidade de voltar a ver mencionado.

Com tão pouco é compreensível que reclamem alguma explicação suplementar. Tudo começa pelo meu apelido Galvão que se faz acompanhar de um carinhoso primo, que lhe confere um pouco de ternura e proximidade. De primo Galvão e passando por primo Galvãozinho, acaba por  atingir a maioridade, vejam bem…, num terno: pimú Talpucinhas. Lucínio também tinha outros primos de igual género literário, a exemplo do primo Tinfas que passando por pimú Tinfas e depois por pimú Tinforúm acabou por atingir a maioridade num não menos carinhoso: pimú Forinhas…

Pois esse jovem matriculado com o n° 19, veio enriquecer considerávelmente o plantel dos que frequentaram a que ficou (re)conhecida como a tristemente célebre do então Liceu Honório Barreto! Pois essa ‘tristemente célebre’ é a já sobejamente mencionada por Tatitataia em episódios anteriores: a turma B do 3° ano do lectivo de 1958-59, cujo elenco contava não só com a minha modestíssima pessoa como a de muitos mais estudantes, prefiro dizer alunos, de notável e reconhecida qualidade. Justiça seja feita...

Ora esse colectivo que primava por uma marcada diversidade étnico-social, contabilizava umas  três dezenas de muito boa gente. Quanto a isso que não restem dúvidas…

Não sendo esse aluno do extinto Liceu Honório Barreto um conhecido da grande maioria dos leitores deste espaço, seria seguramente uma injustiça não falar um pouco de quem deixou tão gratas recordações em todos quantos com ele conviveram. E é de ser salientado de Lucínio, a sua humildade sem maquilhagem, a sua simplicidade e a enorme capacidade de adaptação, atributos que muito contribuiram para uma mais fácil integração no seio da comunidade estudantil. Em pouco tempo dominou o crioulo com um nível bastante aceitável de compreensão e de resposta…

As passadas, as estórias em que Lucínio foi protagonista serão relatadas sem a garantia de uma ordem cronológica. Tatitataia irá relatando à medida que as tropelias e traquinices do saudoso Lucínio, me venham à memória…

Começarei pela actividade recreativa do kim ke ka máma i sinta que em português não está muito longe do: quem não pode, arreia. Esse passatempo reconhecidamente fora dos padrões de qualquer outra actividade ou competição desportiva… tinha lugar no pátio ladrilhado (mosaico/azulejo laranja avermelhado…) do chamado Liceu de baixo e no espaço de acesso às casas de banho. Quando digo fora dos padrões, devo sublinhar que se tratava de uma competição sem score, portanto sem vitória traduzida em golos…

Em poucas palavras, esse absurdo passatempo resumia-se na capacidade de cada participante entre os inúmeros envolvidos nessa espécie de peleja, poder preservar por mais tempo possível a posse do objecto em disputa que era lançado ao solo. Esse objecto que tanto podia ser uma bola convencional, seja de ténis, de borracha ou mesmo de meia, quanto podia ser também ser um pedaço de madeira seca, uma semente seca de mango por exemplo. Enfim tudo quando fosse susceptível de deslisar no solo desse pátio…

Lucínio enquanto filho de militar dispunha de um bom par de botas o que muito naturalmente impunha um certo respeito aos concorrentes ou adversários, como entenderem chamar, munidos de sapato vulgar, sapatilhas ou sandálias em plástico. No fundo essa estranha diversão que se distinguia mais pela brutalidade que pela virilidade, baseava-se na capacidade de intimidação de cada interveniente e na coragem em absorver as investidas dos participantes na contenda. Resumidamente, uma actividade que se ajustava bem ao kim ke ka máma i sinta o mesmo que dizer: quem não pode arreia…

Finda essa espécie de batalha campal ou guerra sin dunú, como queiram considerar, valia pena ver o semblante do nosso Lucínio depois dessa estranha forma, muito estranha mesmo, de queimar calorias. Seu rosto assemelhava-se a um tomate, tão vermelho ficava. Bem poucos, se algum(?!…), conseguiam conter risos e gargalhadas por ver o nosso colega nesse estado.

E uma vez alvo de atenções da parte dos colegas, o nosso Lucínio de calções em caqui, curtos e ajustadíssimos às ancas, punha-se a desfilar armado em modelo. Estou escrevendo e não consigo evitar  alguns sorrisos ao me lembrar dessa e de muitas outras cenas idênticas… Ninguém resistia! Impossível de todo….

Devo dizer que não tendo absolutamente nada de efeminado, reconhecia-se em Lucínio um par de pernas bem modeladas e sem traço de músculos. Diga-se de passagem: um par de pernas de fazer inveja a muitas miúdas. E quanto ao desfile, posso garantir-vos que lhe sobrava talento para esse género de coisas. Aliás, Lucínio era um actor de mãos cheias…

Era um regalo vê-lo desfilar imitando o sexo feminino num exagerado bambolear de ancas e dizer: digam-me se não sou mais sexy que a Malina? Mas isso dito em bom creoulo: bó kontam se n’ka máss Malina stâ boa?! A saber que o pseudónimo Malina faz alusão a uma menina-rapaz do nosso Liceu, e cujo verdadeiro nome é obviamente omitido….

Mas voltando ao desfilar… quanto mais gargalhadas ele ouvisse, mais hilariante se tornava com afirmações ou exclamações do género: pimú Talpucinhas, má se n’pátiu bu ka ta toma?! Enfim, um nunca mais acabar de asneiras, qual delas a maior.

Com toda a sinceridade: saudoso Lucínio!

Tatitataia tem-vos contado umas não poucas e quase sempre embaraçosas situações em que me vi envolvido ao longo da minha presença enquanto estudante, bem mais justo e honesto reconhecer…, enquanto aluno do então Liceu Honório Barreto. Uma vez que Lucínio constitui o tema de hoje, Tatitataia serve-se da circunstância para vos contar mais uma dessas situações e na qual o homenageado de hoje acabou por ser a figura proeminente. Mas oiçam o que me aconteceu numa tarde de um sábado de céu azul e radiante de sol,  a caminho do liceu para assistir ao curso de comandantes de castelo da Mocidade  Portuguesa….

Aos catorze anitos e em plena crise de adolescência fui vitíma de um dos efeitos mais demolidores para qualquer jovem: o de Cupidon. Ora esse efeito atribuído a Cupido, Deus do Amor na mitologia romana, filho de Vénus e de Marte, traduz-se pelo despertar das inclinações  amorosas. É o período dos suspiros, das emoções sem contornos definidos, de uma permanente sensação de insegurança ou ansiedade, das desagradáveis taquicardias ou arritmias próprias de um jovem apaixonado, dos suores injustificados, da garganta seca e das palavras que não saem quando suportamos os efeitos dessa paixoneta possessiva e por vezes tirana. Bom, quando em presença da miúda, aí então…, até os berlindes se contraem e, e, e, quando não fazem yoyo… Não, não, ei.. oiçam e oiçam bem: quem por elas não passou, que se abstenha de qualquer comentário. Sinceramente, o que acabo de descrever É MESMO DOSEEEE… Bú ká pudi pânha pé de bu kabéça. Kaba góra i ka kussa ke bu púdi néga bu fâla: bom i djustam, n’ka misti másss!  E é precisamente esse o busílis e a monstruosidade desse problema: a nossa incapacidade para nos libertarmos das garras de Cupido … Mas deixemos isso. Enfim, um misto de agradáveis e desagradáveis sensações que se manifestam em simultâneo sem que o jovem compreenda o que lhe está acontecendo. Sentimo-nos como que anestesiados por esse sentimento que nos corrói a alma e faz de nossas vidas, um inferno…

Pois foi com algum garbo, trajando a preceito a farda da MP e carregando com notável estoicismo o peso dessa amálgama de sentimentos que resolvi nesse sábado de sol brilhante fazer paragem numa casa com quintal murado por tijolos alternados que facilitavam espreitadelas no interior. Um pormenor incontornável: essa era a casa onde morava a jovem que era a exclusiva responsável pelas minhas atribulações emocionais do momento…

O meu login, ou seja  o passe que me conectava àquela que punha a minha ração de  pacíficas testosteronas num estado clinicamente deplorável, era a canção Campanera celebrizada pelo famoso Joselito. Andando ligeiro como um felino e já no passeio contíguo ao citado muro apercebi-me de que alguém estava regando o jardim. E esse ruído de água batendo no chão e nas plantas acabou por encorajar-me o suficiente para que assobiasse a Campanera sem inibições e a todo o gaz. Confiante lá fui assobiando à medida que me ia aproximando para espreitar quem estava regando. Ora essa aproximação agravada pela espreitadela, foi-me fatal.

E em circunstância alguma poderia deixar de me ser fatal porque quem estava regando esse jardim…, em NADA, mas absolutamente NADA, se assemelhava ao objecto dos meus suspiros amorosos e de todos os sentimentos já expressos. Quem efectivamente estava regando esse jardim nesse preciso momento era um pai. Sim um pai e não um pai qualquer. Era um pai que, pela reacção…, de há muito não vinha digerindo com agrado, ambos: esse Joselito, e muito menos seu login em assobios. E foi esse pai que se serviu da mangueira para me dar uma copiosa regadela no momento em que deixei de assobiar para, no intervalo dos tijolos, pronunciar docemente o nome da filha. Não vos será difícil imaginar a minha figura a partir desse momento….

E depois desse desastre, começo obviamente a arquitectar justificações para as aulas do curso de comandantes de castelo a terem início a menos de uma hora, sabendo ser um sábado com ‘passagem em revista’. Mais um bico de obra para o Galvas…

Encharcado como estava armei-me num GI americano, tudo fazendo para não ser visto ou no melhor, não ser de todo  identificado até chegar ao novo pavilhão de ginástica onde o curso era leccionado. E lá consegui chegar rasando paredes, como é costume dizer-se… Muito sorrateiramente aproximei-me da entrada de uma pequena sala que servia de arrecadação e simultaneamente de apoio aos instrutores do curso. Um quanto estressado ao entrar nesse exíguo compartimento, qual o meu espanto quando me dou de caras com o meu amigo Lucínio o comandante de castelo de serviço nessa tarde. Vendo-me nesse estado bem pouco apresentável, quis imediatamente saber o que me acontecera. Pois não precisou de muito ouvir para ficar minuciosamente inteirado…

Findo o relato é um Lucínio estremecendo de riso que sabendo haver algures umas peças de farda da MP, acaba por descobrir num dos armários da arrecadação uma camisa e um calção. Pegando na camisa e no calção, fui num relâmpago à casa de banho trocar de roupa. Porém,  embora mais apresentável, seguramente que não restaram dúvidas para ninguém, por mais distraída fosse a pessoa, que tanto a camisa quanto o calção que me colavam ao corpo, não podiam ser propriedade do chefe de quina João Galvão Borges, o conhecido Galvas!

Devo reconhecer que depois de tantos dissabores, esse sábado acabou por ter um final feliz contrariando todas as minhas perspectivas. O meu amigo Lucínio, para tirar seu Pimú Talpucinhas de apuros…, teve a amabilidade de transmitir tudo quanto aqui ficou relatado ao instrutor do dia, o Alferes Vigário um oficial mais loiro que um sueco, o qual não me poupando um aberto e jocoso sorriso encontrou maneira de me dispensar da ‘revista’ sem despertar muitas atenções.

Mas Lucínio foi bem mais isso…

A par das mencionadas ‘declinações’ todas elas desafiando as mais elementares regras gramaticais, Lucínio também se mostrava creativo ao familializar-nos a um novo léxico. E como exemplo citaremos a palavra caneca que não precisou nem de tempo nem de muito explicar para ser aceite sem reservas….

Caneca correspondia, obviamente em linguagem não oficial, a uma nota que não sendo transcendente era amplamente desejada, sobretudo por alunos pouco regulares: falamos de alunos vivendo em corda bamba, em permanente incerteza quanto ao sucesso do ano escolar em curso. Eram uns não poucos, habituados a conter respiração até ao veredicto anunciado pelas pautas afixadas no átrio do liceu no fim do ano lectivo.

Mas essas pautas não metiam medo a todo o mundo. Bem longe disso… Os imunizados contra o insucesso escolar até se permitiam entre sorrisos, risos e gargalhadas, perguntar aos colegas que rondavam as pautas para se inteirarem do resultado final: homi, bú safa ó bú pânha bála suma mi?! Traduzindo: oh pá, passaste ou chumbaste?! Como tenho dito: nesse liceu, nem todo o aluno foi estudante…

Mas voltando à palavra ‘caneca’ que se tornou moeda corrente, devo dizer que bem poucos dela sabiam servir-se correctamente. Todo o mundo sabia o que essa palavra significava, mas só Lucínio que deu vida à palavra, sabia como e quando dela fazer uso conferindo-lhe a graça e a ênfase necessárias para que ela pudesse cumprir a sua verdadeira função: a de transformá-la num evento, num momento a partilhar com o maior número possível de colegas.

Quando um aluno dizia ter conseguido uma ‘caneca’ numa chamada…dizia-o com um largo sorriso . Conseguir  uma caneca como nota era motivo para enorme regosijo. Correu-te bem a chamada? Ohhh pá…uma caneca ‘rés-vés Campo de Ourique’, uma expressão muito corrente (consultem o web…) que quer dizer algo conseguido ‘mesmo à justa’ o que no contexto de notas representa efectivamente  uma positiva tangente. Para os conhecedores: um dez tirado a fórceps….

Mas quando Lucínio enchia a sua ‘caneca’, ficava óbvio que esse evento de modo algum poderia morrer anónimo. Jamais! Teria forçosamente que ter algum impacto. Até não era estranho ouvir durante o intervalo seguinte um ou outro aluno de uma turma diferente querendo saber o que se passou na turma do Lucínio. Má ké ke passa na bó turma?! Enfim, ‘caneca’ enchida por Lucínio era obrigatóriamente caneca seguida de algum alarido. Ponto final e mudemos de assunto! E já agora, permitam-me que vos conte…

E vamos a isso!

Esse hilariante pedaço com Lucínio chamando uma vez mais as atenções, aconteceu na aula da senhora Fernanda Barroso, professora de matemática e irmã de Francisca Barroso professora de história. As duas irmãs constituíam o tandem: nha Chica ku nha Fernanda.

Por serem soleiras e andarem quase sempre coladas uma na outra, a assembleia anónima dos corredores decretou que quem casasse com a Francisca, a mais idosa, teria, ao abrigo do direito consuetudinário guineense, ‘direito’ à D. Fernanda a irmã mais nova. Portanto, por conta desse decreto, D. Fernanda a irmã mais nova acabou merecendo a alcunha de “nha labarrémo”. A saber que essa alcunha em crioulo significa gorjeta. Gorjetas e gorjeta…

D. Fernanda chama Lucínio ao quadro para submetê-lo a um interrogatório findo o qual uma nota lhe seria atribuída. Terão decorridos os habituais quinze a vinte minutos normalmeente consignados a esse tipo de avaliação findos os quais Lucínio entrega o caderno da disciplina para que a professora escrevesse o resultado da avaliação, a nota. A sempre misteriosa nota. E começa aqui o inimaginável.

O nosso amigo toma conhecimento da nota através de um furtivo olhar e num ápice vemo-lo vermelho como um tomate proferindo tudo quanto havia de mais inintelígivel por conta da nota caneca que seguramente alcançara visto o espalhafato com que estava premiando a assistência. Olhando para mim e de regresso à sua carteira foi dizendo ininterruptamente: ai pimú Talpucinhas, ai caneca, ai canequinhas, ai i djustam rek, ai nha papé, ai Talpucinhas, ai Forinhas, tudo em ais, num autêntico refrão de chorrilhos. A professora lá ia reagindo sem entretanto perceber uma única palavra pronunciada por Lucínio. Limitava-se perguntar: mas o que foi Lucínio?, que se passa contigo? Contar é uma coisa mas ver tudo isso é algo para ficar na memória para o resto da vida. Estou a vê-lo como se a cena tivesse ocorrido esta manhã…

A última vez que estive com Lucínio data de 1964 ou 1965. estava eu em Santarém quando Lucínio me convidou a participar na sua festa de finalistas em Coimbra. Essa festa teve lugar num fim-de-semana. Teria que escrever o dobro do que aqui já foi dito para vos contar em pormenor o que foi esse fim de semana agradabilíssimo entre amigos que se conheciam de há muito e bastante bem. Fui recebido em casa dele durante a minha estada em Coimbra e a noite antecedendo o meu regresso a Santarém foi uma noite em branco pelo tanto que havia a nos dizermos. Mas não posso findar este texto dedicado a Lucínio sem vos contar como Lucínio me recebeu na estação de combóio de Coimbra A.

Quando cheguei a Coimbra B vindo de Santarem apanhei poucos minutos depois um pequeno comboio de poucas carruagens que fazia o transbordo dos passageiros entre as duas estações conimbrecences. A maneira como fui recebido por Lucínio na zona de desembarque da estação A de Coimbra é algo que não mais esquecerei.

Lucínio conseguiu alhear-se de tudo quanto o rodeava para se concentrar na minha pessoa. Logo que desci do trem Lucínio começou a gritar em bons decibéis vindo aos pulos em minha direcção e repetindo: pimú Talpucinhas, ai pimú Talpucinhas, ai pimú Talpucinhas, não escondendo obviamente uma indesmentida e indesmentível comoção. Ficamos ambos com os olhos marejados. E fez todo esse ‘cinema’ da forma perfeitamente assumida e totalmente descomplexada. Como disse no ínicio: de uma humildade sem maquilhagem…

Estava também presente nessa gare mas por motivos bem diferentes uma ex-colega do liceu Honório Barreto em Bissau que prosseguia os estudos universitários em Coimbra e que  assistindo o que acabo de vos relatar aproximou-se para nos cumprimentar e dizer o seguinte: pensei que os anos vos fariam melhorar mas acabo de constatar que esses anitos adicionais não vos fizeram mudar. Vocês estão cada vez mais garotos….

Muito ficou por dizer desse amigo, dessa saudosa figura.

Sejam pacientes! Tatitataia promete voltar….