Mário ‘Buick’, e um pequeno incidente em aula…

Queridos Tatitataianos!

Contráriamente ao prometido no texto ‘A Obra Prima de Olilas’, tomei a liberdade de protelar  o episódio que relata o convite que me foi formulado pelo meu, e hoje nosso, Olilas, para uma ida ao cinema UDIB, assistir a uma valente  cowboyada. Entretanto, essa decisão merece uma breve explicação. Depois de muito e creio que bem reflectir, achei ser de bom senso, e no interesse da família Tatitataia,  da qual me prezo ser defensor,  não ‘gastar ou desgastar’ tão cedo a imagem da mítica e saudosa figura Olilas. Entretanto, essa judiciosa atitude não impedirá, a tempo devido, o relato do episódio ora protelado, quanto aos de mais alguns, com sabor bem ‘olilasiano’! Palavra dada!

Uma vez explicados, mãos à obra para o ‘menu’  de hoje: Mário ‘Buick’…

Mário ‘Buick’, Mário Lima do Rosário, o n° 25 da ‘NOBEL’ turma B do 3° ano, 1958-59, mais conhecida como: ‘Tristemente célebre’.  Turma e turmas. Essa B, tinha um pouco de tudo. Um perfumado pot-pourri. Heterogénea, multiracial,  multicultural. Duma ampla diversidade que permitia  sempre encontrar um artista com um perfil sobejamente qualificado para assegurar o sucesso de qualquer específico projecto préviamente concebido. Portanto, uma turma literalmente polivalente. Polivalência evidenciada e ‘abrilhantada’ por uma e numa colorida e equilibrada mistura de alunos e estudantes. Sublinhe-se, para os efeitos julgados convenientes, que os mencionados alunos e estudantes que enriqueciam e embelezavam essa equilibrada e colorida mistura, coabitavam pacíficamente nessa B, numa perfeita e invejável simbiose. Uma turma feliz. Uma turma sem problemas. Se problemas havia ou houve, os mesmos eram da tutela dos ou de professores que nem sempre eram ou foram capazes  de compreender tanto alunos  quanto estudantes. Muito particularmente os que militavam nessa B. Mas isso era tão natural quanto qualquer outro conflito intergeracional. Nada transcendente! Turma orgulhosa do seu pedigree,  e dos seus pequenos e grandes feitos. Um exemplo de manifesta, notável e indelével solidariedade. Todos por um,  um por todos. A minha turma!

Mas porquê ‘Buick’?! Buick é a marca dum carro americano, o qual não creio ser hoje fabricado. Qual a ‘afinidade’ entre o nosso Mário Lima do Rosário e essa marca americana? Esse Buick, o carro, como a maioria dos veículos americanos dessa época, era conhecido pela enorme flexibilidade dos seus amortecedores de molas em espiral. Uma simples passagem sobre uma ligeira lomba, era bastante para se comportar qual um bote enfrentando uma insignificante onda. Estão a ver o efeito. Pois o andar do nosso Mário, por lançar o passo com a perna ligeiramente curvada pelo joelho, reproduzia o mesmo efeito…, que acabou por justificar o ‘Buick’ que se lhe colou à pele e do qual não mais se libertou. E nem se libertará. Leva-lo-á com ele!

Como aconteceu esse ‘pequeno’ incidente?

Num dos habituais pequenos mas ruidosos intervalos de escassos dez minutos que antecediam ou precediam os cinquenta minutos de falso silêncio duma aula, o nosso artista Mário escreve, no quadro em ardósia da nossa sala de aulas, uma frase inicialmente despida de qualquer gravidade: “Vamos ter aula com o Dr. Noronha”. Nada de grave até o momento em que um outro artista de nome João Galvão, o Galvas, decide torná-la sobremaneira grave. Sim, a frase agrava-se quando, imitando a caligrafia do meu colega Mário, uma repentina inspiração me incitou a embelezá-la, com o seguinte complemento: “Vai ser a paródia de sempre”. Homo, homini lupus est!

Antes que entre no mais vivo do incidente, ou seja a confrontação professor versus aluno, que constitui o cerne deste episódio, cabe-me a honrosa missão de vos informar que ambos, professor Noronha e aluno Mário, não se furtavam a uma acentuada gaguez que, longe de amenizar o contexto, acabou por imortalizar o incidente que justifica o presente capítulo.

Toca a sineta anunciando o fim do intervalo. Os alunos ocupam os seus respectivos lugares e escassos minutos volvidos, entra na sala o Dr. Noronha. No seu trajecto em direcção à secretária do professor colocada em cima dum estrado em madeira e situada no canto  esquerdo da sala, Dr. Noronha faz uma paragem junto ao quadro para ler essa pouco acolhedora frase de boas vindas que,  depois da ‘minha contribuição’, ficou assim redigida: Vamos ter aula com o Dr Noronha. Vai ser a paródia de sempre. Pela imediata reacção do professor, ficou evidente que a caligrafia denunciara o autor dessa iguaria…

Num ápice, o professor vira-se e dirige-se em direcção à carteira onde um lívido e incrédulo Mário, diminuído, traído e vitimizado por uma meia dúzia de assassinas palavras sem a cobertura da sua patente, ouviu o Dr. Noronha, estalando o polegar no dedo médio, sentenciar: Pô-pô-pônha-se lá fó-fó-fóra, ao que o pobre Mário apressou-se a retorquir na mesma frequência e possivelmente no mesmo comprimento de ondas: Shô-shô-shôtôr, nã-nã-não fú-fú-fui ê-eu. Com a adrenalina desafiando os limites do clínicamente aceitável, o nosso Noronha fez uso duns adicionais decibéis para desta vez dizer peremptóriamente: Fó-fó-fóra!

Enquanto o nosso Mário Buick arrumava os seus dispersos haveres, pude, pelo olhar com o qual me fulminou, dar-me conta que ele tinha perfeitamente identificado o artista responsável pelo delituoso complemento à sua inofensiva redacção.

Antes que abandonasse a aula, pudemos ouvir o nosso Mário Buick, verde de ira, praguejar: Â-â-âóss, n’nâ di-di-ditâ má-má-mámé dú-dú-dútrú, o que liminarmente significa: Vou hoje p’rá cama… com a mãe de ‘um’. Esse ‘um’ era eu.  Mas o pior vinha a caminho. Ao sair, visa-me e entre dentes liberta os resquícios da sua adrenalina em tumultos: Ka-ka-rika de bú má-má-mámé. Pú-púta ke pâ-pâ-diú. Recuso-me traduzir. Abrenúncio. Não, não! Não merecia tanto. A que estavam sujeitas as  mãe de alunos que militassem esse 3° B!

O resto da aula decorreu normalmente para todos, salvo para o artista Galvas. Sentia a palma das mãos húmidas, o coração batendo um nada descompassado, a respiração um quanto ofegante e a garganta seca. Uma verdadeira angústia. Breve, evidentes sintomas de medo. Medo do Mário Buick que seguramente me esperaria à saída da aula para me exigir uma límpida e convincente explicação. E que se entenda ou subentenda por límpida e convincente explicação: Uma explicação sem tergiversações ou seja, sem rodeios. Os minutos passavam céleres e a eminência de ouvir tocar a sineta, me aterrorizava. Duros momentos!

Soluções em como escalar semelhantes calvários, não abundam. A mais comum é encontrar protecção dum colega mais idoso ou dum colega com respeitável gabarito: Búska kîm ke bú nâ rôgâ nél! Malgrado os meus inúmeros processos pendentes em relação a uma mão-cheia de colegas dessa tão querida turma, a Divina Providência concedeu-me a protecção dum anónimo colega que me privou de passar maus bocados nas mãos de quem nesse dia não seria seguramente meu amigo: Mário Buick.

Graças à honorabilíssima e eficiente protecção desse providencial ‘anjo de guarda’, pude assim escapar às imprevisíveis sanções do nosso Mário que, à saída da aula, ainda tentou sem sucesso prodigalizar-me algumas ‘kôkidas’. Pelo ocorrido, durante algum tempo acautelei-me lançando prévios olhares à esquerda e à direita, sempre que tivesse que me aventurar fora das áreas sob minha jurisdição, assegurando-me de que não havia um tal Mário Buick nas imediações. Por alguma razão, não me sentia coberto pela gíria: Quem não deve, não teme…

Acabam de conhecer um vulgaríssimo incidente desse e nesse 3° B. Que turma!

O nosso Tatitataia tem mais. Saibam ser pacientes….

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11 thoughts on “Mário ‘Buick’, e um pequeno incidente em aula…

  1. Que turma essa……..do 3ºB?!?!?!?! Terríveis e indisciplinados….., mas nada que se compare aos dias de hoje!!!
    Cá fico à espera de mais pois muito me tenho rido com estas histórias do Tatitataia.
    Beijinhos

  2. “p-p-po-po-ponha-se lá fó-fóra!”. Já ouvi essa história tantas vezes e ainda estou aqui com lágrimas nos olhos de tanto rir!!

    Pai, tens de contar a do “bálha-me deus, rapazinho!” 😀

      1. Bons tempos João. Adorei este registo sobre o Mário Buick. Nada sei a respeito dele, paradeiro, se ainda entre nós ou não. Mas pelo optimismo que me transmitiu a história do incidente espero que ele esteja de boa saúde e daqui lhe envio um abraço amigo e afectuoso. Para ti também que tão diligentemente nos brindas com estas boas recordações. Um abraço!

  3. João… ou será que devo dizer “Pequeno Judas” 🙂

    Hilariante… Não sei se entrava em pânico ou desmanchar-me a rir perante a descarga de adrenalina do Mário (com todo o respeito devido). É também de salientar o notável espirito de camaradagem demonstrado pelo Mário em não o denunciar, ainda que já diante do carrasco.

    PS: Os Buick ainda andam por ai, hoje em dia, pertence a categoria de carros de luxo do grupo GM. É considerado a marca de carro americano mais antigo.

    Abraço,
    Anaximandro

  4. Caro Sr. João Galvão, graças a si fiquei a saber da alcunha do meu tio Mário Lima do Rosário. Graças a si, pude reviver certos e bons momentos da minha infância, especialmente as partidas que pregava ao Sr. Domingos Angolá, que era como o tratava, e o Pedro Cajá.
    Muito obrigado!

  5. Mais uma hilariante estória. Não consegui lê-la do princípio ao fim sem que desatasse a rir e a bom rir. Como conheço o Sr.Mário Lima do Rosário (Buick) começei a imaginá-lo a arrumar os seus pertences para depois abandonar a sala de aulas. E amigo João Borges faço ideia, que nesse dia, o único nome que ele não lhe chamou foi “santo”.
    Tem muita gente hoje, presa nos seus relatos, por isso amigo João Borges não nos deixe “cuntangu” sem algo seu para ler. O Tatitataia tem-me feito reviver as minhas infância e adolescência que foram boas e repletas também de muitas “riju cabeça” no bom sentido.
    Aguardo com ansiedade por mais estórias. Um abraço amigo.

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