Domingos ‘Angola’, Chico ‘Búnda Bránkú’ e outros…

Através do primeiro episódio do ano, um capítulo genuínamente Tatitataia, formulo a todas e a todos os utentes deste nosso blog, sinceros votos dum 2013 pleno de boas realizações na vossa vida privada e profissional, com saúde e Paz. Este capítulo pretende muito carinhosamente trazer à memória figuras mentalmente debilitadas do passado e da nossa capital Bissau. De lamentar, que essas figuras eram como eram por não terem sido poupadas pelas agruras da vida.

Começarei por  Nhú Pâpâi. Um homem sorridente e de palavras mansas. Celebrizou-se em contos de cenas em recintos de baile. Gabava ter sido excelente dançarino e terrível sedutor. Nha kôlégas, é tâ finúbâ mi. Tinham-me uma inveja que só Deus sabe…N’tâ kânsába élîss MAL na sala de badjú. Nos bailes, fazia-lhes vida dura. Se n’púibâ údjú num dáma, dîmi tóke sól mânci, kâ tem nim nóss. Útrúss tâ fikábâ kúntángú té fim de badjú.  Âmôntôns ke bâli. É kâtâ ôssâ tira dáma!  Pâpâi se ‘via’ um verdadeiro DANDY. Irresistível galã!

Havendo plateia, Pâpâi jamais se furtava a uns passitos de dança, cantando. B’ôdja, N’ta pégabâ dama na  cintura n’djúndál pâm sîntil sábî na nhâ pitú. ÁÁhhh,  ÁÁhhh múndú. Nâ sála de bádjú tâm, âmî ke tâ rêina! Ááhh Pâpâi, témpú bâiii! E cantava: Milionário péga dama, dama que se veste bem; Mão na cintura, târúss târáss, baião bem, baião bai, baião bem, baião bai! Milionário péga dama, dama que se veste bem; Mão na cintura, târúss târáss, baião bem, baião bai, baião bem, baião bai! Mas o regalo era vê-lo com sublime elegância inclinar a cabeça e os ombros para um dos lados quando dizia ‘baião bem’ e de imediato para o outro lado quando dizia ‘baião bai’. Finalizava a cena com um rodopio seguido de risos e aplausos. Cativante Nhú Pâpâi!

Permitam-me o prazer de vos fazer conhecer  Búli Búnda. Figura masculina de carisma e temperamento diametralmente opostos aos de Pâpâi. Menos popular, dotado de volumosas e flácidas nádegas na origem desse recreativo pseudónimo. Búli Buda era um verdadeiro diccionário de impropérios. Kôba mal i tâ mánci kél e dîta kél! Esse autoproclamado funcionário dos Correios de então, não perdia de vista o Land Rover dos Serviços estacionado no pátio interior dos CTT. Bastava o condutor do veículo entrar na cabine, num ápice o nosso amigo acomodava-se nas traseiras do carro para qualquer deslocação ao aeroporto ou porto para recolha de malas de correio postal. Graças à sua probante assiduidade acabou por merecer uma gratificação mensal de 300 escudos. Como eram provocados e proferidos os impropérios?

O pátio interior dos CTT tinha a forma dum U invertido com a porta de recepção das malas postais situada bem ao centro da base invertida desse U, próximo da qual ficava estacionado o citado Land Rover. A Estação Postal e a Estação Telegráfica eram paralelas e ambas dispunham de janelas viradas para o interior do pátio. As provocações proferidas através dessas janelas, vinham quase sempre ou do José Gabriel Lobo de Pina ou do João Galvão Galvas, ambos funcionários  da Estação Telegráfica e do saudoso Anastácio Furtado ou do Manuel Dias da Cunha Ribeiro, vulgo Manecas ‘Cutá’, funcionários da Estação Postal. SEMPRE que qualquer funcionária dos Serviços Administrativos no 1° andar se deslocasse por motivos de serviço à Estação Postal, havia SEMPRE um dos mencionados, atento e disponível para mais uma provocação.

Bastava que ouvisse, vindas das janelas, expressões ‘chaves’, a exemplo: Djúbi si máma de búnda; I kâ fémia mé?! Éhh Déus!; Gája stâ bôa; Ai que dôr; ou qualquer outra, qual reflexo de Pavlov, a reacção era instintiva, imediata e sonora: Máma de búnda de bú mámé; Âmi i fémia ke tâ dîtâ bú mámé; Éhh Déus i óbú de bú pápé; Bú mámé má stâ bôa; Dúr na kúnu de bú mámé….Esses e outros insultos de semelhante gabari eram pronunciados em audíveis decibéis fazendo as tais funcionárias fugir, dada a virulência dos impropérios. E quando se preparava para partir no Land Rover provocávamos novamente: Âlâ câtibú nâ n’barkâ máss, ao que respondia de imediato: N’nâ n’barkâ máss na rabáda de bú mámé, Blúfú de mérda. Assim era Búli Búnda!

Eis a vez de Chico Búnda Bránkú. Esse indivíduo de tez clara cujo sorriso denunciava uma dentadura em péssimo estado de conservação e um quanto desagradável à vista, fez-se conhecido pela facilidade com que mexia uma ou outra das suas enormes e anémicas orelhas ou ambas simultâneamente quando se lhe pedia. Para além dessa capacidade artística, o nosso Chico mostrava-se particularmente orgulhoso das suas nádegas, segundo ele isentas de melanina, que justificavam esse pseudónimo, a meu ver, pouco gratificante. Dizia: Nhâ búnda bránkú bránkú bránkú, Bránkú fândâm. Bránkú tóke bránkú kâbâ. Ééhhh, Má nhâ pápé i tuga!

Na qualidade dum inveterado pedinte, frequentava locais como os Correios, o Mercado Municipal , o cais de Pidjiguiti, a pastelaria Império, enfim onde houvesse concentração de pessoas. Ora foi no Edifício dos Correios, para ser mais preciso no espaço para atendimento público da estação Radiotelegráfica que o nosso Chico Búnda Bránkú teve uma atitude que poderia levar-me a um processo disciplinar, não fosse a solidariedade do meu colega Lobo de Pina.

Aos balcões da referida Estação havia sempre umas dezenas de militares, alferes, tenentes, capitães, majores e outros para enviarem telegramas ou fazerem telefonemas para as respectivas famílias em Portugal. Numa das minhas ‘viagens’ para recolha de telegramas a serem enviados, ao ver o nosso amigo veio-me a brilhante ideia de fazer ‘uma das minhas’. Livre de qualquer olhar suspeito chamei-o discretamente ao extremo do balcão e disse-lhe: Chico, b’ôdjâ é guîntiss que firma li é kâ fia kúma bú búnda i bránkú! Atónito retorquiu, Kééhhh?! Para ‘embelezar’ o meu plano disse-lhe: Pérâm n’bâi bú mostra éliss bú bunda pâ tira éliss na sé muntrússn’dádi. Fiânça na mi. N’tâ bîm dáú dúss péss i meio. E com a mesma discrição abandonei o recinto.

Assim que deixei o balcão da ‘taxação’ o nosso Búnda Bránkú, como lhe era hábito, prestou-se a um verdadeiro show de striptease. Baixou as calças e exibiu despudoradamente as sua magras nádegas a todos os presentes no citado recinto. Os polícias que asseguravam a protecção do edifício agiram imediatamente e levaram o nosso artista. Ao ser irradiado pediu que o deixassem recuperar os ‘dois escudos e cinquenta centavos’ que lhe foram prometidos em compensação dos seus ‘bons serviços’. Graças ao meu amigo e colega Lobo de Pina que convenceu os polícias a não fazerem caso das insinuações dum ‘desiquilibrado mental’ pude livrar-me de sérias consequências. Mais tarde, a funcionária que estava de serviço à ‘taxação’ e que óbviamente assistiu a teatral cena de ‘striptease’, manifestou-se com ‘ar de poucos amigos’: João, tu, tenho a certeza de que foste tu o responsável por essa cena. Claro que a minha resposta foi peremptória: EEEuuuuuuu?! Veja bem se está segura do que afirma? E assim ficamos falados! Passado o susto, cheguei à conclusão de que João Galvão precisava de mais algum tempo para esquecer a vida de estudante, se conformar e assumir com mais rigôr o novo estatuto de funcionário público. Mais uma do vosso Galvas!

Domingos ‘Angola’! João Tavares Lucas Gomes Monteiro, ‘Todo inteiro’, assim se autoproclamava. Sem sombra de dúvida o mais popular de todas as figuras mencionadas neste capítulo, sem que saiba esclarecer a origem do pseudónimo ‘Angola’. As memórias do seu passado enquanto contínuo da Comissão Municipal de Bolama nas décadas de 40-50 do século transacto acompanharam-no até o fim dos seus dias. Nos seus incontáveis e inflamados discursos na pastelaria Império vangloriava-se de ter possuído nos seus tempos áureos um guarda-roupa recheado de fatos em casimira e outros tantos ‘muáss’, fatos brancos do tipo colonial. Entusiasmava a sua plateia dizendo: Eu, Domingos ‘Angola’, quando era funcionário em Bolama tinha tantos fatos que para escolher fazia; N’Dúlé N’Dúlé, N’Dúlé Papá; Papá Cê, Cê Iúnkô; Iúnkô kôli, Koli Iáiá; Iáiá Mâté, Mâté Lúntân! Ááhhh Múndú! Ora ke n’bistiba nha fato n’sâi, guintiss ta falâmbâ: Bom dia Nhú Dimingú. Aóss ke nhú má néga lébssimenti. Nhú fakúlta déé! É na bim finú nhú! Dizia-nos para colmatar: Aaii, bô dibdi kúnssibâ Domingos ‘Angola’ de kî témpús, Ai Mâmã! Deviam ter conhecido o Domingos ‘Angola’ doutros tempos…

Não posso mencionar Domingos ‘Angola’ sem falar do seu principal adversário ou rival das frequentes confrontações verbais que faziam o nosso regalo à volta das mesas da esplanada da pastelaria Império. Esse não menos famoso adversário era conhecido por Pedro ‘Cadjábra’ o jardineiro da Câmara Municipal de Bissau que se ocupava dos jardins do palácio e da então Praça do Império. Nunca soubemos o significado do refrão que o nosso amigo Cadjábra nos ‘recitava’ quando trazia o seu ‘grão na asa’, Óra ki môdjâ bókâ.  Amî Pîdrú Cajááhhh…Matava enterrravas, Médico perguntava, Repondêvas. Assim ke dîmi kâbâ! Sempre que nos visse, repetia o mesmo refrão cujo significado é, ainda hoje, do domínio dos Deuses. Normalmente os duelos entre os dois insubstituíveis comediantes, algumas vezes acompanhados de ameaças nunca cumpridas…, tinham lugar ao fim da tarde quando já bem ‘molhados’ vinham ‘vender’ os seus talentos no intuito de ganharem mais uns copitos dos seus mais fiéis admiradores.

‘Angola’ apreciava particularmente os domingos por coíncidir com o desfile militar acompanhado de fanfarra musical desde o Quartel da Amura ao Palácio do Governo na ex-Praça do Império. Devido a esse evento, a esplanada da pastelaria Império regurgitava, entre as 10H00 e as 13H00, de soldados, cabos, furriéis, sargentos e alguns oficiais que vinham assistir ao desfile. Raramente faltava a esse evento dominical pois sabia que os seus patrióticos e inflamados discursos eram copiosamente compensados pelas ‘rodadas’ pagas pelos militares presentes nas mesas da esplanada Império. Ao longo da parada o nosso amigo gritava repetindo a plenos pulmões: Olhem como marcham garbosos os defensores da nossa Querida Pátria, Ai mamã! Finda a cerimónia, qual libelinha em folhas de nenúfar, o nosso ‘Angola’ percorria as mesas onde ia engorgitando tudo quanto os  militares embevecidos com os discursos lhe ofereciam. Cerveja, vinho, aguardente, breve TUDO. É óbvio que o nosso amigo por volta das 13H00 e com o sol a pique, se tornava ‘impróprio para consumo’, mais bêbedo que qualquer perú na véspera de Natal…

Fazer-vos recordar todo o arsenal literário e artistico de Domingos ‘Angola’, muito mais teria que escrever. Muito, muito mesmo fica por dizer pois ele possuía uma série inesgotável de estórias para todos os gostos e paladares. Antes de vos fazer saborear uma das mencionadas confrontações verbais entre ‘Angola’ e ‘Cadjábra’, eis mais uma das suas declamações públicas, talvez a mais plebiscitada pelos seus fervorosos admiradores: Nas altas montanhas de Bandim ouviu-se uma rotação de tiros. O Homem morreu mas não morreu. Foi ferido por uma azagaia de guerra que nós, filhos da Guiné, chamamos ‘Kanhákú’, eheheheheheh, ai mãmã! ‘Angola’ no seu esplendor!

Normalmente a ‘plateia’ da pastelaria Império desempenhava a dupla função de ‘Tchútchir’, espicaçar os dois adversários para que pusessem à prova seus enormes talentos de comediantes e simultâneamente permitir saborear essas confrontações plenas de humor popular e bem guineeense. As disputas procuravam retratar o que um pensava do outro com base em parâmetros sociais ‘inexistentes’. Enquadrado nesse objectivo ‘Angola’ dizia: É môss i kôitádú, kâ bó kúdil. Não façam caso desse ‘pobre desgraçado’. Má n’fâlâ, abó ‘Cadjábra’, kúmâ ke bú tâ pâgádú na fim de mîss?! Bú kâ têm fôdja, bú tâ rênkúa pâ bú pâgádú, kôitádú! Âmi n’tâ dádúba nhâ títúlú de vencimenti, Ai mamã! Eu ‘tinha’ um título de vencimento. E acrescentava: Bô djúbi kúmâ ki fúngúli. Kôpôti ki bú târbádjú, nîm timbâ kâ máss bô, sâi hômi, bâi lâ! Âlgúm dia bú tchigâ de kúnssî kânéta?! Tóróssâ! Koitádú ke tâ mancircâ bînhú. ‘Cadjábra’ rindo perdidamente replicava: Éss i múntrúss garándi, i tâ rôga biánda. Nîm mîndjêr i kâ tôpi!

Que dois! Domingos ‘Angola’, Pedro ‘Cadjabra’. Marcaram uma época.

Tatitataia é tudo isto. Aguardem pelos próximos episódios. Bem hajam!

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Olilas, Galvas, UDIB!

Queridos Tatitataianos!

Nesta Quadra especial, Tatitataia não pode deixar de vos manifestar sinceros votos dum Natal de Paz e saúde com um terno pensamento aos que físicamente nos deixaram. Um amanhecer mais radioso para todos quantos padecem. Um 2013 repleto de boas realizações para todos os utentes  do nosso planeta. Que o Homem se humanize!

Olilas, Galvas e anónimos transeuntes!

A coberto dum Suficiente, um S maiúsculo embelezado por um sinal de adição que lhe conferia a nota de 13 valores, obtive a imprescindível autorização do meu saudoso velho Amilcar para, extra muros, passar uma tarde diferente.

Deambulando pela avenida principal, Pidjiguiti-Palácio, meu fado me presenteia um Olilas, deveras radiante. Todo meu, para o que desse e viesse! A senha: Aóss tãm, UDIB na sédú! UDIB é cinema. Não tenho ‘kumbú’, disse-lhe. Primeiro estoiro: N’kâ puntáú pâ dinhêrú. Pôrra! Perguntei-te por dinheiro?! Não repliquei. Pediu que o acompanhasse a casa para mudar de camisa. De bússola aferida fomos navegando p’ós lados do Liceu. Para vos ser sincero, essa de mudar de camisa foi muito pouco convincente. Muito pouco mesmo. Não colou. Artista sobejamente capacitado para engenhar as mais descabidas e incríveis situações para as quais sempre se mostrou capaz de laboriosamente esculpir as mais inverosímeis soluções. Atenção! Indivíduo pouco emotivo, por vezes enigmático. Dotado de excelentes reflexos e duma invejável versatilidade. Imaginativo.  Imprevisível. Em suma,  padrão pouco comum. Olilas só UM! 

Próximos da praceta do nosso histórico Liceu Honório Barreto, Olilas pára junto ao muro do quintal da casa dele. Pede-me que o aguarde nesse muro que transpôs qual um felino. Minutos volvidos oiço sussurrar entre as paredes do muro: Pêga é môss, má pêrtál bóca. Kanádja tâ sômna. Múntrúss gârándi. Segura mas aperta-lhe bem a boca porque mais denunciador que isto não pode haver. E passa-me para as mãos, nem mais nem menos que um…… PATO. Sim meus amigos, um pato. Um palmípede até então aparentemente feliz. Um ‘senhor’ pato, com bico, penas, patas, tudo, tudo quanto o mais vulgar dos palmípedes pode orgulhar-se e mesmo vangloriar-se de possuir. Por essa gesta Olilas ousou subtrair um pato à contabilidade da capoeira do saudoso Armando Santos, pai dele. Sem laivos de arrependimento, acaba por despudoradamente gratificar-me com um rasgado e triunfante sorriso. Sai do quintal sem ter mudado de camisa! Essa violação do direito de propriedade guindou-me à incómoda posição de cúmplice pois, como reza o provérbio e eu assumo, ‘tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta’. Mais uma patifaria Feita e assumida. Haviam de ver o seu olhar brilhando de orgulho.

Inconcebível cenário. Surrealista. Com esse ‘bebé’ anichado no sovaco direito e a mão esquerda atarrachando o bico do bicho para evitar que armado em soprano decidisse pôr a goela ao vento, fui andando qual autómato com medo estampado no olhar  implorando não ver e muito menos ouvir alguém chamar-me. Tivesse tal acontecido,  vosso amigo Galvas ver-se-ia em muito maus lençóis. Seguramente!

Olilas, atravessa a estrada e faz-me sinal para o seguir. Ao juntar-me a ele retira-me o palmípede e diz: Kó túrmênta, ‘nô’ nâ sáfa mistida dé ‘bitchú’ góss, góss. Não te preocupes que nos ocuparemos imediatamente deste animal. Com o pobre e ultrajado palmípede debaixo do braço, Olilas  entra no quintal da moradia que víamos de face. Não fazia a mínima ideia de quem morava nessa casa. Após a dezena de minutos que se eternizava, vejo Olilas sair e todo ‘sorrisos’ diz-me: Nô sáfa!  Estamos safos. Instei em saber um pouco mais ao que ufanamenteme respondeu: N’kôlôka mercáno pato, ou seja: Vendi o pato a um americano.  Fiquei sabendo que nessa casa moravam alguns americanos que na altura faziam a prospecção de petróleo na Guiné então portuguesa.

Radiantes com o sucesso obtido com a transacção do palmípede, retomamos alegremente o caminho da UDIB. Cogitando cheguei à conclusão que quem for que se ponha na senda de Olilas, não podia ter a adrenalina em estado de repouso. Tampouco dentro de valores clínicamente aceites. Só um animal de sangue frio pode absorver  tanto sobressalto. Tanto desassossego.

Vendo-me meditativo e algo circunspecto, Olilas desabafa: I tem um kússa ke n’kâ gôsta nâ bô. Bú ta lestú kú pânta. Kússassinhú tâ pantáu. Sédú homi. Há algo em ti que não aprecio. Assustas-te por tudo e por nada. Tens que saber ser ‘homem’. Em termos académicos, sirvo-me da sólida e credível referência da ‘Tristemente célebre’ B do 3° ano 1958-59, para vos assegurar que Olilas esteve sempre aquém dessa prestigiosa selecção.

Eis-nos, eu e o meu comandante-em-chefe, finalmente chegados à UDIB. Á porta do cinema e após curta reflexão, Olilas diz-me: Pâ cinéma nô complêta, má réstú góra? Temos as entradas garantidas mas falta-nos ‘um complemento’ para o resto. Mas que resto? Ao que displicentemente me responde: Pôrra! Abó bú kânssadú n’tîndi. N’tân dinhêrú pâ ki kússassinhús…na intervalo di cinema. Bolas! Tu és de difícil compreensão…Insinuou que faltava verba para umas iguarias durante o intervalo.

Fingindo não perceber o que ele entendia por ‘kússassinhús’, e com ar do mais desfasado, OUSEI perguntar: Mas que raio de ‘kússassinhús’ são esses? Aí as ‘soupapes’, as válvulas de escape, da sua adrenalina atingiram o limite de vibrações: Bú sîbî KÉ, Bá kúmé BÚ merda! N’tâm, bú kâ kúnssi fidjós, pankête, mancarra, pôôôrrraa!  Vai à bardamerda. Não sabes o que são filhós, panquecas e amendoim? Confessou não ter senão uma moeda de dez escudos, o que considerava insuficiente para financiar satisfatóriamente o nosso ‘projecto’. Pretendia algo digno e compatível com o nosso respeitável estatuto de cidadãos! Bú sîbî kê, nô bâi! Vamo-nos. E eis-nos envolvidos numa segunda maratona com trajecto, esse, por conta do piloto de serviço.

No sentido de quem desce e ainda no passeio da UDIB, Olilas vira à esquerda e em busca de financiamento para as ou os tais ‘Kússassinhús’, passamos pelo Hospital em direcção ao Grande Hotel. Chegados à esquina do edifício que antecede o Grande Hotel, diz-me: Nô tchiga. Chegamos. Algo me anunciava a iminência de uma segunda operação. Pensando desta vez num galináceo, não resisti admoestar-lhe: Óh pá, não me digas que tens em mente uma visita à capoeira do Grande Hotel, a esta hora com todos os empregados presentes?! Se é isso, não contes comigo. Rindo, disse-me: Não i kâ lâ ke nô na bâi. Não é esse o nosso objectivo.

Nas peugadas do comandante, entrei por um portal que nos colocou, face ao muro traseiro da oficina do Senhor Melão. Disse-lhe de imediato: De nada te vale visar o quintal do Melão pois que ele não tem capoeira. Quando muito podemos programar, para um outro dia, uma visita ao Melão para nos abastecermos em rolamentos de ‘bilas’. A par disso esse quintal pouco ou nada mais tem. Com a cabeça acenando negativamente e com ar dubitativo, perguntou-me num tom deliberadamente inquisitório acompanhado dum sorriso ostentosamente provocador: Sem contar com este muro, que outro dá para a oficina do Melão? Com essa pergunta Olilas fez toda a luz sobre a sua real intenção e porque não pretensão. Imponderável! Não. Não é possível. Não. Não pude acreditar. Definitivamente, Não!

Efectivamente havia um outro muro e esse era, e seguramente ainda é, o muro traseiro da casa do saudoso Amilcar, meu pai. ‘O’ segundo objectivo de Olilas ERA a capoeira do velho Amilcar. Ponto final. Case closed. Advogou que a única maneira de prestar justiça ao pai dele seria aliviar a capoeira do meu velho, de pelo menos uma ave. Um pato da sua capoeira. Uma galinha da minha. Nada mais justo na perspectiva do Olilas. Nada mais injusto na perspectiva do Galvas na medida em que a operação pato fôra da inteira e exclusiva responsabilidade de Olilas. Perante esse facto eu não podia aceitar, a preço nenhum, uma intrusão nos domínios do meu pai. E  nesse preço nenhum, estava incluída a possibilidade de Fîndî um útrú kâdéra, Mîtî um útrú môn, formas mais virís de solucionar conflitos. Simplesmente admirável a imaginação desse meu querido e saudoso colega. Inenarrável!

A minha firme oposição à premeditada intrusão na capoeira do meu velho exasperou o meu amigo Olilas. E como consequência dessa exasperação a possibilidade duma confrontação com mais acção e menos palavras tomava proporções. Entretanto, para demonstrar a Olilas que ele não era o único a ter direito a exasperações, elevei a voz e disse: Sabes que mais: Nem que te pintes todo tu entras na capoeira do meu velho. Pânhâ bú múéda de déss péss bú mîtîl na bú kadéra. Má kîm ki bó?!    Pega na tua moeda de dez escudos e mete-a no…. Eu vou-me embora. Num virar de esquina, estou em casa.

Virada a esquina a caminho de casa ouvi-o chamar: Pára sédú parbú nó bá cinéma. Deixa de ser parvo. Vamos ao cinema. Era tudo quanto eu queria ouvir. Concordei, naturalmente! e, como se nada tivesse acontecido, lá voltámos à UDIB. Vimos o filme e no intervalo regalámo-nos com filhós, e uns bindesitos de cúscús de arroz. Pelos gastos constatei que o nosso amigo tinha nos bolsos, algo mais que a simples moeda de dez escudos da famosa transacção do palmípede. Assim era Olilas!

Os sorrisos de Olilas eram doces, intrigantes, mensageiros. Nunca sorria gratuitamente. Cada sorriso de Olilas merecia uma leitura diferente. Ao separarmo-nos após o filme, alguns metros vencidos,  voltámo-nos quase instintivamente para um protocolar aceno de despedida. Aí Olilas premeia-me com ‘aquele sorriso’. Um sorriso que só ele sabia sorrir. Esse sorriso trazia estampado todo o seu orgulho pelo sucesso da ‘operação pato’.  Não deixei de partilhar essa felicidade, mesmo que veladamente. Entretanto Olilas, esse, ficou uma vez mais, FELIZ. Olilas, forever!

Mais episódios vos aguardam. Saibam ser pacientes…