Olilas, Galvas, UDIB!

Queridos Tatitataianos!

Nesta Quadra especial, Tatitataia não pode deixar de vos manifestar sinceros votos dum Natal de Paz e saúde com um terno pensamento aos que físicamente nos deixaram. Um amanhecer mais radioso para todos quantos padecem. Um 2013 repleto de boas realizações para todos os utentes  do nosso planeta. Que o Homem se humanize!

Olilas, Galvas e anónimos transeuntes!

A coberto dum Suficiente, um S maiúsculo embelezado por um sinal de adição que lhe conferia a nota de 13 valores, obtive a imprescindível autorização do meu saudoso velho Amilcar para, extra muros, passar uma tarde diferente.

Deambulando pela avenida principal, Pidjiguiti-Palácio, meu fado me presenteia um Olilas, deveras radiante. Todo meu, para o que desse e viesse! A senha: Aóss tãm, UDIB na sédú! UDIB é cinema. Não tenho ‘kumbú’, disse-lhe. Primeiro estoiro: N’kâ puntáú pâ dinhêrú. Pôrra! Perguntei-te por dinheiro?! Não repliquei. Pediu que o acompanhasse a casa para mudar de camisa. De bússola aferida fomos navegando p’ós lados do Liceu. Para vos ser sincero, essa de mudar de camisa foi muito pouco convincente. Muito pouco mesmo. Não colou. Artista sobejamente capacitado para engenhar as mais descabidas e incríveis situações para as quais sempre se mostrou capaz de laboriosamente esculpir as mais inverosímeis soluções. Atenção! Indivíduo pouco emotivo, por vezes enigmático. Dotado de excelentes reflexos e duma invejável versatilidade. Imaginativo.  Imprevisível. Em suma,  padrão pouco comum. Olilas só UM! 

Próximos da praceta do nosso histórico Liceu Honório Barreto, Olilas pára junto ao muro do quintal da casa dele. Pede-me que o aguarde nesse muro que transpôs qual um felino. Minutos volvidos oiço sussurrar entre as paredes do muro: Pêga é môss, má pêrtál bóca. Kanádja tâ sômna. Múntrúss gârándi. Segura mas aperta-lhe bem a boca porque mais denunciador que isto não pode haver. E passa-me para as mãos, nem mais nem menos que um…… PATO. Sim meus amigos, um pato. Um palmípede até então aparentemente feliz. Um ‘senhor’ pato, com bico, penas, patas, tudo, tudo quanto o mais vulgar dos palmípedes pode orgulhar-se e mesmo vangloriar-se de possuir. Por essa gesta Olilas ousou subtrair um pato à contabilidade da capoeira do saudoso Armando Santos, pai dele. Sem laivos de arrependimento, acaba por despudoradamente gratificar-me com um rasgado e triunfante sorriso. Sai do quintal sem ter mudado de camisa! Essa violação do direito de propriedade guindou-me à incómoda posição de cúmplice pois, como reza o provérbio e eu assumo, ‘tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta’. Mais uma patifaria Feita e assumida. Haviam de ver o seu olhar brilhando de orgulho.

Inconcebível cenário. Surrealista. Com esse ‘bebé’ anichado no sovaco direito e a mão esquerda atarrachando o bico do bicho para evitar que armado em soprano decidisse pôr a goela ao vento, fui andando qual autómato com medo estampado no olhar  implorando não ver e muito menos ouvir alguém chamar-me. Tivesse tal acontecido,  vosso amigo Galvas ver-se-ia em muito maus lençóis. Seguramente!

Olilas, atravessa a estrada e faz-me sinal para o seguir. Ao juntar-me a ele retira-me o palmípede e diz: Kó túrmênta, ‘nô’ nâ sáfa mistida dé ‘bitchú’ góss, góss. Não te preocupes que nos ocuparemos imediatamente deste animal. Com o pobre e ultrajado palmípede debaixo do braço, Olilas  entra no quintal da moradia que víamos de face. Não fazia a mínima ideia de quem morava nessa casa. Após a dezena de minutos que se eternizava, vejo Olilas sair e todo ‘sorrisos’ diz-me: Nô sáfa!  Estamos safos. Instei em saber um pouco mais ao que ufanamenteme respondeu: N’kôlôka mercáno pato, ou seja: Vendi o pato a um americano.  Fiquei sabendo que nessa casa moravam alguns americanos que na altura faziam a prospecção de petróleo na Guiné então portuguesa.

Radiantes com o sucesso obtido com a transacção do palmípede, retomamos alegremente o caminho da UDIB. Cogitando cheguei à conclusão que quem for que se ponha na senda de Olilas, não podia ter a adrenalina em estado de repouso. Tampouco dentro de valores clínicamente aceites. Só um animal de sangue frio pode absorver  tanto sobressalto. Tanto desassossego.

Vendo-me meditativo e algo circunspecto, Olilas desabafa: I tem um kússa ke n’kâ gôsta nâ bô. Bú ta lestú kú pânta. Kússassinhú tâ pantáu. Sédú homi. Há algo em ti que não aprecio. Assustas-te por tudo e por nada. Tens que saber ser ‘homem’. Em termos académicos, sirvo-me da sólida e credível referência da ‘Tristemente célebre’ B do 3° ano 1958-59, para vos assegurar que Olilas esteve sempre aquém dessa prestigiosa selecção.

Eis-nos, eu e o meu comandante-em-chefe, finalmente chegados à UDIB. Á porta do cinema e após curta reflexão, Olilas diz-me: Pâ cinéma nô complêta, má réstú góra? Temos as entradas garantidas mas falta-nos ‘um complemento’ para o resto. Mas que resto? Ao que displicentemente me responde: Pôrra! Abó bú kânssadú n’tîndi. N’tân dinhêrú pâ ki kússassinhús…na intervalo di cinema. Bolas! Tu és de difícil compreensão…Insinuou que faltava verba para umas iguarias durante o intervalo.

Fingindo não perceber o que ele entendia por ‘kússassinhús’, e com ar do mais desfasado, OUSEI perguntar: Mas que raio de ‘kússassinhús’ são esses? Aí as ‘soupapes’, as válvulas de escape, da sua adrenalina atingiram o limite de vibrações: Bú sîbî KÉ, Bá kúmé BÚ merda! N’tâm, bú kâ kúnssi fidjós, pankête, mancarra, pôôôrrraa!  Vai à bardamerda. Não sabes o que são filhós, panquecas e amendoim? Confessou não ter senão uma moeda de dez escudos, o que considerava insuficiente para financiar satisfatóriamente o nosso ‘projecto’. Pretendia algo digno e compatível com o nosso respeitável estatuto de cidadãos! Bú sîbî kê, nô bâi! Vamo-nos. E eis-nos envolvidos numa segunda maratona com trajecto, esse, por conta do piloto de serviço.

No sentido de quem desce e ainda no passeio da UDIB, Olilas vira à esquerda e em busca de financiamento para as ou os tais ‘Kússassinhús’, passamos pelo Hospital em direcção ao Grande Hotel. Chegados à esquina do edifício que antecede o Grande Hotel, diz-me: Nô tchiga. Chegamos. Algo me anunciava a iminência de uma segunda operação. Pensando desta vez num galináceo, não resisti admoestar-lhe: Óh pá, não me digas que tens em mente uma visita à capoeira do Grande Hotel, a esta hora com todos os empregados presentes?! Se é isso, não contes comigo. Rindo, disse-me: Não i kâ lâ ke nô na bâi. Não é esse o nosso objectivo.

Nas peugadas do comandante, entrei por um portal que nos colocou, face ao muro traseiro da oficina do Senhor Melão. Disse-lhe de imediato: De nada te vale visar o quintal do Melão pois que ele não tem capoeira. Quando muito podemos programar, para um outro dia, uma visita ao Melão para nos abastecermos em rolamentos de ‘bilas’. A par disso esse quintal pouco ou nada mais tem. Com a cabeça acenando negativamente e com ar dubitativo, perguntou-me num tom deliberadamente inquisitório acompanhado dum sorriso ostentosamente provocador: Sem contar com este muro, que outro dá para a oficina do Melão? Com essa pergunta Olilas fez toda a luz sobre a sua real intenção e porque não pretensão. Imponderável! Não. Não é possível. Não. Não pude acreditar. Definitivamente, Não!

Efectivamente havia um outro muro e esse era, e seguramente ainda é, o muro traseiro da casa do saudoso Amilcar, meu pai. ‘O’ segundo objectivo de Olilas ERA a capoeira do velho Amilcar. Ponto final. Case closed. Advogou que a única maneira de prestar justiça ao pai dele seria aliviar a capoeira do meu velho, de pelo menos uma ave. Um pato da sua capoeira. Uma galinha da minha. Nada mais justo na perspectiva do Olilas. Nada mais injusto na perspectiva do Galvas na medida em que a operação pato fôra da inteira e exclusiva responsabilidade de Olilas. Perante esse facto eu não podia aceitar, a preço nenhum, uma intrusão nos domínios do meu pai. E  nesse preço nenhum, estava incluída a possibilidade de Fîndî um útrú kâdéra, Mîtî um útrú môn, formas mais virís de solucionar conflitos. Simplesmente admirável a imaginação desse meu querido e saudoso colega. Inenarrável!

A minha firme oposição à premeditada intrusão na capoeira do meu velho exasperou o meu amigo Olilas. E como consequência dessa exasperação a possibilidade duma confrontação com mais acção e menos palavras tomava proporções. Entretanto, para demonstrar a Olilas que ele não era o único a ter direito a exasperações, elevei a voz e disse: Sabes que mais: Nem que te pintes todo tu entras na capoeira do meu velho. Pânhâ bú múéda de déss péss bú mîtîl na bú kadéra. Má kîm ki bó?!    Pega na tua moeda de dez escudos e mete-a no…. Eu vou-me embora. Num virar de esquina, estou em casa.

Virada a esquina a caminho de casa ouvi-o chamar: Pára sédú parbú nó bá cinéma. Deixa de ser parvo. Vamos ao cinema. Era tudo quanto eu queria ouvir. Concordei, naturalmente! e, como se nada tivesse acontecido, lá voltámos à UDIB. Vimos o filme e no intervalo regalámo-nos com filhós, e uns bindesitos de cúscús de arroz. Pelos gastos constatei que o nosso amigo tinha nos bolsos, algo mais que a simples moeda de dez escudos da famosa transacção do palmípede. Assim era Olilas!

Os sorrisos de Olilas eram doces, intrigantes, mensageiros. Nunca sorria gratuitamente. Cada sorriso de Olilas merecia uma leitura diferente. Ao separarmo-nos após o filme, alguns metros vencidos,  voltámo-nos quase instintivamente para um protocolar aceno de despedida. Aí Olilas premeia-me com ‘aquele sorriso’. Um sorriso que só ele sabia sorrir. Esse sorriso trazia estampado todo o seu orgulho pelo sucesso da ‘operação pato’.  Não deixei de partilhar essa felicidade, mesmo que veladamente. Entretanto Olilas, esse, ficou uma vez mais, FELIZ. Olilas, forever!

Mais episódios vos aguardam. Saibam ser pacientes…

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6 thoughts on “Olilas, Galvas, UDIB!

  1. E verdade, aliás já tinha comentado algures, penso eu, o meu encontro cá em Lisboa com o ilustre personagem que era o Olilas. De facto, depois de tantas “passadas” ouvidas sobre ele, foi um previlégio un tanto estranho, pois já se ncontrava numa fase mais calma. Contudo, ainda se percebia a ireverência que sempre o caracterizou.

  2. muito obrigado, para si e os seus Um Natal Feliz e Excelente Novo Ano particularmente com muita saúde, alegria e paz

    quando este capítulo foi anunciado julguei logo que viesse a tratar-se, dentre outros imprevistos, duma cena com os vendedores de ‘kússassinhús’ ou o moço que, dentro do salão, vendia nos intervalos;
    agora essa do pato não dava mesmo para adivinhar e sabe s. francisco da califórnia (padroeiro dos tatitataianos!?) onde o olilas tinha saído com os ‘burbúris’ que tinha no bolso (seguramente um outro episódio)

    abracão, aguardando o próximo

  3. Garandi bu na matano cu garassa, nô terra sabi ba na kil tempo.
    Caro Galvas as histórias são emocionantes, nessa altura vocês viviam num paraíso terrestre. Será que a nossa Guiné voltará à ser aquela terra di ermondadi,brincadera,partidas di mandjuas etc. Obrigado por tudo e seja abençoado por Deus nosso Senhor.

    1. Revivi um pouco as matreirices que se faziam naqueles tempos, embora ainda muito novo, ainda tive o previlégio de participar em algumas delas. Prezo por dizer que nada era feito com intuito de maldade na maioria dos casos, mas sim uma ânsia de adrenalina digámos assim. As pessoas eram mais puras, mais amigas, menos interesseiras. Belos tempos. Obrigado João pelo convívio, pela leitura e recordações que nos proporcionas. Ávidamente espero pelo próximo capítulo. Abraço grande e desejos de um Feliz Natal para ti e teus.

  4. Parabéns, meu caro João por mais este belo capitulo de um mito do Liceu Honório Barreto, o teu colega e amigo Olilas!
    Conseguiste, mais uma vez, segurar o leitor e despertar-lhe o interesse pelo desfecho que, pelo menos para mim, eh totalmente inesperado.
    Continua!
    Grande abraço

    1. Antes de muitos contemporâneos do Olilas pensarem sobre o que significava a cidadania nos seus verdes anos, já o objecto desta homenagem do João Galvão vivia, a seu modo, como cidadão do mundo. Eu não o conheci nessa altura porque era aluno do Curso Nocturno que tinha como docentes Major Rebelo de Carvalho a matemática, um farmacêutico da Farmácia Higiene a Física e Química, a senhora de um Oficial a Mineralogia, estudava história, francês, inglês em casa e tive como explicador já próximo do exame Anselmo Mariano e Zeferino Macedo. Vim a trabalhar nesse ano de 1958 na Western Geophisical Company, provávelmente com algum dos americanos que compraram o palmídeo ao Olilas.. Até hoje recordo com saudades nossos encontros em Lisboa, nossas confraternizações em locais escolhidos a partir da Praça da Figueira. Obrigado João por trazeres à nossa lembrança o grande Olilas, personagem de muitas histórias, um jovem que sempre viveu com um desprendimento muito característico, detentor de um coração maior do que ele. Julgo que ele foi feliz e elevo uma prece em seu favor pelo descanso eterno no paraíso.

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