Domingos ‘Angola’, Chico ‘Búnda Bránkú’ e outros…

Através do primeiro episódio do ano, um capítulo genuínamente Tatitataia, formulo a todas e a todos os utentes deste nosso blog, sinceros votos dum 2013 pleno de boas realizações na vossa vida privada e profissional, com saúde e Paz. Este capítulo pretende muito carinhosamente trazer à memória figuras mentalmente debilitadas do passado e da nossa capital Bissau. De lamentar, que essas figuras eram como eram por não terem sido poupadas pelas agruras da vida.

Começarei por  Nhú Pâpâi. Um homem sorridente e de palavras mansas. Celebrizou-se em contos de cenas em recintos de baile. Gabava ter sido excelente dançarino e terrível sedutor. Nha kôlégas, é tâ finúbâ mi. Tinham-me uma inveja que só Deus sabe…N’tâ kânsába élîss MAL na sala de badjú. Nos bailes, fazia-lhes vida dura. Se n’púibâ údjú num dáma, dîmi tóke sól mânci, kâ tem nim nóss. Útrúss tâ fikábâ kúntángú té fim de badjú.  Âmôntôns ke bâli. É kâtâ ôssâ tira dáma!  Pâpâi se ‘via’ um verdadeiro DANDY. Irresistível galã!

Havendo plateia, Pâpâi jamais se furtava a uns passitos de dança, cantando. B’ôdja, N’ta pégabâ dama na  cintura n’djúndál pâm sîntil sábî na nhâ pitú. ÁÁhhh,  ÁÁhhh múndú. Nâ sála de bádjú tâm, âmî ke tâ rêina! Ááhh Pâpâi, témpú bâiii! E cantava: Milionário péga dama, dama que se veste bem; Mão na cintura, târúss târáss, baião bem, baião bai, baião bem, baião bai! Milionário péga dama, dama que se veste bem; Mão na cintura, târúss târáss, baião bem, baião bai, baião bem, baião bai! Mas o regalo era vê-lo com sublime elegância inclinar a cabeça e os ombros para um dos lados quando dizia ‘baião bem’ e de imediato para o outro lado quando dizia ‘baião bai’. Finalizava a cena com um rodopio seguido de risos e aplausos. Cativante Nhú Pâpâi!

Permitam-me o prazer de vos fazer conhecer  Búli Búnda. Figura masculina de carisma e temperamento diametralmente opostos aos de Pâpâi. Menos popular, dotado de volumosas e flácidas nádegas na origem desse recreativo pseudónimo. Búli Buda era um verdadeiro diccionário de impropérios. Kôba mal i tâ mánci kél e dîta kél! Esse autoproclamado funcionário dos Correios de então, não perdia de vista o Land Rover dos Serviços estacionado no pátio interior dos CTT. Bastava o condutor do veículo entrar na cabine, num ápice o nosso amigo acomodava-se nas traseiras do carro para qualquer deslocação ao aeroporto ou porto para recolha de malas de correio postal. Graças à sua probante assiduidade acabou por merecer uma gratificação mensal de 300 escudos. Como eram provocados e proferidos os impropérios?

O pátio interior dos CTT tinha a forma dum U invertido com a porta de recepção das malas postais situada bem ao centro da base invertida desse U, próximo da qual ficava estacionado o citado Land Rover. A Estação Postal e a Estação Telegráfica eram paralelas e ambas dispunham de janelas viradas para o interior do pátio. As provocações proferidas através dessas janelas, vinham quase sempre ou do José Gabriel Lobo de Pina ou do João Galvão Galvas, ambos funcionários  da Estação Telegráfica e do saudoso Anastácio Furtado ou do Manuel Dias da Cunha Ribeiro, vulgo Manecas ‘Cutá’, funcionários da Estação Postal. SEMPRE que qualquer funcionária dos Serviços Administrativos no 1° andar se deslocasse por motivos de serviço à Estação Postal, havia SEMPRE um dos mencionados, atento e disponível para mais uma provocação.

Bastava que ouvisse, vindas das janelas, expressões ‘chaves’, a exemplo: Djúbi si máma de búnda; I kâ fémia mé?! Éhh Déus!; Gája stâ bôa; Ai que dôr; ou qualquer outra, qual reflexo de Pavlov, a reacção era instintiva, imediata e sonora: Máma de búnda de bú mámé; Âmi i fémia ke tâ dîtâ bú mámé; Éhh Déus i óbú de bú pápé; Bú mámé má stâ bôa; Dúr na kúnu de bú mámé….Esses e outros insultos de semelhante gabari eram pronunciados em audíveis decibéis fazendo as tais funcionárias fugir, dada a virulência dos impropérios. E quando se preparava para partir no Land Rover provocávamos novamente: Âlâ câtibú nâ n’barkâ máss, ao que respondia de imediato: N’nâ n’barkâ máss na rabáda de bú mámé, Blúfú de mérda. Assim era Búli Búnda!

Eis a vez de Chico Búnda Bránkú. Esse indivíduo de tez clara cujo sorriso denunciava uma dentadura em péssimo estado de conservação e um quanto desagradável à vista, fez-se conhecido pela facilidade com que mexia uma ou outra das suas enormes e anémicas orelhas ou ambas simultâneamente quando se lhe pedia. Para além dessa capacidade artística, o nosso Chico mostrava-se particularmente orgulhoso das suas nádegas, segundo ele isentas de melanina, que justificavam esse pseudónimo, a meu ver, pouco gratificante. Dizia: Nhâ búnda bránkú bránkú bránkú, Bránkú fândâm. Bránkú tóke bránkú kâbâ. Ééhhh, Má nhâ pápé i tuga!

Na qualidade dum inveterado pedinte, frequentava locais como os Correios, o Mercado Municipal , o cais de Pidjiguiti, a pastelaria Império, enfim onde houvesse concentração de pessoas. Ora foi no Edifício dos Correios, para ser mais preciso no espaço para atendimento público da estação Radiotelegráfica que o nosso Chico Búnda Bránkú teve uma atitude que poderia levar-me a um processo disciplinar, não fosse a solidariedade do meu colega Lobo de Pina.

Aos balcões da referida Estação havia sempre umas dezenas de militares, alferes, tenentes, capitães, majores e outros para enviarem telegramas ou fazerem telefonemas para as respectivas famílias em Portugal. Numa das minhas ‘viagens’ para recolha de telegramas a serem enviados, ao ver o nosso amigo veio-me a brilhante ideia de fazer ‘uma das minhas’. Livre de qualquer olhar suspeito chamei-o discretamente ao extremo do balcão e disse-lhe: Chico, b’ôdjâ é guîntiss que firma li é kâ fia kúma bú búnda i bránkú! Atónito retorquiu, Kééhhh?! Para ‘embelezar’ o meu plano disse-lhe: Pérâm n’bâi bú mostra éliss bú bunda pâ tira éliss na sé muntrússn’dádi. Fiânça na mi. N’tâ bîm dáú dúss péss i meio. E com a mesma discrição abandonei o recinto.

Assim que deixei o balcão da ‘taxação’ o nosso Búnda Bránkú, como lhe era hábito, prestou-se a um verdadeiro show de striptease. Baixou as calças e exibiu despudoradamente as sua magras nádegas a todos os presentes no citado recinto. Os polícias que asseguravam a protecção do edifício agiram imediatamente e levaram o nosso artista. Ao ser irradiado pediu que o deixassem recuperar os ‘dois escudos e cinquenta centavos’ que lhe foram prometidos em compensação dos seus ‘bons serviços’. Graças ao meu amigo e colega Lobo de Pina que convenceu os polícias a não fazerem caso das insinuações dum ‘desiquilibrado mental’ pude livrar-me de sérias consequências. Mais tarde, a funcionária que estava de serviço à ‘taxação’ e que óbviamente assistiu a teatral cena de ‘striptease’, manifestou-se com ‘ar de poucos amigos’: João, tu, tenho a certeza de que foste tu o responsável por essa cena. Claro que a minha resposta foi peremptória: EEEuuuuuuu?! Veja bem se está segura do que afirma? E assim ficamos falados! Passado o susto, cheguei à conclusão de que João Galvão precisava de mais algum tempo para esquecer a vida de estudante, se conformar e assumir com mais rigôr o novo estatuto de funcionário público. Mais uma do vosso Galvas!

Domingos ‘Angola’! João Tavares Lucas Gomes Monteiro, ‘Todo inteiro’, assim se autoproclamava. Sem sombra de dúvida o mais popular de todas as figuras mencionadas neste capítulo, sem que saiba esclarecer a origem do pseudónimo ‘Angola’. As memórias do seu passado enquanto contínuo da Comissão Municipal de Bolama nas décadas de 40-50 do século transacto acompanharam-no até o fim dos seus dias. Nos seus incontáveis e inflamados discursos na pastelaria Império vangloriava-se de ter possuído nos seus tempos áureos um guarda-roupa recheado de fatos em casimira e outros tantos ‘muáss’, fatos brancos do tipo colonial. Entusiasmava a sua plateia dizendo: Eu, Domingos ‘Angola’, quando era funcionário em Bolama tinha tantos fatos que para escolher fazia; N’Dúlé N’Dúlé, N’Dúlé Papá; Papá Cê, Cê Iúnkô; Iúnkô kôli, Koli Iáiá; Iáiá Mâté, Mâté Lúntân! Ááhhh Múndú! Ora ke n’bistiba nha fato n’sâi, guintiss ta falâmbâ: Bom dia Nhú Dimingú. Aóss ke nhú má néga lébssimenti. Nhú fakúlta déé! É na bim finú nhú! Dizia-nos para colmatar: Aaii, bô dibdi kúnssibâ Domingos ‘Angola’ de kî témpús, Ai Mâmã! Deviam ter conhecido o Domingos ‘Angola’ doutros tempos…

Não posso mencionar Domingos ‘Angola’ sem falar do seu principal adversário ou rival das frequentes confrontações verbais que faziam o nosso regalo à volta das mesas da esplanada da pastelaria Império. Esse não menos famoso adversário era conhecido por Pedro ‘Cadjábra’ o jardineiro da Câmara Municipal de Bissau que se ocupava dos jardins do palácio e da então Praça do Império. Nunca soubemos o significado do refrão que o nosso amigo Cadjábra nos ‘recitava’ quando trazia o seu ‘grão na asa’, Óra ki môdjâ bókâ.  Amî Pîdrú Cajááhhh…Matava enterrravas, Médico perguntava, Repondêvas. Assim ke dîmi kâbâ! Sempre que nos visse, repetia o mesmo refrão cujo significado é, ainda hoje, do domínio dos Deuses. Normalmente os duelos entre os dois insubstituíveis comediantes, algumas vezes acompanhados de ameaças nunca cumpridas…, tinham lugar ao fim da tarde quando já bem ‘molhados’ vinham ‘vender’ os seus talentos no intuito de ganharem mais uns copitos dos seus mais fiéis admiradores.

‘Angola’ apreciava particularmente os domingos por coíncidir com o desfile militar acompanhado de fanfarra musical desde o Quartel da Amura ao Palácio do Governo na ex-Praça do Império. Devido a esse evento, a esplanada da pastelaria Império regurgitava, entre as 10H00 e as 13H00, de soldados, cabos, furriéis, sargentos e alguns oficiais que vinham assistir ao desfile. Raramente faltava a esse evento dominical pois sabia que os seus patrióticos e inflamados discursos eram copiosamente compensados pelas ‘rodadas’ pagas pelos militares presentes nas mesas da esplanada Império. Ao longo da parada o nosso amigo gritava repetindo a plenos pulmões: Olhem como marcham garbosos os defensores da nossa Querida Pátria, Ai mamã! Finda a cerimónia, qual libelinha em folhas de nenúfar, o nosso ‘Angola’ percorria as mesas onde ia engorgitando tudo quanto os  militares embevecidos com os discursos lhe ofereciam. Cerveja, vinho, aguardente, breve TUDO. É óbvio que o nosso amigo por volta das 13H00 e com o sol a pique, se tornava ‘impróprio para consumo’, mais bêbedo que qualquer perú na véspera de Natal…

Fazer-vos recordar todo o arsenal literário e artistico de Domingos ‘Angola’, muito mais teria que escrever. Muito, muito mesmo fica por dizer pois ele possuía uma série inesgotável de estórias para todos os gostos e paladares. Antes de vos fazer saborear uma das mencionadas confrontações verbais entre ‘Angola’ e ‘Cadjábra’, eis mais uma das suas declamações públicas, talvez a mais plebiscitada pelos seus fervorosos admiradores: Nas altas montanhas de Bandim ouviu-se uma rotação de tiros. O Homem morreu mas não morreu. Foi ferido por uma azagaia de guerra que nós, filhos da Guiné, chamamos ‘Kanhákú’, eheheheheheh, ai mãmã! ‘Angola’ no seu esplendor!

Normalmente a ‘plateia’ da pastelaria Império desempenhava a dupla função de ‘Tchútchir’, espicaçar os dois adversários para que pusessem à prova seus enormes talentos de comediantes e simultâneamente permitir saborear essas confrontações plenas de humor popular e bem guineeense. As disputas procuravam retratar o que um pensava do outro com base em parâmetros sociais ‘inexistentes’. Enquadrado nesse objectivo ‘Angola’ dizia: É môss i kôitádú, kâ bó kúdil. Não façam caso desse ‘pobre desgraçado’. Má n’fâlâ, abó ‘Cadjábra’, kúmâ ke bú tâ pâgádú na fim de mîss?! Bú kâ têm fôdja, bú tâ rênkúa pâ bú pâgádú, kôitádú! Âmi n’tâ dádúba nhâ títúlú de vencimenti, Ai mamã! Eu ‘tinha’ um título de vencimento. E acrescentava: Bô djúbi kúmâ ki fúngúli. Kôpôti ki bú târbádjú, nîm timbâ kâ máss bô, sâi hômi, bâi lâ! Âlgúm dia bú tchigâ de kúnssî kânéta?! Tóróssâ! Koitádú ke tâ mancircâ bînhú. ‘Cadjábra’ rindo perdidamente replicava: Éss i múntrúss garándi, i tâ rôga biánda. Nîm mîndjêr i kâ tôpi!

Que dois! Domingos ‘Angola’, Pedro ‘Cadjabra’. Marcaram uma época.

Tatitataia é tudo isto. Aguardem pelos próximos episódios. Bem hajam!

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5 thoughts on “Domingos ‘Angola’, Chico ‘Búnda Bránkú’ e outros…

  1. Meu irmão colaço, John Galvas, estas estórias deliciosas que nos devolvem personagens incríveis como os que acabas de divulgar neste salutar espaço de convivio que é o TATITATAIA, são produto de uma época em que a felicidade se resumia a coisas simples e atrevo-me a dizer uma época em que a vaidade, a presunção e a ostentação faziam parte de um outro imaginário. Todos nós, mesmo sabendo a sub-condição humana para que estes ícones dos nossos tempos de juventude eram atirados, soubémos acarinhá-los na justa medida em que essa nossa juventude era portadora de enorme espírito de solidariedade e generosidade, não cabendo nestas quaisquer resquícios de preconceitos, qualquer complexo de superioridade intelectual, económica ou social. Bem hajas, por trazeres esses tempos e essas personagens ao nosso convívio actual, com a precisão e a inteligência que eu te reconheço. Grande abraço, votos de saúde e prosperidades em 2013. Tavares Moreira

    1. Uma autêntica crónica da nossa infância e juventude em Bissau! e a saudade que vem com o tatitataia.. Como me rio aqui, longe no tempo e no espaço da Bissau de sempre e para sempre..
      Abraço a todos dessa época que deixou tantas marcas, Dulce

  2. Alguém desse tempo pode olvidar essas figuras inesquecíveis? Penso que não. E e o Capitão-Mor da marotice a trazer-nos essas lembranças. Obrigado. Cá ficamos a espera de mais estórias que só tu sabes reproduzir com o teu espírito apimentado.
    Anne-Marie

  3. Ah,ah, ah!
    E viva Galvas, Nhú Pâpâi., Chico ‘Búnda Bránkú’, Pedro ‘Cadjábra’ e Domingos ‘Angola’.
    Histórias retratadas com muita elegância, repletas de humor e interessantemente estimulantes para este domingo chuvoso de Lisboa.
    Um outro feito do TATITATAIA tem sido permitir a outras gerações de Bissau, com episódios soberbamente retratados, ler os comentários dos que viveram esses tempos da capital e, através das graciosas historietas, identificar os lugares comuns e sonhos adiados.
    Obrigado pelo trabalho ímpar.

  4. Como sempre, a forma como nos fazes recordar essas pesssoas, que de uma meneira ou de outra deixaram as suas marcas nas nossas vivências enquanto personagens de um tempo com toda a sua saudade, faz de nós uns privilegiados, agradecidos e na expetativa de mais.
    Um abração Galvas.

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