Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto IV

Quanto à sociedade civil, o Poder despoletou uma virulenta pressão psicológica sobre todos quantos beneficiando dum estatuto sócio-cultural que lhes conferia alguma visibilidade no seio das populações dos centros urbanos e não só, pudessem de algum modo ofuscar o brilho e o protagonismo pretendidos pelos ‘artesãos’ do novo Poder. Uma bem elaborada estratégia de ‘demolição de Egos’!

O PAIGC e o Governo fizeram da prisão de Brá a sua mais importante ‘arrecadação’. Nela se deu guarida umas poucas centenas de cidadãos, como hábito, condenados sem jamais terem sido submetidos a qualquer tipo de julgamento. Uma absurdidade. E ainda pior! Ao fim de meses e anos de detenção arbitrária, eram libertos sem direito a qualquer explicação e muito menos a indemnizações pelos danos causados no plano: físico, moral e económico. Sem quaisquer traços de pudor, era-lhes dito: Estão livres. O PAIGC decidiu perdoar-vos. Sem mais….

A grande maioria das pessoas detidas constituía uma excelente amostragem da pejorativamente denominada ‘pequena burguesia urbana’. Oportuno também se fazer saber que na mesma altura foi reactivada a prisão de Carache, na Região Bolama-Bijagós, ‘especializada’ em prisioneiros de delito comum. Essas medidas draconianas foram gradual e  inquestionavelmente, distanciando e esbatendo as esperanças numa política de Paz e Concórdia Nacional tão necessária, quanto imprescindível para um consistente e durável desenvolvimento sócio-económico do País.

Por ‘Dever de Memória’, Tatitataia conseguiu recolher  informações em fontes dignas de crédito e elaborar uma lista não exaustiva dos muitos que foram, por razões que a ‘razão’ desconhece, abusivamente privados de liberdade. Mas o que importa frisar e tornar público em largas parangonas, é que essa tenebrosa estratégia de ‘institucionalização’ da sujeição com particular incidência sobre as populações dos centros urbanos, foi orquestrada por aqueles que enfrentaram a violência de uma Luta armada na esperança de poderem elevar um dia, quando livres e independentes, o estandarte da LIBERDADE. Paradoxal!

Condenados sem culpa formada e detidos sem jamais terem sido julgados, o que constitui uma aberrante violação dos mais elementares valores e princípios da jurisprudência, em todas as suas vertentes.

Permitam-nos mencionar alguns indivíduos que foram presos e sujeitos á mórbida intolerância dum Poder discricionário e manifestar o nosso mais profundo respeito pelos que entre os citados nos deixaram para sempre, e alguns muito prematuramente: Dr. Manuel Gardette Correia, António Carvalho, Fernando (Lima) Voss Wahnon, Pascoal D’Artagnan Aurigema, Joaquim Tavares Moreira, Claudio Daniel Mendes da Silva, Francisco (Chico) Correia,  Marcelino (Tchótchó) Delgado, Helder (Dédé) Delgado, Zinha Vaz, Olívio Mendes, António Lacerda, Paulo Barros, Alexandre Miranda, António Augusto Oliveira (Tony) Marques, Aquilino Medina, Miguel Bichara, Ninaber, Manuel (Manecas) Brito e Silva, Cécil Miranda, José Manuel Miranda, Paulo Cardoso, José Carlos (Zeca) Alves, Fernando Parente, Rui Fachina, Zeca Fachina, Rui Brito e Silva, Francisco ‘Yamaha’, Sabá Kalil, Infamará Mané e os muitos, muitos mais, que a memória não guardou registo.

Mas impôe-se diferenciar as causas ou as motivações que engenharam essas detenções.

Para uma grande maioria dos citados, a única causa plausível desses encarceramentos arbitrários repousa na total, descomplexada e desinibida indiferença com a qual esses indivíduos ‘presenteavam’ o novo Poder. Referimo-nos a pessoas que continuaram praticando a actividade profissional que sempre exerceram mantendo-se completamente alheias e á distância de tudo quanto envolvesse política. Viviam indiferentes à radical mudança ocorrida no País.

No entanto, é importante salientar que essa ‘classe’ de detidos não fazia parte das verdadeiras preocupações do núcleo duro dos Serviços de Segurança do Estado. No fundo, essas detenções constituíram um ‘presente’, um ‘bonus’ concedido  por esse núcleo, como forma de reconhecimento pelos prestimosos serviços diligentemente prestados pela mencionada escumalha social travestida em revolucionários ‘de ocasião’, vulgo ‘bufos’, exímios e inveterados delatores de gente inocente.

Essa escória social orbitando o Poder, prestava-se a engendrar sempre que a ela se recorresse, uma variada gama de acusações artesanais de que uma segurança de Estado tanto necessita, sobretudo em regimes dictatoriais. E muitos, senão a maioria, foram detidos a coberto dessas acusações artesanais fabricadas por essa escória de delatores.

Uma segunda categoria era constituída por indivíduos reconhecidos pelas suas competências disfrutando de um nível de vida compatível com as suas responsabilidades profissionais. Esses indivíduos deixavam transparecer uma manifesta  renitência em aceitar qualquer tipo de sujeição ou subserviência ao Poder político. Uma posição que evidentemente não era do agrado dos novos senhores do Poder. Podemos citar como exemplo para essa categoria alguns quadros dos serviços aduaneiros, do Banco Nacional e alguns pequenos comerciantes. Essa recusa em prestar visível subserviência foi seguramente o ‘móbil’ que os levou ao encarceramento. A gota de água que fez transbordar o copo… 

Mas as duas categorias acima mencionadas não constituíam de modo nenhum o cerne das preocupações da verdadeira ‘intelligentsia’ do Poder pois não reuniam condições para se afirmarem  como opositores e tampouco davam sinais de qualquer ambição política.

Identificamos uma terceira categoria, bem mais restricta, formada pela primeira dúzia dos mencionados, com particular relevo para os três primeiros: Dr. Gardette Correia, Fernando (Lima) Voss Wahnon e António de Carvalho,  guardando o devido respeito pelos restantes. Esses três, pelas suas capacidades de liderança eram capazes, se eventualmente interessados, de mobilizar seguidores e apoiantes, tanto no plano interno quanto externo. Porém, nunca e ninguém desse reduzido grupo esteve comprovadamente envolvido em qualquer tentativa de desestabilização de que foram acusados. A notoriedade desses indivíduos era extremamente mal acolhida pelo Poder.

Essa primeira dúzia e bem pouco mais, encarna os que observando o ‘desenrolar dos acontecimentos’ também se sabiam cuidadosamente observados. Por disporem de reconhecida aceitação e respeitabilidade na capital e nos principais centros urbanos, dotados de um mais refinado sentido crítico e finalmente por se terem refugiado num silêncio absolutamente ‘ensurdecedor’ aos ouvidos dos novos patrões, acabaram por se tornar, por todas essas extremamente incomodativas e ‘preocupantes’ razões, vítimas duma intensa e obstinada animosidade da parte do Poder.

Difícil pronunciar quanto ao grau de violência física e psicológica ‘medicada’ a cada um dos citados reclusos. Porém, o nome do empresário Fernando (Lima) Voss Wahnon circulou por todo Bissau como sendo uma das vítimas que suportou o tratamento mais desumano sob o ponto de vista da violência física utilizada pelos agentes da Segurança de Estado durante os interrogatórios.

Consta que o médico Dr. Gardette, sentiu-se na obrigação de alertar os responsáveis pelas torturas de que a continuarem essa ‘medicação’ de violência sobre o detido Wahnon, o mesmo não tardaria a sucumbir. Esse detido foi periódicamente pendurado pelos pés e sujeito a brutais espancamentos a ponto de sangrar pela boca e pelo nariz. Esse Senhor, falecido há bem poucas semanas em Portugal, foi na altura alvo de larga admiração pela sua inquebrantável firmeza estóicamente demonstrada do primeiro ao último dia de detenção. Paz à sua alma!

Tudo indica que esses agentes especializados em tortura  foram psicológicamente ‘formatados’ para agirem em conformidade com esses procedimentos. A República Checa formou excelentes quadros nesses domínios…

Constituíria uma imperdoável lacuna no escopo da presente narrativa não mencionar os agentes da Função Pública na sua globalidade e a sua classe de enfermagem em particular.

Esses dedicados profissionais  souberam capitalizar através das suas reconhecidas competências no exercício das suas funções, um enorme prestígio popular nomeadamente em Bissau e nos principais centros urbanos do interior do País. Esse prestígio muito mal tolerado e uma manifesta resistência à vassalagem política, fizeram da Função Pública a primeira classe social urbana a entrar em aberto conflito de interesses com o Poder.

Essa confrontação  encontrou raízes em duas inflexíveis posições: A primeira pela recusa em aceitar transferir para o País o montante das suas reformas adquiridas pelo tempo de serviço prestado à Função Pública portuguesa; a segunda por terem igualmente recusado, com maior incidência na classe de enfermagem, a paridade de categorias com os seus homólogos  formados durante a Luta armada se considerada a abismal diferença entre os dois grupos, em termos de competência e experiência professionais.

Como resultado desse recorrente clima de guerra conduzido pelo famoso programa de rádio baptizado de ‘Kôrda sîntido’ no qual os convidados eram vergonhosamente ridicularizados e ainda nos habituais comícios públicos de onde provinham insultos do género de ‘catchúres de dúss pé’, ‘catchúres de túga’ e outros do mesmo calibre os  quais toda a gente sabia a quem eram dirigidos, a quási totalidade desses profissionais envolvidos nessas confrontações por se sentirem profundamente decepcionados, chocados com essas ofensas e sobretudo receosos pelo futuro, resolveu emigrar para Portugal onde, porque de reconhecida e comprovada competência, foram fácilmente integrados nos efectivos da Função Pública portuguesa.

Uma vez mais o dito ‘Homem Novo’, pela sua obstinação em impor a sujeição e o medo às populações e pela sua total incapacidade em desenvolver uma política conducente a mobilizar as forças produtivas do País, privou a Guiné-Bissau de beneficiar da competência e dedicação profissional dos seus próprios filhos sobretudo num período em que esses atributos não deveriam ser negligenciados. Como norma entre esses tribunos, o bom-senso não conseguiu impor-se!

Tatitataia tem mais a dizer-vos. Saibam ser pacientes!

 

 

 

 

 

 

 

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Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto III

A coberto das mais inverosímeis acusações: Conluio com as forças reaccionárias, suspeitas de corrupção, tentativa de desestabilização política, intentonas e outras, o Poder abriu as portas das suas prisões e fez jus de todo o seu arsenal de violência.

As primeiras vítimas do meticuloso processo de intimidação mencionado na anterior narrativa, foram os militares e os paramilitares guineenses que combateram ao lado dos portugueses, e muito em particular os chamados Comandos Africanos cujo primeiro batalhão foi formado em 1969 na cidade de Bafatá. De Setembro a finais de 1974 muitos deles foram ainda vistos circular livremente em Bissau e presentes em suas residências de onde eram vistos sair. Porém ao longo do ano de 1975 muitos desses, pelo menos os mais conhecidos na capital, se tornaram gradualmente menos visíveis. Por conta dos rumores veiculados pela ‘Rádio Tabanca’ especializada em fazer circular, com cautela e ao abrigo de ‘ouvidos suspeitos’, os mais discretos acontecimentos ocorridos na capital, se foi sabendo que o ajuste de contas do Poder com essa classe de militares tomava inquietante proporções através de prisões arbitrárias efectuadas pela calada e a coberto do crepúsculo da noite. Esse eficiente método de comunicação foi permitindo a divulgação dos nomes dos que iam sendo levados para uma ‘viagem sem regresso’.

Sem a veleidade de pretender isentar, e muito menos ilibar esses militares das responsabilidades que se lhes pudessem ser atribuídas sobre eventuais crimes cometidos contra populações indefesas durante os últimos anos de confrontação armada, não se pode entretanto deixar de responsabilizar o PAIGC e o Governo de então pelo facto de não terem procurado averiguar e definir os diferentes graus de responsabilidade e julgar esses militares em função do envolvimento de cada um nos crimes repertoriados. Acabaram todos por serem medidos pela mesma bitola: dos simples milícias, passando pelos soldados e finalizando nos sargentos e oficiais de diferentes patentes. Todos pagaram o mesmo preço, sem que tivessem sido julgados. A condenação é a conclusão, a decisão final baseada num julgamento. Precede o julgamento. Não pode antecedê-lo. Condenar sem julgar é uma incongruência. Constitui um flagrante atentado aos preceitos da  jurisprudência.

A República da Guiné-Bissau foi reconhecida a 17 de Setembro de 1974 pela Organização das Nações Unidas (O.N.U.) como Estado Membro de pleno direito. Na mesma data e enquanto Estado Membro fez-se signatária da Declaração Universal dos Direitos Humanos (D.U.D.H.) adoptada e proclamada pela Resolução 217A(III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10.12.1948. Essa pronta adesão à Declaração Universal dos Direitos Humanos estaria, a priori, consentânea com os nobres desígnios da Luta Armada de Independência Nacional.  No entanto, torna-se evidente que esses métodos de intimidação preconizados e postos em prática pelo PAIGC  através da sua desmedida e descomplexada violência eram, e ainda são, radicalmente contrários aos fundamentos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Face a essa constatação, não resta senão reconhecer que esses actos discricionários constituiram na altura e ainda hoje constituem, flagrante violação de vários artigos da D.U.D.H. com especial incidência dos seguintes: Artigo V, Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante.; Artigo IX, Ninguém será arbitráriamente preso, detido ou exilado.; Artigo X, Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele. 

É óbvio que o teor da Declaração Universal dos Direitos Humanos era, no contexto do imediato pós Guerra de Independência,  dificilmente assimilável diríamos ‘intragável’ para o PAIGC um Partido cujos militares, militantes e dirigentes enfrentaram as agruras, a dureza e as vicissitudes de mais de uma dúzia de anos de guerra. A violência impregnada na memória desses combatentes não permitiu que fossem respeitados os preceitos dessa Declaração Universal.

Entretanto, o número estimado de vítimas efectuadas no seio dos Comandos Africanos é impressionante. Avulta-se em alguns milhares. Eis os nomes de alguns dos mais graduados, aos quais o ‘Homem Novo’ recusou o direito de se inserirem na nova sociedade guineense: Adremane Sisseko, Justo Nascimento Lopes, Zacarias Saegh, Armando Carolino Barbosa, Tomás Camará, Anastácio (Didi) Ferreira, Cicre Marques Vieira, Abdulai Queta Jamanca, Marcelino Moreira, Marcelino Pereira. A esse impressionante número de vítimas se adicionam, por terem merecido idêntica sorte, umas largas dezenas de membros da extinta A.N.P., Acção Nacional Popular, um dos ‘instrumentos’ políticos do General Spínola no quadro da sua ‘Guiné Melhor’. Com umas largas dezenas de omissos, ficam os nomes de Aubiara Sambú, ex-Presidente da Comissão Feminina e Cesário Alvarenga, um influente membro do Secretariado. A incapacidade ou a relutância em promover a Concórdia Nacional sempre foi um verdadeiro ‘calcanhar de Aquiles’ para o PAIGC!

Não se contentando com esse impressionante número de vítimas, a máquina demolidora do PAIGC ainda pôde enriquecer a sua tenebrosa estatística com a vida de Baticam Ferreira, uma conhecida e respeitada figura dentre as autoridades tradicionais de então e as duma infinidade de funcionários dos serviços administrativos denominados ‘cipaios’. FORAM TODOS FUZILADOS SEM JAMAIS TEREM SIDO JULGADOS.

Jazem algures. Alguns palmos sob a terra que os viu nascer! 

Diz-se que, “A grandeza de um Homem define-se pela sua capacidade de se reconciliar com o inimigo”. Impunha-se uma apaziguada mas firme e determinante política de ‘reconciliação nacional’ entre os guineenses feitos inimigos durante a guerra devido a opostas e radicais opções políticas por uns e por outros assumidas. Esse ideal ou objectivo poderia ter sido realizado se tivesse havido pela parte do PAIGC, que detinha o Poder total e incondicional, vontade e maturidade política para conduzir esse importante processo. Ao recusar peremptoriamente a via da ‘Concórdia Nacional’, o PAIGC perdeu uma oportunidade ímpar de se afirmar pela via mais elevada, pela magnanimidade. Porém e lamentavelmente, os nobres ideais só encontram adeptos na côrte dos grandes: Ghandi, Mandela, Luther King e bem poucos mais….

Esse património de endógena e permanente violência tem  substancialmente fragilizado a solidez dos alicerces da Nação Bissau-guineense. O aguerrido PAIGC da época colonial que chegou a ser depositário das mais modestas esperanças de todo um Povo, metamorfoseou-se no pós independência em algo surrealista, indefinível, draconiano. Para quando uma profunda catarse e o acto de contrição do PAIGC? Quanto tempo será necessário para que esses horrores se dissipem da memória colectiva de um povo? Para quando um Secretário-Geral do PAIGC com coragem e hombridade suficientes para reconhecer esses crimes infligidos ao Povo da Guiné-Bissau e pedir em nome do PAIGC, publicamente e sem titubeações: PERDÃO!

A próxima narrativa empenhar-se-á em fazer-vos conhecer as medidas coercivas ‘medicadas’ à sociedade civil. Sejam pacientes!

Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto II

São poucos os cidadãos das ex-colónias portuguesas que não ‘vitoriaram’ os Movimentos de Libertação Nacional desses Países em emergência. Foram momentos de intenso fervor patriótico. Inolvidáveis!

Comemorava-se o primeiro aniversário natalício, após a Independência Nacional, do líder supremo da Luta. No princípio da tarde dessa quinta-feira 12 de Setembro de 1974, dois dias após o reconhecimento ‘de jure’ da jovem República da Guiné-Bissau por parte do Governo Provisório português nascido da Revolução dos Cravos a 25 de Abril de 1974 a população de Bissau, possuída de transbordante entusiasmo, aglomerou-se na ex-Praça do Império prontamente convertida em Praça dos Heróis Nacionais para prestarem uma vibrante e calorosa homenagem aos mais altos dignitários do PAIGC: Aristides Pereira, Luis Cabral, Comandante Francisco Mendes (Chico Té) e Comandante João Bernardo Vieira (Nino) que assumiam a responsabilidade da Comissão Permanente do Conselho Executivo de Luta, a então instância máxima da hierarquia do PAIGC.

Uma enorme e ruidosa massa heterogénea cobrindo um largo espectro societário — adolescentes, adultos e idosos, mulheres e homens, ex-militares guineenses atempadamente desarmados e pessoas de todas as outras profissões — num clima de intensa euforia popular quiseram TODOS servir-se do momento para demonstrarem sincero e inequívoco reconhecimento aos novos heróis que aos olhos da população e, quiçá, do mundo inteiro, se tinham batido pela causa da Liberdade, da Paz e do Progresso. Um reconhecimento a roçar os limites da deíficação. Estava instalado o poder revolucionário na Guiné e potenciadas as esperanças de uma vida melhor para todos: mais liberdade, mais solidariedade, mais paz e mais desenvolvimento consubstanciado em, entre outros, mais educação, mais saúde, mais justiça social, mais qualidade de vida.

Porém, não tardou muito para que a nova administração se revelasse incapaz e incompetente para gerir o país assumindo em contrapartida, como meio de escamotear, ou mesmo esconder, as suas limitações e insuficiências, uma estratégia repressiva e intimidatória que bem conhecia e dominava. A pouco e pouco o véu se rasgava e a máscara caía pondo em evidência as ‘avisadas’ palavras do Encontro de Ensalmá das quais se fizera letra morta. A. Cabral disse: “A nossa Independência termina em Ensalmá. Ela vai ser entregue à gente que virá ao nosso encontro para a assumir. Essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior que é compôr a terra, tarefa maior e mais complicada”.

Entretanto, esse clima de euforia foi-se paulatinamente esvanecendo acabando por se extinguir completamente ao longo do tempo á medida que a população ia descobrindo e enfrentando o acerbo autoritarismo, a arrogância e a petulância dos novos senhores do Poder.

Na realidade esse enorme, inesgotável capital de energia e entusiasmo populares, á partida gratuitamente disponível, foi mais ignorado que realmente desperdiçado. Efectivamente o Novo Poder, uma vez instalado, protelou ‘sine die’ qualquer iniciativa susceptível de promover a Reconciliação Nacional, uma decisão política que por ansiosamente esperada e profundamente desejada, traria seguramente inquestionáveis e incomensuráveis benefícios ao País. ‘A Contrario’ deu-se, de imediato e com transparente perseverança, uma tenebrosa prioridade a um longo e faseado processo de intimidação de massa escrupulosa e minuciosamente  programado.

Esse meticuloso projecto visou simultaneamente promover, por um lado, a ‘Afirmação do Poder’ e por outro, a ‘Reconversão  Ideológica’ das populações que até então não tinham estado sob a ‘alçada’ da autoridade do PAIGC, autoproclamado ‘Força, Luz e Guia’!

O primeiro representante oficial do PAIGC a ser recebido em Bissau pelas autoridades portuguesas apenas algumas semanas depois do 25 de Abril de 1974 foi o Comandante Juvêncio Gomes, Membro do Conselho Superior de Luta do PAIGC.

Da data do seu acolhimento ao reconhecimento ‘de jure’ da República da Guiné-Bissau a 10.09.1974, a capital Bissau e a sua população testemunharam o ‘surgimento’ de alguns grupelhos formados por jovens citadinos travestidos em revolucionários ‘de ocasião’ que se autoproclamaram militantes ‘provenientes’ de uma célula do PAIGC dita ‘Zona Zero’  e em  clandestinidade nos centros urbanos. De salientar que a coberto dessa pretensa célula  um grande número de oportunistas se autoproclamou militante do PAIGC. Esses grupelhos não mandatados mas tolerados e cinicamente suportados pelo PAIGC que subrepticiamente lhes dava total cobertura e lhes ‘agradecia’ o trabalho sujo, desencadearam uma organizada intimidação da população civil que ia desde ‘raptos’ de pessoas que, de motu proprio, atribuíam colaboração com a PIDE/DGS e que depois se soube terem (algumas) sido fuziladas supostamente nas chamadas ‘zonas libertadas’, passando pelos  quadros da Função Pública através de mini-comícios nos locais de trabalhos e muitas vezes seguidos de arbitrárias medidas de saneamento.

Esses desacatos acompanhados de slogans como ‘Lála kéma, káú de súkúndi kâ tém’ e de outros bem mais provocatórios, foram obviamente muito mal acolhidos pela população e muito em particular pelos funcionários públicos habituados a regras de conduta diametralmente opostas.

A partir de Setembro de 1974 o PAIGC empenha-se em se consolidar através de múltiplos comícios com os quais a população de Bissau acabou por se familiarizar. Dizia-se: Nó bá ôbi ké ké tém pâ falánú máss, o que traduzido é – Vamos ouvir o que mais teem para nos dizer. Reconheça-se que para esse género de exercício o PAIGC dispunha de excelentes oradores. Entre estes, quem não se lembra desse militante que se formara por uma escola de engenharia em Portugal, dotado dum reconhecido, ultra-sensível mimetismo político?! Ao longo do seu percurso no PAIGC, esteve em todas e com todos. É um autêntico ‘sarabafai’!

Para os menos informados, sarabafai é uma planta aquática de raiz flutuante com marcada concentração no rio Geba sobretudo nas imediações de Bafatá onde o rio é menos salgado. Essa planta ‘desloca-se’ ao sabor das marés. Iágú súbi i súbi kél, iágú ria i ria kél. Sobe com a enchente e desce com a vazante. Vai para onde é levada…

Ora esse ‘sarabafai’ feito orador  excedia-se durante os comícios nos quais procurava intimidar os presentes servindo-se de insidiosos adjectivos como palavras de ordem emitidos entusiásticamente em bem audíveis decibéis: ‘Abaixo catchúris de dúss pé’; ‘abaixo môm móli’; ‘abaixo barriga lárgú’; ‘abaixo oportunistas’; ‘abaixo catchúres de túga’; ‘abaixo inimigo de nô Partido’.

Nunca saberemos se esse ‘orador’ obedecia, se encenava ou se era ‘realmente’ fiel ao ‘seu’ Partido. Entretanto, essa  pouco conciliatória metodologia de consolidação do PAIGC nos centros urbanos tornava as populações desses centros, cada vez mais apreensivas quanto ao seu futuro bem como o do País….

Ao não se aperceber, ou não ter querido aperceber-se de que a realidade dos centros urbanos não tem as mesmas vestes que as do meio rural, o PAIGC cometeu um erro de “lesa-pátria”, que acabou por lhe ser fatal. Fatal por ter gerado o desencanto, a desmotivação e a desmobilização de muitos guineenses verdadeiramente empenhados em se sacrificarem pelo Desenvolvimento Sócio-Económico do País.

A próxima narrativa debruçar-se-á sobre o impressionante número de vítimas ‘produzidas’ pelo regime e sobre a forma drástica como  foram violentadas. Sejam pacientes!

 

 

Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto I

Com a intenção de diversificar  as crónicas do Tatitataia,  aceitem este breve interregno na sequência dos  hilariantes episódios que os seus prezados  leitores têm apreciado com particular gáudio e alguma nostalgia. Motivado por um ‘Dever de Memória’, este espaço aceitou com esta Parte I, seguida de outras a serem periodicamente publicadas,  juntar a sua voz para ajudar a desmistificar um quási inviolável ‘tabú’: o do ‘Homem Novo Forjado na Luta’.

Tatitataia está ciente da necessidade de estabelecer uma nítida e bem definida fronteira, dir-se-ia clivagem, que alerte os leitores do presente texto para a flagrante diferença que se impôe reconhecer, e fazer reconhecer, entre os que abnegadamente se empenharam  na Luta pela Independência Nacional com toda a generosidade, sacrifício de vida, e fidelidade aos princípios  de Liberdade e Progresso que sempre os nortearam e  os que fizeram dessa Luta um investimento pessoal de Poder, um meio de vingança social e um instrumento para valorização de seus estatutos na sociedade. Estes últimos não precisaram de muito  tempo para se arvorarem em ‘donos e senhores’ do País e sobretudo da capital Bissau, o mais ambicionado e precioso espólio de guerra.

Estas narrativas debruçam sobre situações vivenciadas por pessoas ou famílias de uma certa classe, média/alta,  na altura  pejorativamente denominada “pequena burguesia”. Aquando da independência da Guiné-Bissau, muitos membros dessa suposta classe resolveram abdicar da segurança e tranquilidade de uma vida europeia e regressaram à sua terra, conscientes dos sacrifícios inerentes às tarefas de uma (re)construção nacional. Acreditando no humanismo, consciência política e patriótica do propalado “Homem Novo Forjado na Luta”, esses indíviduos regressados e os há décadas radicados, quiseram também “saldar a sua dívida para com o povo”.

A política é de certa maneira, a ‘Arte de Convencer’. Porém, o PAIGC pós Independência que se instalou em Bissau não a fez para convencer, para fazer política, mas para se impôr. Impôs-se sem nunca ter procurado convencer. Entretanto, a sua Direcção ou por estratégia ideológica ou por  manifesta incapacidade nunca, em momento algum, se mostrou mínimamente interessada em moblizar as forças vivas do País para as árduas tarefas de (re)construção nacional. Obedecer foi a palavra de ordem desde o alvorecer. Obedecer. Obedecer sempre. E sobretudo, não questionar. A acção ‘musculada e intimidatória’ da autoridade exercida pelo aparelho do Estado, através duma sistemática utilização de violência gratuita e descomplexada, o Partido – modo como era tratado o PAIGC — enquanto autoproclamada e assumida força única dirigente do País gerou, sobretudo nos centros urbanos, uma nítida rejeição que se foi cristalizando, acabando por traduzir-se em ruptura. Os ainda presentes entre nós que viveram essa época, guardam indelevelmente essas marcas como autênticos ferretes na sua memória. O presente texto propôe relatar, sem divagações, as dolorosas experiências de um período sombrio de nossas vidas como seres humanos e muito triste do nosso País. O que aqui vos será dado  ler, não é ficção.  Aconteceu. É pura realidade!

A guerra pela Independência Nacional, como qualquer outra que a História guardou registo, não podia, dada a extrema violência que a mudança dum statu quo pela via das armas requer, isentar-se de acções que molestam  a sensibilidade do mais comum dos mortais. Camille Desmoulin e Georg Foster procuram justificar a inevitabilidade dessa dura realidade. Guerra é sinónimo de violência. Guerra sem Atrocidades é Utopia!

Entretanto, o escopo deste texto e dos que lhe seguirão não é o de denunciar eventuais crimes cometidos durante a Luta Armada, mas de fazer luz sobre os cometidos no pós-independência. Os cometidos em período de Paz. A opacidade das estruturas do Poder, fortalecida pela sua cumplicidade interna, não permitia determinar graus de culpabilidade pelos atropelos cometidos nesse período contra os mais elementares direitos dos cidadãos guineenses. Consequentemente, a presente narrativa não se reconhece suficientemente fundamentada para nomear os responsáveis por esses ignominiosos actos. Porém, e por Dever de Memória, serão citados alguns nomes dentre os mais vitimizados pelo Poder que assumiu Bissau depois da retirada da administração colonial.

Posto este, a meu ver, pertinente intróito, passarei a relatar em episódios como o presente, os mais flagrantes atropelos aos Direitos Humanos impune e gratuitamente cometidos em quase todos os extractos sociais Bissau-guineenses, com maior incidência sobre os de maior literacia dos centros urbanos: Funcionários públicos, pequenos e médios comerciantes, e os que por díspares razões, eram alvos de algum afecto e consideração popular. Enfim, todos quantos cujo prestígio pessoal pudesse ‘roubar brilho’ aos novos timoneiros dos destinos da República da GBissau. Sublinhe-se que essa última categoria era particularmente visada,   mal tolerada, e abertamente estigmatizada pelo novo Poder. Esse Poder, ao longo do tempo acabou por fazer da “vassalagem” um pré-requisito, conditio sine qua non para aquilo que considerava uma perfeita integração. Uma integração isenta de suspeitas. Uma integração com o ego mutilado!

Tatitataia  sente-se na obrigação de vos relatar em palavras simples mas reveladoras, tudo quanto realmente aconteceu. E como aconteceu. Há muito a fazer-vos saber. Saibam ser pacientes!