Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto I

Com a intenção de diversificar  as crónicas do Tatitataia,  aceitem este breve interregno na sequência dos  hilariantes episódios que os seus prezados  leitores têm apreciado com particular gáudio e alguma nostalgia. Motivado por um ‘Dever de Memória’, este espaço aceitou com esta Parte I, seguida de outras a serem periodicamente publicadas,  juntar a sua voz para ajudar a desmistificar um quási inviolável ‘tabú’: o do ‘Homem Novo Forjado na Luta’.

Tatitataia está ciente da necessidade de estabelecer uma nítida e bem definida fronteira, dir-se-ia clivagem, que alerte os leitores do presente texto para a flagrante diferença que se impôe reconhecer, e fazer reconhecer, entre os que abnegadamente se empenharam  na Luta pela Independência Nacional com toda a generosidade, sacrifício de vida, e fidelidade aos princípios  de Liberdade e Progresso que sempre os nortearam e  os que fizeram dessa Luta um investimento pessoal de Poder, um meio de vingança social e um instrumento para valorização de seus estatutos na sociedade. Estes últimos não precisaram de muito  tempo para se arvorarem em ‘donos e senhores’ do País e sobretudo da capital Bissau, o mais ambicionado e precioso espólio de guerra.

Estas narrativas debruçam sobre situações vivenciadas por pessoas ou famílias de uma certa classe, média/alta,  na altura  pejorativamente denominada “pequena burguesia”. Aquando da independência da Guiné-Bissau, muitos membros dessa suposta classe resolveram abdicar da segurança e tranquilidade de uma vida europeia e regressaram à sua terra, conscientes dos sacrifícios inerentes às tarefas de uma (re)construção nacional. Acreditando no humanismo, consciência política e patriótica do propalado “Homem Novo Forjado na Luta”, esses indíviduos regressados e os há décadas radicados, quiseram também “saldar a sua dívida para com o povo”.

A política é de certa maneira, a ‘Arte de Convencer’. Porém, o PAIGC pós Independência que se instalou em Bissau não a fez para convencer, para fazer política, mas para se impôr. Impôs-se sem nunca ter procurado convencer. Entretanto, a sua Direcção ou por estratégia ideológica ou por  manifesta incapacidade nunca, em momento algum, se mostrou mínimamente interessada em moblizar as forças vivas do País para as árduas tarefas de (re)construção nacional. Obedecer foi a palavra de ordem desde o alvorecer. Obedecer. Obedecer sempre. E sobretudo, não questionar. A acção ‘musculada e intimidatória’ da autoridade exercida pelo aparelho do Estado, através duma sistemática utilização de violência gratuita e descomplexada, o Partido – modo como era tratado o PAIGC — enquanto autoproclamada e assumida força única dirigente do País gerou, sobretudo nos centros urbanos, uma nítida rejeição que se foi cristalizando, acabando por traduzir-se em ruptura. Os ainda presentes entre nós que viveram essa época, guardam indelevelmente essas marcas como autênticos ferretes na sua memória. O presente texto propôe relatar, sem divagações, as dolorosas experiências de um período sombrio de nossas vidas como seres humanos e muito triste do nosso País. O que aqui vos será dado  ler, não é ficção.  Aconteceu. É pura realidade!

A guerra pela Independência Nacional, como qualquer outra que a História guardou registo, não podia, dada a extrema violência que a mudança dum statu quo pela via das armas requer, isentar-se de acções que molestam  a sensibilidade do mais comum dos mortais. Camille Desmoulin e Georg Foster procuram justificar a inevitabilidade dessa dura realidade. Guerra é sinónimo de violência. Guerra sem Atrocidades é Utopia!

Entretanto, o escopo deste texto e dos que lhe seguirão não é o de denunciar eventuais crimes cometidos durante a Luta Armada, mas de fazer luz sobre os cometidos no pós-independência. Os cometidos em período de Paz. A opacidade das estruturas do Poder, fortalecida pela sua cumplicidade interna, não permitia determinar graus de culpabilidade pelos atropelos cometidos nesse período contra os mais elementares direitos dos cidadãos guineenses. Consequentemente, a presente narrativa não se reconhece suficientemente fundamentada para nomear os responsáveis por esses ignominiosos actos. Porém, e por Dever de Memória, serão citados alguns nomes dentre os mais vitimizados pelo Poder que assumiu Bissau depois da retirada da administração colonial.

Posto este, a meu ver, pertinente intróito, passarei a relatar em episódios como o presente, os mais flagrantes atropelos aos Direitos Humanos impune e gratuitamente cometidos em quase todos os extractos sociais Bissau-guineenses, com maior incidência sobre os de maior literacia dos centros urbanos: Funcionários públicos, pequenos e médios comerciantes, e os que por díspares razões, eram alvos de algum afecto e consideração popular. Enfim, todos quantos cujo prestígio pessoal pudesse ‘roubar brilho’ aos novos timoneiros dos destinos da República da GBissau. Sublinhe-se que essa última categoria era particularmente visada,   mal tolerada, e abertamente estigmatizada pelo novo Poder. Esse Poder, ao longo do tempo acabou por fazer da “vassalagem” um pré-requisito, conditio sine qua non para aquilo que considerava uma perfeita integração. Uma integração isenta de suspeitas. Uma integração com o ego mutilado!

Tatitataia  sente-se na obrigação de vos relatar em palavras simples mas reveladoras, tudo quanto realmente aconteceu. E como aconteceu. Há muito a fazer-vos saber. Saibam ser pacientes!

 
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6 thoughts on “Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto I

  1. Depois desta interessantíssima introdução vai ser difícil aguardar com paciência. A profusão das recentes violações dos direitos humanos e passividade e subserviência de muitos, pode muito bem ser explicado por três décadas de aniquilação de valores morais, éticos e sociais. Os que puderam, deixaram o país e, os que ficaram, foram-se adaptando aos novos (des)valores, muitas vezes absorvidos pelos que desprezaram o mérito, a competência, o rigor etc. etc. Os que sobreviveram mantendo a honra e a dignidade incólumes, são sem dúvida heróis. Bom, vou tentar ser paciente e esperar.

  2. O entroito feito ao que se passou após a Independência é o retrato fiel daquilo que os senhores governantes fizeram desprezando o direito da Liberdade e Progresso de um País que vinha de uma luta armada e sem quadros e começaram a arranjar dificuldades para os que ficaram com a intenção de ajudar.
    Eu fiz parte desse grupo e mantive-me durante dois anos tarbalhando o dobro com vencimento reduzido.
    Foi pena que tivessem optado pelo caminho da vingança e passado 39 anos o progresso é nulo com a agravante dos constantes conflitos militares.
    Vou seguir com interesse os próximos capítulos.

    1. João, levantas aqui a questão que para mim está na essência dos atuais problemas da Guiné. O fator humano. Forjou-se de facto um “homem novo”, não aquele sonhado por Cabral, mas sim um homem animado por (des)valores, tal como disse a Ruth Monteiro. Aguardo a continuação da tua reflexão.

  3. Caro GALVAS,
    Uma vez mais, felicito-te pela iniciativa e agradeço a tua generosidade em partilhar com todos nós a única coisa que é realmente nossa: o teu(nosso) tempo. Até aqui, tem-no feito num passado longínquo, ajudando-nos a recordar e, recordando, a reviver. Agora que te decidiste a abrir um parêntese para abordar o “Homem Novo” sonhado por Cabral, quero deixar aqui um desafio à imaginação (tua e nossa) com uma pergunta que há 40 anos espera resposta: e se CABRAL não tivesse morrido?…
    Aquele abraço,
    Godinho

  4. Pai, eu não vivi esses tempos. Ou melhor, vivi-os “por procuração”, através de vocês, do pouco que não conseguiram nos esconder quando éramos crianças, e, décadas depois, do que nos conseguiram contar (que, até hoje, tenho a certeza que nem a ponta do iceberg é…). Vou acompanhar com atenção. Até porque, mesmo parecendo que não, preciso desse “ajuste de contas”, dessa “catharsis”. Ao começar a ler pensei em te dizer “pensa bem antes de entrar nesse caminho”. Mas, é por aí mesmo. Não há libertação sem confrontação 😉
    Beijo!

    1. Querido David, Não te preocupes pois, como bem dizes, “Não há libertação sem confrontação” e como tal, com este primeiro texto e com os que se lhe seguirão deixarei repto: “Por Dever de Memória”. Como cantou o antifascista padre Fanhais na época da ditadura salazarista: “É necessário, imperioso e urgente fazer chegar a mensagem a toda gente”. Sobretudo para aquelas e aqueles que pretendem nada saber a respeito dos factos mencionados ao longo desta série do ‘Homem Novo’ ou, ainda mais grave, dizem não se terem apercebido quando efectivamente estiveram ‘bem presentes’! Um xi do Pai

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