Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto II

São poucos os cidadãos das ex-colónias portuguesas que não ‘vitoriaram’ os Movimentos de Libertação Nacional desses Países em emergência. Foram momentos de intenso fervor patriótico. Inolvidáveis!

Comemorava-se o primeiro aniversário natalício, após a Independência Nacional, do líder supremo da Luta. No princípio da tarde dessa quinta-feira 12 de Setembro de 1974, dois dias após o reconhecimento ‘de jure’ da jovem República da Guiné-Bissau por parte do Governo Provisório português nascido da Revolução dos Cravos a 25 de Abril de 1974 a população de Bissau, possuída de transbordante entusiasmo, aglomerou-se na ex-Praça do Império prontamente convertida em Praça dos Heróis Nacionais para prestarem uma vibrante e calorosa homenagem aos mais altos dignitários do PAIGC: Aristides Pereira, Luis Cabral, Comandante Francisco Mendes (Chico Té) e Comandante João Bernardo Vieira (Nino) que assumiam a responsabilidade da Comissão Permanente do Conselho Executivo de Luta, a então instância máxima da hierarquia do PAIGC.

Uma enorme e ruidosa massa heterogénea cobrindo um largo espectro societário — adolescentes, adultos e idosos, mulheres e homens, ex-militares guineenses atempadamente desarmados e pessoas de todas as outras profissões — num clima de intensa euforia popular quiseram TODOS servir-se do momento para demonstrarem sincero e inequívoco reconhecimento aos novos heróis que aos olhos da população e, quiçá, do mundo inteiro, se tinham batido pela causa da Liberdade, da Paz e do Progresso. Um reconhecimento a roçar os limites da deíficação. Estava instalado o poder revolucionário na Guiné e potenciadas as esperanças de uma vida melhor para todos: mais liberdade, mais solidariedade, mais paz e mais desenvolvimento consubstanciado em, entre outros, mais educação, mais saúde, mais justiça social, mais qualidade de vida.

Porém, não tardou muito para que a nova administração se revelasse incapaz e incompetente para gerir o país assumindo em contrapartida, como meio de escamotear, ou mesmo esconder, as suas limitações e insuficiências, uma estratégia repressiva e intimidatória que bem conhecia e dominava. A pouco e pouco o véu se rasgava e a máscara caía pondo em evidência as ‘avisadas’ palavras do Encontro de Ensalmá das quais se fizera letra morta. A. Cabral disse: “A nossa Independência termina em Ensalmá. Ela vai ser entregue à gente que virá ao nosso encontro para a assumir. Essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior que é compôr a terra, tarefa maior e mais complicada”.

Entretanto, esse clima de euforia foi-se paulatinamente esvanecendo acabando por se extinguir completamente ao longo do tempo á medida que a população ia descobrindo e enfrentando o acerbo autoritarismo, a arrogância e a petulância dos novos senhores do Poder.

Na realidade esse enorme, inesgotável capital de energia e entusiasmo populares, á partida gratuitamente disponível, foi mais ignorado que realmente desperdiçado. Efectivamente o Novo Poder, uma vez instalado, protelou ‘sine die’ qualquer iniciativa susceptível de promover a Reconciliação Nacional, uma decisão política que por ansiosamente esperada e profundamente desejada, traria seguramente inquestionáveis e incomensuráveis benefícios ao País. ‘A Contrario’ deu-se, de imediato e com transparente perseverança, uma tenebrosa prioridade a um longo e faseado processo de intimidação de massa escrupulosa e minuciosamente  programado.

Esse meticuloso projecto visou simultaneamente promover, por um lado, a ‘Afirmação do Poder’ e por outro, a ‘Reconversão  Ideológica’ das populações que até então não tinham estado sob a ‘alçada’ da autoridade do PAIGC, autoproclamado ‘Força, Luz e Guia’!

O primeiro representante oficial do PAIGC a ser recebido em Bissau pelas autoridades portuguesas apenas algumas semanas depois do 25 de Abril de 1974 foi o Comandante Juvêncio Gomes, Membro do Conselho Superior de Luta do PAIGC.

Da data do seu acolhimento ao reconhecimento ‘de jure’ da República da Guiné-Bissau a 10.09.1974, a capital Bissau e a sua população testemunharam o ‘surgimento’ de alguns grupelhos formados por jovens citadinos travestidos em revolucionários ‘de ocasião’ que se autoproclamaram militantes ‘provenientes’ de uma célula do PAIGC dita ‘Zona Zero’  e em  clandestinidade nos centros urbanos. De salientar que a coberto dessa pretensa célula  um grande número de oportunistas se autoproclamou militante do PAIGC. Esses grupelhos não mandatados mas tolerados e cinicamente suportados pelo PAIGC que subrepticiamente lhes dava total cobertura e lhes ‘agradecia’ o trabalho sujo, desencadearam uma organizada intimidação da população civil que ia desde ‘raptos’ de pessoas que, de motu proprio, atribuíam colaboração com a PIDE/DGS e que depois se soube terem (algumas) sido fuziladas supostamente nas chamadas ‘zonas libertadas’, passando pelos  quadros da Função Pública através de mini-comícios nos locais de trabalhos e muitas vezes seguidos de arbitrárias medidas de saneamento.

Esses desacatos acompanhados de slogans como ‘Lála kéma, káú de súkúndi kâ tém’ e de outros bem mais provocatórios, foram obviamente muito mal acolhidos pela população e muito em particular pelos funcionários públicos habituados a regras de conduta diametralmente opostas.

A partir de Setembro de 1974 o PAIGC empenha-se em se consolidar através de múltiplos comícios com os quais a população de Bissau acabou por se familiarizar. Dizia-se: Nó bá ôbi ké ké tém pâ falánú máss, o que traduzido é – Vamos ouvir o que mais teem para nos dizer. Reconheça-se que para esse género de exercício o PAIGC dispunha de excelentes oradores. Entre estes, quem não se lembra desse militante que se formara por uma escola de engenharia em Portugal, dotado dum reconhecido, ultra-sensível mimetismo político?! Ao longo do seu percurso no PAIGC, esteve em todas e com todos. É um autêntico ‘sarabafai’!

Para os menos informados, sarabafai é uma planta aquática de raiz flutuante com marcada concentração no rio Geba sobretudo nas imediações de Bafatá onde o rio é menos salgado. Essa planta ‘desloca-se’ ao sabor das marés. Iágú súbi i súbi kél, iágú ria i ria kél. Sobe com a enchente e desce com a vazante. Vai para onde é levada…

Ora esse ‘sarabafai’ feito orador  excedia-se durante os comícios nos quais procurava intimidar os presentes servindo-se de insidiosos adjectivos como palavras de ordem emitidos entusiásticamente em bem audíveis decibéis: ‘Abaixo catchúris de dúss pé’; ‘abaixo môm móli’; ‘abaixo barriga lárgú’; ‘abaixo oportunistas’; ‘abaixo catchúres de túga’; ‘abaixo inimigo de nô Partido’.

Nunca saberemos se esse ‘orador’ obedecia, se encenava ou se era ‘realmente’ fiel ao ‘seu’ Partido. Entretanto, essa  pouco conciliatória metodologia de consolidação do PAIGC nos centros urbanos tornava as populações desses centros, cada vez mais apreensivas quanto ao seu futuro bem como o do País….

Ao não se aperceber, ou não ter querido aperceber-se de que a realidade dos centros urbanos não tem as mesmas vestes que as do meio rural, o PAIGC cometeu um erro de “lesa-pátria”, que acabou por lhe ser fatal. Fatal por ter gerado o desencanto, a desmotivação e a desmobilização de muitos guineenses verdadeiramente empenhados em se sacrificarem pelo Desenvolvimento Sócio-Económico do País.

A próxima narrativa debruçar-se-á sobre o impressionante número de vítimas ‘produzidas’ pelo regime e sobre a forma drástica como  foram violentadas. Sejam pacientes!

 

 

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5 thoughts on “Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto II

  1. É de reafirmar o seguinte: “Olhar para o espelho retrovisor da História ajuda-nos a compreender o nosso presente”, adiante caro João, isto promete! LV

    1. É verdade, João. Tudo parecia um MAR DE ROSAS. Eu, como militar, ajudei como pude embora à revelia. depois foi o que se viu. Aqueles que me faziam os pedidos depois de se instalarem em Bissau passavam por mim e ñ me conheciam! Ok, não vou falar mais em coisas que me entristecem. Avança que eu continuo na expectativa. Abraço e coragem

  2. Vou continuar a aguardar, mas não com paciência. Aviso.
    O que acabei de ler fez-me lembrar o meu pai que antes da independência escutava a bbc, para saber dos avanços da luta de libertação; do medo que todos em casa tínhamos que ele fosse preso pela pide; dos cochichos dele e da minha mãe quando a carrinha da pide despejava mais um morto na casa mortuária, e ele ia ver quem tinha sido a vítima; do silêncio que estranhamente, acontecia depois da visita do meu pai à casa mortuária, pois éramos crianças, e por isso, mais do que saber, pressentíamos a tensão e tristeza dos nossos pais; de como todos, em casa, vibrámos com a entrada do paigc , para logo a seguir, ouvir e ver o desencanto do meu pai, que se sentiu incapaz de aceitar os valores e comportamentos da nova elite, saída da luta, por causa dos factos que tão bem espelhas nestas crónicas. Obrigada João.
    Temos que ser capazes de analisar friamente a nossa história. Assumir os nossos erros, para nos podermos levantar e seguir.

  3. Sublime esta passagem de momento de exaltação nacional para o desmascarar do lobo em pele de cordeiro. É pena que essa boa corrente de energia tenha sido desperdiçada…

    Obrigado pelo “sarabafai”, já tinha ouvido a palavra umas quantas vezes, sabia tratar-se de algo semelhante a um fanfarão, mas não sabia o significado exato.

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