Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta?! Texto VI

Venho falando em fascículos ou, se quiserem, em episódios, e já lá vão cinco, do propalado “Homem Novo forjado na Luta”. Este Homem que, segundo as nossas expectativas, e ouso estendê-las, sem grandes margens de erro, à escala universal, seria pleno de virtudes ou, no mínimo, detentor de uma mente aberta e inclusiva, e de um profundo sentimento humanístico.

O enquadramento “histórico” que pretendi dar pondo a nú o comportamento individual e colectivo desse homem saído da Luta bem como a natureza do regime que cedo implantou não deixam espaço para uma análise panegírica por maior boa-vontade ou generosidade que se tenha.

A breve história de Samanta e Moisés, um casal com história de vida semelhante a tantos outros, contada no anterior capítulo desta curta série é apenas uma de entre muitas e não passa de um episódio profundamente marcante na vida de uma família que, de entre outras vicissitudes – a vida é maioritariamente feita de silêncios e vazios inenarráveis – foi empurrada para o exílio com tudo o que esta situação tem de mau: projectos de vida destruídos, destabilização da vida familiar, desvanecimento de sonhos e objectivos, procura e adaptação a uma nova vida, desequilíbrio na educação dos filhos entre outros vários problemas decorrentes da novel condição.

Qualquer atento e avisado observador que tenha de perto acompanhado a primeira década do pós-independência da Guiné-Bissau, não poderá furtar-se à constatação duma manifesta e deliberada relutância e intransigência do PAIGC em reconhecer às populações dos centros urbanos até então  fora da sua jurisdição, o direito inalienável  de se assumirem guineenses de pleno direito em ‘pé de igualdade’ com os seus concidadãos que participaram na luta armada. Essa paridade profunda e permanentemente desejada, porque de um direito natural se trata, jamais foi concedida.

Desde o primeiro instante que o PAIGC fez saber, ou pelo menos se empenhou em fazer compreender,  de forma despudorada e sem quaisquer laivos de ambiguidade, que a Guiné-Bissau ‘conquistada’ seria de facto o País dos Guineenses, ‘MAS’ não sem antes os dividir em duas categorias, a saber: por um lado, os que só tinham direitos – os apelidados ‘os melhores filhos da nossa terra’, militantes de Luta do PAIGC; e por outro, os cujo patriotismo estava sob suspeita e que só tinham deveres e obrigações – aqueles que não haviam participado directamente na Luta pela Independência.

Essa humilhante dicotomia imposta ao povo guineense, foi esculpida num clima, como alguém já bem o definiu,  de ‘asfixiante paternalismo e chocante arrogância’. E não  bastando essa humilhação, o PAIGC procurava intimidar e ‘doutrinar’ as populações dos centros urbanos através dos seus regulares comícios proferidos ‘ex cathedra’, alguns veiculando mensagens bem ultrajantes.

Confundia-se o poder da força com a força do poder e, desta forma, foi-se passando um certificado de menoridade política e até de alguma “cobardia” às populações urbanas desprezando o seu saber, a sua experiência, a sua subtileza e a sua inteligência e até mesmo a sua resiliência. Nunca entendeu – o PAIGC – a diferença entre a autoridade livremente consentida e compreendida com o autoritarismo, a autoridade imposta e arbitrária.

No quadro das intimidações não era invulgar ser-se  interpelado com manifesta jactância: Bú sîbi âmi i kim?, o que traduzido quer dizer, Sabes quem sou eu? Ou melhor, fazendo-se importante: “Sabes com quem estás a falar?”

Convém aqui registar que tudo era à revelia do que se tinha publicado e divulgado no sentido que o sonho que comandara a Luta, ou que supostamente ‘a’ teria comandado, foi o de construir uma Guiné-Bissau coesa, fraterna e com uma só categoria de cidadãos: Guineenses livres e iguais em direitos e obrigações!

É absolutamente pacífico que os múltiplos e complexos problemas que a República da Guiné-Bissau vem defrontando, têm as suas raízes no passado. O País ainda não se libertou das sindromes da ‘Luta Armada de Libertação Nacional’ ou da ‘Luta Armada pela Independência Nacional’, ou mesmo da ‘Guerra Colonial’ ou da ‘Guerra do Ultramar’ dependendo uma ou outra dessas denominações da sensibilidade política que cada um entenda atribuir a essa confrontação que durou mais que uma década e durante a qual a VIOLÊNCIA com o seu rasto de destruições foi, obviamente, omnipresente.

Essa violência de que foram impregnados todos os anteriores ‘Poderes’ quanto o actual, acabou por modelar, um ‘modus operandi’ que, pela sua acutilância, macabra sustentabilidade e consequente, mas infeliz longevidade, não tem permitido assegurar uma estável e necessária Paz social, ‘conditio sine qua non’  para que se possa promover a implementação, tanto a curto, quanto a médio e longo prazos, dum sustentável Programa de Desenvolvimento Sócio-Económico para o País.

Essa cultura de violência forjada na Luta e inerente ao ‘Homem Novo’ teve, como não podia deixar de ter, um efeito boomerang que gerou no seio do próprio PAIGC, ao longo da luta armada e no pós-independência, uma continuada onda de antropofagia que se alimentou de vidas de valorosos combatentes que tendo emprestado elevado brio à gesta da Luta pela Independência se deixaram consumir pelo desvario do Poder comprometendo assim a possibilidade de figurarem como exemplos nas páginas da nossa História. Essa constatação não deixa de ser dolorosa. Como escrever a História da Guiné-Bissau sem mencionar as vítimas dessa antropofagia? Foram ontem heróis. Como os considerar hoje?!

Numa saudável iniciativa de tentar compreender as causas subjacentes ao fracasso do PAIGC pós-independência, gostariamos de vos propor uma (re)leitura, despida de todo conservadorismo e imobilismo intelectual, à conhecida frase de A. Cabral: ‘Sou um simples africano que quis saldar a sua dívida para com o seu povo e viver a sua época’.

Pelo actual ‘estado de perdição’ em que se encontra a GBissau, podemos ser tentados a dar a essa frase uma interpretação diferente da que se lhe vem sendo conotada, e inclusive dela tirar ilações que, por displiscência da cúpula do PAIGC, por comodismo, ou mesmo por parecer simples e óbvio, nunca puderam ser discutidas.

No fundo, quatro décadas após o seu trágico desaparecimento físico, essa frase impele-nos, convida-nos, melhor, quase nos obriga aceitar que, pelo facto de A. Cabral ter feito TUDO quanto pôde, a ninguém  é reconhecido ou, ainda pior, a ninguém é permitido o direito de contestar os resultados do seu empenhamento. O mesmo que dizer: Eu fiz a minha parte, e bem! Façam vocês a vossa! Pôncio Pilatos, assim lavou as mãos…

Por outro lado, quando lemos a intervenção de A. Cabral, intitulado “Encontro de Ensalmá” no qual afirma: “A luta que levamos a cabo com a arma na mão para tirar os tugas do nosso chão, para a nossa Independência, é o Programa Mínimo que estamos a cumprir. Não pensem que vamos todos mandar em Bissau. Para aquele que era mecânico, electricista, pescador, agricultor quando entrou na Luta, irão ser criadas as condições para ele continuar a sua actividade e viver o seu estatuto de Combatente da Liberdade da Pátria. A nossa Independência termina em Ensalmá. Ela vai ser entregue à gente que virá ao nosso encontro para a assumir. Essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior que é compôr a terra, tarefa maior e mais complicada”, forçados somos a constatar que A. Cabral reconhece através desta declaração despida de equívocos que o ‘Homem Novo’ que o PAIGC gerara não tinha a mais pequena condição de gerir com o mínimo sucesso, o País. Mesmo com sua liderança uma vez que ele não se exclui dessa gestão.

Continuando com o pronunciamento de Ensalmá, como esperar ou viabilizar o apoio daqueles para os quais precisamente programava o seguinte porvir político: Para aquele que era mecânico, electricista, pescador, agricultor quando entrou na Luta, irão ser criadas as condições para ele continuar a sua actividade e viver o seu estatuto de Combatente da Liberdade da Pátria? Passo-me de comentários porque não me sinto tão ingénuo…

Volvidas quase quatro décadas de independência política da Guiné-Bissau e constatando-se o estado de depauperamento social, económico e sobretudo moral em que ainda se encontra o país, não será justo questionar, ou sermos tentados a questionar, o benefício da acção do PAIGC e do seu ‘Homem Novo’ para com o povo da Guiné-Bissau? Que se tenha a necessária coragem de levantar essa embaraçadora questão.

Se para uns quantos a acção do ‘Homem Novo’ é decidida e inquestionavelmente positiva, seremos então forçados a levantar uma outra questão: Em que termos, ou de que modo, o ‘Homem’ Novo’ e o PAIGC beneficiaram a República da Guiné-Bissau e o povo guineense? Pela Independência? Pela Bandeira? Pelo Hino?

Volvidos quarenta anos, por onde passou a Paz? O Progresso? A Felicidade? E sobretudo a Liberdade?

Quem poderá dizer quando, em quatro décadas, foi o cidadão guineense ‘autorizado’ a manifestar a mais singular discordância?

Onde estão, quem são e quantos são os beneficiários da acção do ‘Homem Novo’ e do PAIGC na Guiné-Bissau?

Questões que se impõem e que aguardam respostas.

Mas perante tão maus e defraudantes resultados que a pós-independência bem evidencia, parece-nos legítimo ainda questionar, se ao longo do processo da Luta, A. Cabral, profundo conhecedor das limitações do capital humano de que dispunha não terá, em algum momento, sopesado o risco do fracasso a que estava exposta a pós-independência e o consequente interesse no prosseguimento da Luta?

Não será este o verdadeiro sentido de “Ensalmá” que tem constituído, até o presente, uma questão verdadeiramente tabú no seio do PAIGC?

Ao profetizar um dia numa reunião de militantes: “Se alguém me há-de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios”, o  Eng° Amilcar Lopes Cabral deixava transparecer um aberto sentimento de insegurança face aos militantes do seu PAIGC pondo em causa as virtudes da sua criação. Pelo que mais tarde aconteceu, podemos afirmar que o lider do PAIGC não foi vítima senão da sua própria criação, da sua obra: o PAIGC!

Muito se cantou e ‘embalou’ o mito A. Cabral mas bem pouco ou nada se aprendeu do homem. Do homem A. Cabral, evidentemente. Como explicar tão maus resultados? Careceriam os militantes do PAIGC de conhecimentos e de capacidade para apreenderem e assimilarem correctamente os objectivos, os princípios e as etapas da Luta? Estariam à altura de tão ambicioso projecto? Terá A. Cabral sido suficientemente explícito?

Inadequada pedagogia? Utopia? Romantismo revolucionário? Que cada um livremente se pronuncie,  com toda a frieza e isenção, mas sem ‘ses’ e sem ‘mas’, quanto ás multiplas causas desse  flagrante insucesso.

Porém, Tatitataia se tornaria inconsistente com o seu ‘Dever de Memória’  se, ao chegar ao fim da presente série do ‘Homem Novo’ não prestasse pública homenagem a todos quantos foram negados o direito a uma campa, por conta dos desvarios do Poder draconiano do PAIGC pós independência, corporizado no “Homem Novo forjado na Luta” a coberto de razões que a ‘razão’ jamais poderá explicar.

Foram milhares!

Não poderia findar esta série sem vos propôr a noção que partilho do ‘Homem Novo’. Um ‘Homem Novo’ diferente. Radicalmente diferente.  Verdadeiramente humano na sua essência. É esse e mais nenhum outro do qual a nossa Guiné-Bissau tanto precisa e por que mais anseia.

O parágrafo que abaixo transcrevo, e que vos proponho ler e reflectir, não é da minha autoria. Ele foi retirado dum texto redigido uns anos atrás por um guineense amigo íntimo que, como muitos outros, participou no pós-independência animado por uma vontade profunda de ser útil e ‘saldar a sua dívida’ para com o nosso povo e para com a terra que nos viu nascer ou nos viu crescer: A Guiné-Bissau. Não poderia encontrar melhores palavras para definir o ‘Homem Novo’ que devemos todos  ambicionar para a nossa Guiné-Bissau.

“Sim, basta! É preciso fechar definitivamente o ciclo. É preciso dar lugar a uma nova geração de políticos, totalmente descomprometidos e libertos das síndromes da Luta pela Independência. Uma geração cujos direitos e deveres se equilibram e igualam-se aos de qualquer outro cidadão. Uma geração cujo mérito está no seu saber, na sua dedicação, na sua honestidade, na sua real inserção nos novos paradigmas e não no seu passado de combatente por mais glorioso que tenha sido. Uma geração que saiba o que é, e respeite, o estado de direito democrático. Os tempos de há muito que são outros. E é preciso compreender, interpretar e materializar os seus sinais”.

Melhor, eu não saberia dizer.

E assim chegamos ao fim desta longa série dedicada ao  controverso e delicado tema do ‘Homem Novo’ forjado na Luta. Tatitataia agradece a atenção que a ele se dignaram dispensar e os juízos e comentários que uns e outros entenderam ou venham a entender formular.

Voltaremos assim que possível aos hilariantes episódios ocorridos durante os nossos verdes anos no nosso querido Liceu Honório Barreto. Episódios esses mais consentâneos com os modestos propósitos editoriais definidos pelo Tatitataia.

Sejam pacientes!

 

 

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Por onde passou o ‘Homem Novo’ forjado na Luta? Texto V

Samanta e Moisés, um casal entre os muitos outros que, conscientes dos sacrifícios inerentes às tarefas de uma (re)construção nacional, resolveram abdicar da segurança e tranquilidade de uma vida europeia e regressaram à terra, para com esse gesto, “saldar a sua dívida para com o povo”. Porém, esse nobre objectivo não pôde infelizmente ser alcançado na plenitude. Tatitataia, animado pelo mesmo ‘dever de memória’, vos fará saber com a presente narrativa o papel do ‘Homem Novo’ nesse processo de ‘demolição de egos’, pelo qual instigava  ao abandono todos quantos, em relação a ‘eles’, não frequentavam a mesma ‘capela’ e não rezavam pelo mesmo ‘missal’.

De temperamentos marcadamente diferentes, opiniões e posições nem sempre conciliantes, ambos se equiparavam quanto à dedicação ao trabalho. Quanto a relações humanas, ela sempre se mostrou adepta da tese defendida pelo filósofo francês Jean Jacques Rosseau de que o Homem é efectivamente um ser intrinsicamente bom. Ele, por natureza dubitativo quanto a questões societárias perfilha a posição assumida pelo filósofo inglês Thomas Hobbes que considera o Homem um ser mau na sua essência, o que dá corpo à expressão: Homo, homini lupus.

Terão portanto ao longo desta narrativa, uma Samanta que acredita na sua boa estrela e um Moisés que faz das suas cautelas a sua boa estrela, por respeito à sapiência do velho aforismo que diz: Homem prevenido vale por dois.

O casal viveu os acontecimentos que estiveram na base do conhecido ‘Movimento Reajustador de 14 de Novembro de 1980’. Contrários ambos à utilização da força como método de se alcançar qualquer mudança de regime político, reconhecem no entanto que o ‘clima político’ que se viveu durante o período que antecedeu esse evento, foi suficientemente rico em sinais denunciadores de que algo de eminente pairava no ar. De salientar que esse notório sentimento de espectativa, acompanhado de palpável apreensão, eram sobejamente partilhados pela grande maioria da população de Bissau.

Entre uma infinidade de problemas jamais solucionados que se foram acumulando durante a luta armada de independência, o evento ‘14 de Novembro de 1980’ teve entretanto a sua verdadeira raíz no Princípio da Unidade Guiné-Cabo Verde o ancestral ‘calcanhar de Aquiles’, ou melhor, o ‘pecado original’ do PAIGC.   Esse ‘calcanhar de Aquiles’, os mencionados problemas do passado, a gritante falta de produtos de primeira necessidade e o crescente descontentamento popular conduziram ao inevitável que é do conhecimento de todos: O Movimento Reajustador de 14 de Novembro de 1980, que materializou a ruptura com o governo de Cabo Verde e se constituiu no leitmotiv para anulação do princípio de Unidade entre os dois países.

Entretanto, o casal conseguiu sobrepor-se à crise política e renovar energias para continuar labutando com o mesmo entusiasmo, na esperança de que a situação política se apaziguasse e que a Guiné-Bissau pudesse finalmente enveredar por um outro rumo que permitisse ao País atingir os objectivos que ‘em princípio’ nortearam os desígnios da Luta armada: Paz e Progresso!

Mas esse bem intencionado casal não precisou de muito tempo para ver os seus sonhos se desvanecerem. Se volatilizarem irremediavelmente!

O ‘Movimento Reajustador’, pressionado pela ala conservadora do PAIGC, acérrima e irredutível defensora das posições assumidas pelos autoproclamados ‘melhores filhos da nossa terra’, não tardou em empenhar-se na implementação duma política que, respaldada numa visão racista, possívelmente inspirada na proclamada ‘autenticidade’ de Mobutu, visava a ‘nativização’ do aparelho de Estado. Uma ‘nativização’ descomplexadamente baseada no fenótipo dos cidadãos, ou seja, no conjunto das características observáveis de cada indivíduo das quais o teor em melanina mereceu inquestionável relevância…

Uma vez a bússola orientada no sentido de levar a efeito essa nativização do aparelho de Estado, como dito, baseada no fenótipo dos cidadãos, os responsáveis pela implementação dessa política deram início a uma autêntica ‘caça às bruxas’ visando os indivíduos que respondiam a esses parâmetros. Aos indivíduos que tinham a ‘infelicidade’ de serem portadores de menos melanina, vulgo ‘búrmêdjús’.

Samanta foi uma das ‘infelizes’ que,  pelo conjunto das suas ‘observáveis características’, reunia as condições para dela se fazer um exemplo  que permitisse demonstrar, com transparência, a vontade política do governo em levar avante essa política de nativização dos postos de Direcção:‘Burmêdjú’, de reconhecida competência. As causas duma longa e penosa maratona…

No primeiro trimestre de 1978, Samanta fora responsável pela supervisão técnica de um projecto financiado pelo governo sueco que contou, com a participação de técnicos nacionais e cubanos para a formação de monitores para uma primeira fase de campanha de vacinação de crianças em idade escolar nas principais regiões do País.

Nessa altura, uma vez cumpridas as formalidades oficiais para desbloqueamento da verba correspondente a esse financiamento, a totalidade dessa soma dava entrada no cofre do Departamento de Finanças do Ministério ao qual o Projecto estava tutelado, e isso comprovado e confirmado por um documento com o registo de quatro assinaturas. Tanto quanto eu seio original dessa nota de entrega de fundos está ainda hoje na posse do casal.

Nessa nota constavam as três assinaturas dos funcionários que, pelo acto de recepção, se teriam afirmado como os únicos responsáveis não só pelo ‘manuseamento’ dessa soma quanto garantes da qualidade dos recibos, facturas e outros documentos comprovativos da sua utilização. Havia ainda uma quarta assinatura, a de Samanta que assim provava ter feito, oficialmente e a quem de direito, a entrega da totalidade do montante destinado à execução do projecto. Esse documento definia, sem ambiguidades, as pessoas às quais competia a gestão financeira e a pessoa à qual competia a gestão puramente técnica do projecto.

Mas por terem ficado as responsabilidades delineadas com irrepreensível transparência nesse precioso documento, o que obviamente não servia os interesses dos apóstolos da ‘nativização’ do aparelho de Estado, esse documento acabou por perder toda a sua legalidade vindo a ser (in)compreensivelmente rejeitado pela Comissão de Inquérito formada para averiguar as eventuais ‘irregularidades financeiras’ registadas na gestão do projecto. E assim, as macabras intenções baixaram o véu. Esse propalado ‘Homem Novo’  não só nasceu velho quanto nasceu maculosamente ruim!

Na sequência dessa ‘nativização’ do aparelho de Estado muito mal simulada por uma ‘vigorosa’ campanha de combate à corrupção, Samanta é convocada a comparecer e enfrentar uma Comissão de Inquérito sobre eventuais irregularidades ou imprecisões detectadas durante a gestão do referido projecto. Como primeira reacção Samanta apresenta uma cópia do já mencionado documento de entrega, esperando muito naturalmente que o mesmo pudesse ilibá-la de toda e qualquer responsabilidade que se lhe pretendia atribuir.

Qual o seu espanto quando essa cópia lhe foi rejeitada com os seguintes dizeres: ‘Éss documentú i kâ bâli náda pâ nôss’, o que traduzido diz ‘Este documento não tem qualquer validade para nós’. E como se isso não bastasse disseram-lhe: ‘Bú djirú, bú limpú bócâ, má nô nâ púu nâ bú lugár’, o que traduzido quer dizer; És inteligente, expressas-te bem, mas vamos pôr-te no teu devido lugar. E não se fizeram rogados em dizer-lhe mais adiante: Abó ke nó misti. I kâ daóss ke nô na môntiáu, o que traduzido significa; Tu és a pessoa visada que de há muito pretendiamos alcançar…

E desafiando a vossa incredulidade vos informamos que essa Comissão de Inquérito era constituída pelos três indivíduos que recepcionaram, com assinaturas atestadas na sobejamente mencionada nota de entrega, a totalidade do financiamento sueco, por um perito contabilista publicamente reconhecido, e ao que parece com todo o mérito, como o maior consumidor de ‘Johnnie Walker’ de Bissau,  como presidente da Comissão de Inquérito, um militante do PAIGC pertencente aos Serviços de Segurança, por sinal um  analfabeto de notável qualidade que tresandava permanentemente a álcool e se apresentava às sessões de inquérito ostentando orgulhosamente as suas inestéticas chinelas exibindo uns sudoríparos pés…

Face às acusações desprovidas de qualquer legitimidade, e muito menos legalidade, Samanta disse em sua defesa: Caros camaradas, expressão que na altura se substituía ao ‘Caros Senhores’, porque me imputam uma responsabilidade que nunca me foi atribuída? Eu fui unicamente responsável pela gestão técnica e não pela gestão financeira desse projecto, como alás consta no documento o qual ostensiva e deliberadamente se recusam reconhecer sem que todavia expliquem as razões substantivas pelos quais não o reconhecem.

Qual o direito que vos assiste de  recusar a validade do documento que vos prova de que nada tenho a ver com os recibos apresentados como justificativos? Está suficientemente explícito nesse documento que não me competia essa responsabilidade. Porque não perguntar às três pessoas aqui presentes e que assinaram a nota de entrega que vos apresentei. A essas pessoas que, demonstrando uma chocante falta de dignidade e de personalidade, aceitaram fazer parte integrante da presente Comissão de inquérito, que respondam, como principais protagonistas dessa ocorrência, a tudo quanto diga respeito à veracidade e à qualidade desses recibos. A essas pessoas e só a elas compete assumir essa responsabilidade.

Entretanto, faço questão de vos dizer que não me surpreende em absoluto o vosso oportunismo mas a vossa baixeza e a vossa completa cegueira em não se darem conta de que não estão a ser ilibados mas utilizados para finalidades macabras de que serão muito eventualmente as próximas vítimas.

E perseverando em desmascarar os esconsos objectivos dessa inconcebível, incoerente e incompreensível Comissão de inquérito, Samanta se predispôe a apresentar copias de dois documentos esclarecedores das diligências tempestivamente feitas: A primeira, do ofício do Ministério de Finanças que, tendo na altura recebido os justificativos comprovativos das despesas efectuadas para levar o projecto a bom termo, reconhecia o projecto como concluido em ‘boa forma’. E incompreensivelmente, é a mesma Comissão que dizia agir a pedido do mesmo Ministério de Finanças para detectar eventuais irregularidades na gestão do mesmo projecto. Que absurdo e que tamanha contradição!

O segundo documento proposto, foi a cópia do relatório apresentado ao então Ministro de tutela sobre a gestão técnica do projecto, a definição das etapas e dos objectivos alcançados. Nesse documento até constava um despacho elogiando os resultados e todos quanto nele estiveram envolvidos. Uma vez mais essa Comissão de Inquérito não reconheceu nenhuma validade dessas provas que, com toda a transparência, isentavam Samanta, das acusações que viva e obstinadamente quiseram ‘colar-lhe à pele’…

O casal bateu a todas as portas e das bem poucas que se lhes abriram em nenhuma encontraram solução. As respostas eram quase sempre ironicamente as mesmas e dum irrepreensível laconismo: Mas como compreender isso? A pressão psicológica tornava-se  insustentável à medida que o casal se sentiu cada vez mais isolados. Cada vez mais abandonados ‘à sua sorte’. Sentiam nos olhares alheios um sentimento de incrudelidade  não sem laivos de não disfarçada culpabilização. Muitos terão querido mas, por medo do ‘Homem Novo’, NINGUÉM ousou levantar a voz em defesa desse casal. Factos são factos!

Samanta deve ter sido dos únicos senão o único quadro técnico guineense desse perturbado período a ousar pedir demissão das suas funções, pedido esse que obviamente lhe foi recusado pelo então Primeiro Ministro.

Mas o rolo compressor continuou a funcionar com inegável eficácia. Os arquitectos e os executantes desse desumano projecto, só à altura de gente de baixa estirpe, não baixaram braços. Tentaram, sem sucesso, fazer que Samanta assinasse um documento comprometendo-se a participar com uma determinada soma correspondente a ‘uma parte dos recibos ou facturas’ supostamente rejeitados pelo Ministério de Finanças. E que dizer-vos das frases desrespeitosas que Samanta chegou a ouvir: Estamos a pensar que nos acompanhes ‘numa missão’ ao interior. Não tenhas medo, somos homens como o teu marido e podemos ‘dar-te’ tudo quanto ele te dá….Simplesmente desesperante!

Face  a essa insustentável situação e preocupadíssimos com a segurança dos filhos, Samanta e Moisés decidem fazê-los sair do País. Para isso puderam contar com os amigos no exterior que felizmente manifestaram uma inquebrantável solidariedade. E assim os filhos, a coberto de férias (…) deixaram definitivamente o País. Ainda hoje, já adultos, os mesmos guardam vivas sequelas desse brusco desenraízamento que só bem mais tarde lhes foi explicado, sem que o pudessem entretanto compreender. Como compreender o incompreensível?

Tentando o ‘tudo por tudo’ Moisés decide servir-se dos seus conhecimentos no seio dos cooperantes amigos  que lhe inspiravam confiança, de alguns responsáveis estrangeiros de financiamento de projectos, com a intenção de levá-los a fazerem chegar ‘aos ouvidos’ dos seus organismos internacionais de tutela, a insustentável  pressão a que Samanta vinha sendo sujeita a coberto duma Comissão de Inquérito. E creiam que esse ‘tudo por tudo’ não tardou a dar frutos.

Por uma questão de ética e a pedido de Samanta e Moisés que algum tempo depois deixaram definitivamente ‘essa’ Guiné-Bissau, não mencionamos o país que permitiu pôr fim a esse longo pesadêlo através duma pública interposição do seu Embaixador. 

Tentem, por tudo quanto vos foi relatado, imaginar o quanto não terá custado a Samanta e Moisés, a todos os outros jovens casais e pessoas singulares, ter que fazer malas, com alguns poucos haveres e uma constrangedora desilusão, para uma viagem que seria por óbvias razões sem retorno.

E quanto não terá igualmente custado a essa terra maravilhosa e acolhedora, desta vez algemada, amordaçada e silenciada, ver, impotente e desprovida de opinião, os seus autoproclamados ‘melhores filhos’ impedirem-na de colher gratuitamente os benefícios e o carinho desses muitos que sempre rejeitaram e até repudiavam essa pretensiosa denominação de ‘melhores filhos’ para se empenharem, isso sim, em ser ‘bons filhos’.

Essa terra maravilhosa e acolhedora que palpita, e para sempre palpitará nos corações desses casais e nos dos muitos mais forçados ao exílio, optaria alegre, radiosa e inquestionavelmente pelos seus ‘bons filhos’ em detrimento dos ditos ‘melhores filhos’ que, travestidos nesse ‘Homem Novo’ de triste memória,  tanto mal lhe fizeram e tanto mal continuam fazendo.

Tampouco podemos deixar de vos lembrar que  esse autoproclamado ‘Homem Novo’ de triste memória,  provocou no País uma verdadeira ‘debandada’ de quadros. Um êxodo massivo. Uma autêntica sangria de capital humano qualificado. Não faltará quem testemunhe…

Para breve o último texto sobre o ‘Homem Novo’. Continuem pacientes!