Galvas esteve em muitas…

Depois de se ter aventurado navegar em outras águas, o nosso Tatitataia, após um período de ausência mais longo do que lhe é hábito, retoma com imensa satisfação as suas funções, voltando aos temas mais consentâneos com os propósitos que justificaram a sua criação: Passadas, estórias e outras narrativas dos idos tempos do nosso saudoso Liceu Honório Barreto. Uma época que marcou profundamente uma geração de alunos e estudantes que frequentaram esse Estabelecimento de Ensino Secundário Guineense.

E se, desprovido de qualquer intenção de estabelecer hierarquias ou paralelos, digo uma geração de alunos e estudantes, como já tivera oportunidade de mencionar num dos Capítulos anteriores, se ainda me lembro no Capítulo 2,  é porque entendo ser de boa justiça diferenciar o que era entendido ou sub-entendido por aluno e por estudante.

Muito embora essas duas categorias tivessem ao longo dos anos vivido, digamos coabitado em perfeita harmonia e colhendo os benefícios duma mútua dependência que lhes assegurava uma equilibrada reprocidade de interesses, há que entretanto reconhecer, por uma questão de ética e esperando não ferir susceptibilidades, que, se todos os estudantes eram obviamente alunos do Liceu Honório Barreto, seria uma ousadia da minha parte assegurar-vos que todos os matriculados na mesma instituição, se tenham guindado à categoria de estudantes …

Seguramente que NÃO!

Finda a introdução, Tatitataia vai empenhar-se em narrar, entre muitas outras que oportunamente virão a conhecer, uma intrincada e difícil situação na qual foi protagonista um dos alunos do então: Tristemente célebre 3° B, 1958-59.

E esse aluno não é outro senão o João Galvão, o vosso ‘Galvas’, o número 15 desse inesquecível 3° B, turma constituída por um plantel de cerca de uma vintena de ‘alunos’ que, sem muita atribulação, viam passar os dias  mantendo, sem muito esforçar, aceitáveis e estáveis níveis de estresse. Essa vintena de alunos veio a ser enriquecida com a presença de cerca duma dezena suplementar de colegas que, desde o início das aulas levantaram o véu das suas reais aspirações para se mostrarem declaradamente empenhados em merecer o já mencionado estatuto de ‘estudantes’. Registe-se que essa turma de cerca de três dezenas de candidatos ao 4° ano, alunos e estudantes à mistura, foi um modelo de uma exemplar e indestrutível solidariedade. Quanto à representatividade diria tratar-se duma excelente amostragem do matiz social da Guiné de então, trazendo na sua composição um pouco de tudo. Mas passemos ao âmago deste capítulo!

A meio duma manhã que se esperava sem incidente, eis que o nosso Galvas se vê ‘premiado’ com uma falta punitiva. A saber que faltas dessa ‘categoria’ eram estatísticamente bem mais acessíveis aos que, descomplexadamente se deixavam ficar pelo modesto mas maioritário estatuto de alunos.  Os que, por mérito próprio se esforçavam por adquirir o nem sempre ambicionado estatuto de estudantes, eram muito menos atreitos a serem galardoados com esse tipo de ‘distinção’: Dar a César o que pertence a César! E aproveito para acrescentar que essa desumana forma de punir um ainda imaturo vulgar de Lineu em busca de equilíbrio emocional e não só, pode ser, e normalmente é, susceptível de terríveis consequências. Eu que o diga!

Pela sua gravidade, essa falta é registada ‘a vermelho’ no sacrossanto ‘Livro de Ponto’, o livro de registo de TODOS os acontecimentos ocorridos durante o dia e em cada aula. E o facto de ficar registada a vermelho queria tão somente significar que, no espaço duma semana o mais tardar, esse acontecimento chegaria ao conhecimento dos ‘Encarregados de Educação’, no meu caso os saudosos Eunice e Amilcar, através duma nota, entregue por mão própria, justificando minuciosamente a ou as razões que levaram o aluno a merecer essa tão pouco invejável ‘distinção’. Resumindo: ‘Dose para cavalo’!

Consciente da delicada situação criada e sobretudo das suas tenebrosas consequências, o nosso Galvas sabia não ter ‘tempo a perder’. O seu ‘plano’, não mais que um perfeito reflexo pavloviano em resposta ao contexto, teria que ser executado impreterivelmente nos escassos e únicos dez minutos de intervalo que lhe sobravam, entre os conhecidos 4° e 5° tempos, entre as 11h10-11h20. Era o ‘agora ou nunca’.

Escassos minutos depois das 11h10, o tempo necessário para que sua sala de aulas se esvaziasse dos habituais clientes, professor e alunos, o aluno Galvas, qual um GI americano numa rápida incursão, fez ‘desaparecer’ a fatídica folha incriminatória onde constava a dita falta punitiva. Todo esse relato para vos dizer que, com essa rapidíssima acção, o sacrossanto Livro de Ponto do 3° B, 1958-59, passou a ter uma folha a menos. Uma folha datada e numerada. A folha visada!

Uma vez o acto consumado o nosso Galvas começa a sentir, num clima de compreensível angústia e apreensão, o peso do seu gesto intempestivo. Porém, quando hoje me recordo dessa ousada irreverência juvenil, não posso deixar de voltar a enaltecer a já mencionada indestrutível solidariedade sempre presente nesse 3° B. Alunos e estudantes dessa turma ‘sui generis’, refugiaram-se num silêncio sepulcral. Que turma!

No dia seguinte e graças ao narrado acontecimento, o 3° B voltava às ‘Manchetes’ do Liceu. Indistintamente, alunos e estudantes de todos os níveis não poupavam palavras de apreço para com essa mítica turma. Sabendo-me ‘o’ responsável por essas palavras de profunda admiração não pude esconder um certo orgulho. Os meus próximos do 3° B que sem muita dificuldade reconheceram em mim o obreiro dessa façanha, diziam-me com palpável carinho e manifesto orgulho: Galvas bú ôssa. Sim sinhôr, Bú mátchú!, o que vale dizer: Galvas és corajoso, e provaste ‘tê-los no sítio’. ‘Ganda’ turma!

Como seria de esperar a Reitoria do Liceu não tardou a reagir ao ‘evento’ ocorrido no prestigioso 3° B. Qual pré-aviso de greve, a decisão tomada pelo Conselho de Disciplina redigida numa prosa desprovida de equívocos e ambiguidades e lida na sala de aulas do 3° B em audíveis decibéis por um funcionário da Secretaria do Liceu, fez saber à turma de que dispunha de uma semana com o dia do incidente incluso, para que o autor da proeza tivesse, por iniciativa própria, a hombridade de assumir as suas responsabilidades ou fosse, em última instância, denunciado por um colega de turma ou outro aluno em condições de sustentar a denúncia.

Mas, muito lamentavelmente, a decisão do Conselho de Disciplina não se confinava a previsões, hipóteses ou suposições. Ela também diagnosticava, caso não fosse encontrado o ‘culpado’ por uma das vias preconizadas, uma sanção colectiva, inédita do historial de sanções ‘medicadas’ no Liceu, pela qual a turma seria privada do direito às aulas por um período de três dias. Como podem constatar o ‘cerco’ se tornava cada vez mais exíguo em torno do nosso Galvas. Dizendo em bom creoulo: “Lála kéma, káu de sukúndi kâ tém”, o mesmo que, “Já não há por onde se esconder”!

Depois do ultimato do Conselho de Disciplina fiquei ciente de que os ‘serviços de contra-espionagem’ do Establishment já tinham sido activados através da acção de um dos seus mais eficazes agentes: O saudoso e querido Mussá Dabó, o sobejamente conhecido ‘Mussá Cowboy’, um ícone de luxo da História do nosso primeiro estabelecimento de ensino secundário. Essa carismática figura, por disfrutar duma confiança sem limites do saudoso Dr. Alfredo Pequito, o então reitor, estava sempre na primeira linha de combate qual um ‘Poirot’ da Agatha Christie na procura de solução para ‘casos’ como o presente incidente no 3° B.

Estava eu, durante um intervalo de recreio, encostado num dos grandes pilares do edíficio do Liceu, quando vejo aproximar-se em passo lento, Saná o ‘braço direito’ do mencionado Mussá Cowboy. Ao chegar a mim e depois de me ter lançado um olhar bastante significativo, meio inquiridor meio inquisitório, ‘abriu o jogo’ perguntando-me sem evasivas: Galbon, bú ôbi ké ke pássa na “Bó káú”? Por “Bó káú” (à letra, “Vossa casa”) entenda-se, 3° B! Quiz saber se eu estava ao corrente das ‘últimas’, ou seja, do ocorrido na minha turma. Breve, da folha subtraída ao livro de ponto.

Muito naturalmente disse-lhe que sim. E intencionalmente, mais não disse…

Não satisfeito com o meu exagerado laconismo o fiel emissário do nosso ‘Cowboy’, pretendendo ouvir-me ‘soltar a língua’, retorquiu: Galboooommmm, pâ nha mámé, âmi kú Déuss! I kâ abó ‘mé’ ke fâssi éss tarbádju? Mussa falâm kúmâ ‘dúnú’ déss târbádju i kâ ninguim fóra de bó… Traduzido: Galvããããoooo, com Deus por testemunho, afirma que não foste tu o autor dessa obra? O Mussá garantiu-me que ISTO só pode ser ‘obra tua’!

Sentindo as ‘luzes da ribalta’ querendo fazer de mim a ‘vedeta’ desse acontecimento, decidi irrevogavelmente resolver esse imbróglio pegando o ’touro pelos cornos’. E decidi fazê-lo no dia imediato à conversa tida com o  nosso amigo Saná e relatada nos dois últimos parágrafos. Urgia agir e agir eficientemente. Se assim pensei, melhor o fiz!

Um pouco antes do ‘toque’ para as aulas do primeiro tempo, 07H00-07H50, estava eu ‘plantado’ à porta do gabinete do saudoso reitor Dr. Alfredo Pequito, carinhosamente adjectivado de ‘Reitas’. Não podendo de modo algum deixá-lo sair sem que me ouvisse…., ousei bater à porta.

Um quanto surpreendido por essa presença matinal quiçá invulgar, convida-me a entrar e a ser breve no que de mim esperava ouvir. Levando a ‘lição’ sabida não me fiz rogado: Senhor Reitor, sou aluno do 3° B e não posso permitir que a minha turma seja sancionada por uma falta por mim cometida.  E finalizei: Fui eu o responsável pelo incidente com o livro de ponto, ocorrido a meio da semana passada. Não tenho mais a dizer senão apresentar-lhe as minhas desculpas e dizer-lhe que estou profundamente arrependido. E, como ‘me’ indicava a lição, comecei a chorar. Com soluços e copiosamente… e, sem se pronunciar mas comigo em ‘sentidos soluços’, abandonamos o gabinete e juntos caminhamos em direcção às salas de aula do chamado ‘edifício de baixo’ onde não havia nem turmas mistas e nem ‘A(s)’.

Fiquei entretanto agradávelmente surpreendido por sentir durante essa curta caminhada o braço do ‘Reitas’, bem afável sobre os meus ombros. Pelo contexto achei esse gesto um tanto exagerado. Mas continuei acompanhando os seus passos sem saber ao certo qual seria o nosso destino.

Absorvido pelos meus pensamentos, procurei, enquanto nos aproximávamos do Pavilhão de Baixo onde ‘residia’ o 3° B, tentar compreender a estranha atitude do Reitas, a meu ver pacífica em demasia e convenhamos, nada compatível com a gravidade da minha falta.  E mais inquieto me sentia na medida em que não se dignara, até esse momento, reagir às minhas sentidas lágrimas, copiosamente vertidas, e tampouco ao meu discurso de ‘mea culpa’, de certa maneira eloquente.

Sem a devida consciência do que se avizinhava, ao chegar ao Pavilhão de Baixo entramos numa sala outra que a do 3° B, decisão que inflaccionou os meus compreensíveis receios. Nessa sala, alunos e o professor de momento, o não menos saudoso Dr Caldeira Firmino, vulgo ‘Tell me’, ergueram-se como forma de dar respeitosamente as boas-vindas ao Reitor. E eis que, com todos os presentes em posição vertical, o Dr. Alfredo Pequito tomou a palavra…

Caros Tatitataianos,

A partir desse momento tudo quanto aconteceu nessa sala foi para mim, e creio que para a maioria dos presentes, dum surrealismo inultrapassável. Inconcebível. Indefinível.

O reitor Dr. Alfredo Pequito proferiu um breve mas inflamado elogio à minha modesta pessoa enaltecendo a minha coragem e a minha hombridade em ter assumido a inteira responsabilidade dos factos registados no 3° B e de todas as consequências possíveis. Com palavras rebuscadas próprias de quem exercia o professorado como um sacerdócio, procurou elevar-me a patamares para os quais não me sentia, e seguramente que não estava, infimamente preparado para neles me posicionar ou me guindar. Nessa fase do ‘meu campeonato’ a minha sala de troféus era extremamente diminuta e modesta para ostentar semelhante troféu.

Fiquei de tal maneira perturbado e estranhamente envergonhado que não ousei levantar a cara para enfrentar os compreensíveis olhares de estupefacção dos alunos dessa sala os quais conhecia do primeiro ao último. Nomes e apelidos!

Décadas depois desse  acontecimento, o meu colega e amigo Daniel Levy que pertencia à turma onde o reitor  fez uso da palavra, disse-me que o Dr. Caldeira Firmino, o nosso querido ‘Tell me’ esperou que o reitor abandonasse a aula para, suspirando fundo, desabafar: Este, conheço de ‘ginjeira’. Enganou  o reitor mas não a mim que conheço a ‘sua música’!…

Quando deixamos a aula do Dr. Caldeira Firmino o  reitor acompanhou-me ao meu 3° B onde, fazendo-me entrar, justificou à porta e laconicamente a causa da minha ausência dizendo: Este aluno esteve comigo a meu pedido. Feito isso regressou ao seu gabinete no Pavilhão de cima.

Estava eu ainda mal acomodado na minha carteira quando um colega do lado me diz sorrindo e orgulhoso: Galvas bú múnil! Bú munil quer dizer, Levaste-o a melhor. Isto era o 3° B! Que turma!

Imaginem o que seria de mim SE essa nota, “entregue por mão própria, justificando minuciosamente a ou as razões que levaram o aluno a merecer essa tão pouco invejável ‘distinção” tivesse chegado ao conhecimento do meu saudoso Amilcar, pai e encarregado de educação?! Felizmente que tal não aconteceu…

O Tatitataia promete fazer-vos deliciar mais aventuras do Galvas. Sejam pacientes!

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