2013 in review

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Here’s an excerpt:

A New York City subway train holds 1,200 people. This blog was viewed about 3,700 times in 2013. If it were a NYC subway train, it would take about 3 trips to carry that many people.

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Mário ‘Laclác’ num ‘incidente’ na Feira Popular de Lisboa!

TATITATAIA aproveita a presente narrativa para a todos formular sinceros votos de um Natal Feliz e de um 2014 com saúde, Paz de espírito e realizações positivas na vossa vida privada, profissional e sobretudo familiar.

Vão ter o prazer de conhecer mais um jovem guineense que nas décadas de 50/60 frequentou o saudoso Liceu Honório Barreto onde, à semelhança duns poucos, deixou peugadas. Esse jovem, respeitados os parâmetros definidos e mencionados num dos anteriores Capítulos do Tatitataia, enquadrou-se perfeitamente e sem ambiguidades no grupo dos alunos desse estabelecimento de ensino. Breve: A condição de aluno conquista-se de jure no acto de matrícula. Portanto, um matriculado no Liceu Honório Barreto assume de imediato o estatuto de aluno nesse liceu. Ponto final! Porém, a condição ou estatuto de estudante era adquirido (ou não adquirido…) em função das notas, para melhor dizer, das classificações obtidas ao longo do ano lectivo. Os matriculados com notas iguais ou superiores a 12 valores, iam perdendo o estatuto de aluno para se tornarem sérios candidatos ao estatuto de estudante.

O vosso Galvas, aferido pelos parâmetros que determinam a condição de aluno ou de estudante, é o exemplo perfeito de tudo quanto Tatitataia entende por aluno! Notas periclitantes e ausências não justificadas, só podem confortar o estatuto de aluno que reivindico para a minha frequência no Liceu Honório Barreto. Aluno certo, mas feliz como poucos. E que fique bem claro que o mencionado grupo de alunos foi sempre e orgulhosamente, maioritário ao de estudantes, o que permite ajuízar a qualidade do plantel dessa prestigiosa instituição de ensino secundário. E podem fazer-me confiança pois sei do que falo!

Mário Henrique da Fonseca e Sousa, saudoso Mário Laclác. Filho da falecida D. Emília Fonseca, telefonista reformada dos CTT de Bissau e irmão do também falecido Telmo de Sousa Mendes que chegou, este, a exercer, entre outras, a função de Secretário de Estado das Pescas na GBissau independente. Mas porquê o pseudónimo de Laclác?

Laclác porque o nosso amigo dava-se ao luxo de juntar as mãos por detrás das costas entrelaçando os dedos e fazendo depois passar os braços para frente e por cima da cabeça mantendo as mãos SEMPRE unidas pelos dedos entrelaçados. Ao longo dessa demonstração de flexibilidade fazia-nos ouvir, aflorando um matreiro sorriso de orgulho, um impressionante clác, clác, clác, clác das juntas parecendo estalar sob o efeito desse movimento que ele podia repetir quantas vezes quisesse sem manifestar quaisquer sinais de dôr ou de qualquer outro incómodo causado pelo exercício. E assim nasceu o pseudónimo Laclác com o qual Mário Henrique da Fonseca e Sousa desceu à terra…

Antes de abordar o incidente que serve de título ao presente ‘Capítulo’, far-vos-ei conhecer umas pequenas proezas do nosso Laclác, essas partilhadas com o meu amigo e bom Sportinguista António Pedro Delgado mais conhecido por Toni Porquinho pelos que frequentaram o Liceu de Bissau durante a década 1955-1965. Registe-se que esses pseudónimos, a exemplo de: Vaïnga, Lapin, Planton, Kul, Couves, Cotóvias, Kikia, Béton, Manél Cabéça, Espartano, Olilas, Ovo de Touro, Buick, Cunha Velho, Passarola, Pitosga, Téntém Orédja, Galã, Quarenta Orédja, Anôn Amarelo, Chico Bunda, Peter Obo e muitos outros que poderia mencionar, eram e continuam sendo aceites e citados com extremo carinho.

Começarei pelo acontecido numa das muitas festas de fim de semana em que os adultos participavam com bebidas ou contribuiam com uma soma préviamente estipulada para fazer face às despezas com os pratos e petiscos. Aconteceu que o Senhor Vani Cortez funcionário do então Banco Nacional Ultramarino tendo chegado atrasado e de mãos vazias a uma dessas festas, pede ao Toni e ao Mário presentes o favor de se deslocarem à Casa Afonso no Chão de Papel e não longe do local da festa para comprarem uma meia dúzia de garrafas de cerveja da marca Beck’s, a conhecida Beck’s Beer. Prestáveis como sempre, lá foram os nossos amigos ao Afonso comprar o que se lhes fôra solicitado. Entretanto, uma vez de posse das garrafas os nossos amigos tiveram a brilhante ideia de se ‘dessedentarem’ com o conteúdo duma garrafa. Uma vez vazia, melhor dizer esvaziada a garrafa, surge uma não menos brilhante ideia de enchê-la com água da torneira pública que existia em frente à Casa Afonso. Uma vez substituída a cerveja por água os nossos artistas, com algum engenho e arte repuseram a tampa fazendo TUDO para que o lote das seis garrafas se mostrasse homogéneo e sem quaisquer traços da citada violação.

De regresso ao local da festa, o nosso Toni, instruído pelo amigo Laclác, ao subir os primeiros degraus de escada e como préviamente combinado, deixa escapar a garrafa traficada que se desfez em estilhaços deixando escorrer por terra o líquido que continha. No entanto, em presença de muitos e bons peritos rapidamente ficou apercebido de que o líquido que escorria pelas escadas abaixo não era seguramente cerveja pois que não fez espuma. Porém a malandrice acabou por não ser sancionada graças à euforia alimentada pelas músicas, danças e naturalmente pelos copos…

Por essa proeza vemos o quanto o nosso Laclác era imaginativo e empreendedor. Colega do Porquinho na Escola Central Doutor Oliveira Salazar desde os verdes anos de instrução primária, esses inseparáveis amigos acabaram por formar uma equipa de futebol a que deram o nome de Académica à imagem da Associação Académica de Coimbra muito apreciada pela classe estudantil. Formar uma equipa de futebol não era difícil pois não faltavam adeptos e voluntários para partilharem a ideia. O realmente difícil era encontrar meios financeiros para comprar bola e demais equipamento.

E é nessa procura de recursos financeiros que o nosso Laclác a todos superava demonstrando o seu empreendedorismo! Assim e servindo-se duma folha de papel azul, denominada  papel azul de vinte e cinco linhas, confesso nunca ter contado as linhas…, o nosso amigo Mário redigia em boa caligrafia a seguinte petição,

<< Nós, jovens estudantes, desejando formar uma equipa de futebol e não dispondo de recursos necessários à aquisição de todo o equipamento: Sapatilhas, meias, bola, camisolas, calções e outros, vimos por esta via mui respeitosa e encarecidamente solicitar a V. Excias uma ajuda financeira para os efeitos mencionados. >>

Antecipadamente gratos,

Data e Assinatura.

Petições com esse teor eram levadas a quase todos os balcões das casas comerciais, nomeadamente as de Bissau Velho e no período das férias grandes, Julho-Setembro, durante as quais urgia encontrar meios de ocupar esse período de forma mais alegremente possível. E todos sabemos que a mais popular das diversões eram os jogos de futebol, sobejamente conhecidos por peladas. Quanto a equipas elas abundavam. Entre muitas citarei apenas algumas: Chão de Papel, Tchada Burro, Amura, Briosa, Os Malcriados….

E por falar dessas equipas aproveito para descrever uma situação hilariante e algumas vezes conflituosa que se registava amiúde nas confrontações dominicais entre a minha equipa, Futebol Club Os Malcriados (sim, existiu…) e a da Briosa de Tony Tcheka, Ganga, da família Moreno, Nando, Burdicas e outros.

Essa situação tinha como protagonista o meu amigo César Barbosa, vulgo Tchengo para uns e Tchengão para outros, filho do Senhor Francisco Barbosa, então Despachante Oficial da Alfândega e morador na Tchada de Burro por detrás do Hospital Central de Bissau.

O meu amigo Tchengão, como eu, defendia as cores do mencionado Futebol Club Os Malcriados do qual também faziam parte, Zezé Ortet vulgo Tchipda, Zé Café, saudoso Nando Ortet vulgo Tim Cobra, Carlos Anahory (Bebeto), Hugo Borges (Gui, meu irmão) e outros. Jogávamos horas perdidas, das 14 às 18, tendo por estádio o troço da rua da Amura em face à oficina do Senhor Melão e próximo do portão da Capela das Irmãs de Caridade no interior do Hospital Central de Bissau. Na altura, essa rua não asfaltada era palco de vibrantes encontros de futebol…

O saudoso Senhor Francisco Barbosa, mais conhecido por Chico Barbosa saía TODOS os domingos de mota e por volta das 14H levando aos ombros uma espingarda calibre 12. Segundo o filho Tchengo, esse Senhor ia caçar para as bandas de Safim e Nhacra ou algures depois do Aeroporto de Bissalanca. Quando passava pelo nosso terreno de jogo eramos obrigados, num gesto de respeito, a parar a bola para deixarmos passar o nosso respeitável caçador domingueiro. E procediamos da mesma maneira quando o mencionado caçador domingueiro regressava ao entardecer e por volta das 17H30.

Entretanto, como NUNCA nos fôra dado o prazer de vermos o nosso respeitável caçador exibir no seu regresso a mais modesta peça de caça, digamos uma perdiz (tchoca) ou uma fraca (galinha de mato), é óbvio que a petizada da pelada tinha imensas dificuldades em se absterem de formular um ou outro comentário menos acolhedor pelo facto de vermos SEMPRE o pai do nosso amigo Tchengão, o Senhor Chico Barbosa de regresso da sua caçada ostentar como troféu de caça, umas amarras de peixe fresco normalmente telápias mais conhecidas por bentanas! Francamente!

Como consequência dessa constatação que se repetia quase todos os domingos aquando das mencionadas peladas, assim que o ruído da motorizada do pai do Tchengão se tornasse perceptível ao dobrar da esquina do Hospital tomando direcção da Tchada de Burro o nosso amigo Tchengo, em antecipação e sob efeito duma boa dose de adrenalina, alertava imediatamente e em audíveis decibéis: Primêrú ‘fdp’ ke ábri bóka n’nâ mitil pé na kadéra! O que em tradução bem mais polida deixava entender que aquele que ousasse emitir QUALQUER comentário, acarretaria com as consequências…

Mas havia sempre um mais ousado para retorquir: Tchengo, tém passença! Bú pápé tâm, nâ fúguia bentana són, kilâ ninguim kâtâ múnil….Mas fiquem sabendo que esses comentários, os excessos de raiva e as prevaricações do meu amigo Tchengo eram proferidos todas as semanas em que houvesse pelada entre a Briosa e Os Malcriados e que o Senhor Chico Barbosa saísse para caça e trouxesse como troféu as citadas amarras de bentanas!

Que saudades desses tempos….

Esperando que o nosso Tchengão vos tenha proporcionado alguns momentos de boa disposição, passo à narrativa do acontecido na Feira Popular de Lisboa numa noite de verão de 1965 na qual o amigo Laclác foi uma vez mais, um protagonista de luxo.

Na qualidade de convidado e vítima dessa inesquecível sardinhada que teve lugar num modestíssimo restaurante da Feira Popular de Lisboa, ainda hoje e face ao ocorrido nessa noite de verão, não saberei de que adjectivos me servir para definir correctamente o nosso saudoso e muito querido Mário Laclác. Desinibido? Não basta. Muito pouco para os seus pergaminhos. Ousado? Seguramente. Irresponsável? De certa maneira. Enfim, o nosso Laclác era o somatório de tudo isso e alguém que dificilmente vacilava uma vez a decisão estivesse tomada. Saudoso Laclác!

Eu e o meu irmão Gui decidimos nessa noite de verão de 1965 dar um passeio à Feira Popular de Lisboa localizada no fim da avenida da República e do lado esquerdo de quem viesse do então Teatro Monumental em direcção ao Campo Grande.

No recinto da Feira, eu e o Gui palmilhávamos tranquilamente as ruelas pejadas de casas de jogos e de restaurantes para todos os paladares, quando ouvimos alguém chamar do alto da varanda de um dos citados restaurantes. Esse alguém não era outro senão o nosso Laclác que ordenou em voz bem timbrada: Galvas, Gui, bó súbi bó bim djudánu kumé mundu. A nossa adesão marcou o início duma verdadeira ODISSEIA, que acabou por ser minha, e óhhh quanto! Sigam a narrativa…

Quando subimos para saudar e agradecer ao Mário acompanhado pelo saudoso Teobaldo Barbosa e por dois moçambicanos que nos eram de todo desconhecidos, senti-me imediatamente invadido por um desagradável sentimento de frustração quando pude, através dum fugaz golpe de vista, inventariar o pouco que restava de tudo quanto pareceu ter sido uma valente sardinhada.

Muito sumáriamente registei uns dois cestos ainda com pães, outros tantos vazios ou com pedaços, umas duas travessas contendo já tristonhas saladas, uma travessa dando guarida a três ou quatro rejeitadas sardinhas, e finalmente não poucos jarros vazios com traços de vinho, o que me levou pensar num BACO, sublime, dino e, e, e condignamente venerado durante essa sardinhada. Enfim! Esse cenário impunha ao mais distraído observador aperceber-se e reconhecer que a missa, efectivamentente, já tinha sido rezada. E seguramente bem rezada!

Entretanto, só comecei a ficar seriamente preocupado e a sentir que algo não ia bem quando constatei que os comentários sem nexo, os sorrisos, risos e gargalhadas desse pessoal, não eram mais que reacções provocadas por uma cadeia de estímulos bem apadrinhados pelo Deus Baco: Álcool…até aos tímpanos! E ouvindo o Mário perguntar ao Teobaldo: Bú tené kumbú? Kántú? Quanto trazes contigo em dinheiro? E tendo por acréscimo dado conta que os moçambicanos tinham batido sola, então, decidi reagir.

A minha primeira reacção foi, entre dentes, dizer ao Gui: Vai fazer ‘chichi’ e NÃO VOLTES. Pira-te da Feira! Ao que o meu querido mano muito ingenuamente retorquiu: Não voltar porquê ?!?! Em resposta, só abri os olhos e as narinas seguiram exemplo (N’riguilil udjú…). Acabou por compreender, partiu e não regressou. A partir daí fiquei mais tranquílo e apto para, como diz a gíria: Responder ao que der e vier! Sigam a narrativa…

E assim ficaram, face a face: Mário Laclác e João Galvas!

E nesse fugaz face a face o nosso Mário enviou-me um largo e enigmático sorriso como que para dizer: Káu Fénhi, o que significa, estamos em maus lençóis. Imperturbável e sem me deixar impressionar, correspondi com um sorriso não menos aberto. Mas, a contratempo aventurou-se dizer-me: Abó tâm bú tâ bîm fêra só ku cinku péss na bolso, pôrra! Querendo dizer, vens à Feira Popular sem um tostão, que vergonha. Respondi com um enorme silêncio…

De permeio o empregado diz-nos: Meus senhores, o patrão quer fechar pelo que agradeço que paguem a continha…

E eis que vejo manifestar-se um Laclác demasiadamente fleumático que, ousadamente e sem titubeações, disse: Os nossos colegas foram incumbidos de ir buscar dinheiro para pagar a conta e penso que não devem tardar chegar. Porém, enquanto aguardamos que cheguem, agradeço que nos sejam servidas duas imperiaisinhas bem fresquinhas.

A reacção do patrão foi imediata: Acompanhem-me que vos levarei onde vos serão servidas as duas imperiaisinhas bem frescas. Sigam-me! E assim nos vimos, ainda no interior do recinto da Feira, numa estreitíssima esquadra de polícia onde fomos sujeitos a um breve interrogatório findo o qual nos foi solicitado o BI, bilhete de identidade.

Mas qual foi o meu espanto ao ver o nosso Mário que, ao sair incólume da esquadra me diz: Bú sibi, ami i militar. É kâ pûdi prindim. É na bim mânda informaçon pa nha Unidade…tudu manêra n’na djubi manêra de safáu! Ganda Laclác!

E assim ficou o pobre Galvas retido no citado recinto dessa esquadra até que um grupo de estudantes guineenses puderam vir em seu resgate. Ainda hoje não vos saberei dizer se a modesta soma de cinquenta e sete escudos e cinquenta centavos (da qual não consumi um avo…) terá sido paga pelos nossos estudantes do Lar sito na Av. Visconde Valmor ou se paga pelos nossos estudantes do Lar Santa Quitéria. Creio que pouco importa hoje saber quem pagou. Porém importa e muito, deixar registo dessa enorme solidariedade manifestada.

Espero que este episódio seja do vosso inteiro agrado. Mais outros virão. Sejam pacientes!