Mutaro Djaló, nas malhas da Função Pública!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Esta relato faz parte da minha experiência profissional e aconteceu a um dado momento em 1969-70.

Não sei precisar-vos o mês, mas os  factos desta narrativa ocorreram durante os primeiros passos da minha carreira profissional ao assumir as funções de delegado agrícola para a região de Bafatá, sob tutela dos Serviços de Agricultura e Florestas da então província ultramarina da Guiné Portuguesa. Delegado agrícola, um título demasiado pomposo para quem ainda só podia contar com os conhecimentos teóricos adquiridos na saudosa Escola de Regentes Agrícolas de Santarém em meados dos anos 60. Belos tempos!

Entretanto, ainda sem tempo para libertar-me desses saudosismos, eis-me num cenário de uma Guiné no apogeu da guerra, mas com a auréola do entusiástico paradigma de uma Guiné Melhor  e acerrimamente  defendido pelo recém-chegado governador, o  carismático general António Sebastião Ribeiro de Spínola, a braços com a espinhosa função de apoiar as populações no domínio das minhas ‘supostas’ competências isso, sem qualquer programa na minha pasta e sem recursos postos à minha disposição, tanto humanos como materiais. Aqui d’El rei!

Lançado em pára-quedas numa arena, outra que não a de César, fiz apelo de tudo quanto possuía em mente para inventar e reinventar atribuições susceptíveis de me fazer credível e, de alguma forma, justificar a minha ‘involuntária’ presença em Bafatá.

Comecei por inventariar os celeiros da região na sua grande maioria em notória degradação e mandar repará-los de maneira a poderem receber e manter as sementes em bom estado de conservação. E assim fui, de tarefa em tarefa, dando cautelosamente os primeiros passos no exercício dessa função de delegado agrícola.

Por limitações orçamentais, todo o trabalho administrativo das Delegacias Agrícolas das regiões administrativas da província era da exclusiva responsabilidade dos respectivos delegados dos Serviços de Agricultura e Florestas.

A exemplo, nos primeiros dias úteis de cada mês deslocava-me  aos Serviços de Fazenda onde recebia a folha nominal acompanhada do montante em dinheiro para  pagamento dos salários correspondentes ao mês findo.

Os pagamentos foram sempre efectuados na presença do guarda-florestal Joaquim Serra, ex-militar alentejano desmobilizado, o qual assinava a folha mensal de pagamento na qualidade de testemunha. A cada trabalhador jornaleiro era, com a prévia concordância dos mesmos, deduzido do seu salário a soma correspondente a um saco de arroz.

Para facilitar a compra do arroz destinado ao pessoal jornaleiro, fazia-se uma requisição a pronto pagamento, normalmente dirigida à conhecida Casa Pinheiro.  No momento do levantamento desse arroz, essa requisição era paga com o montante deduzido dos salários para esse efeito.

Uma vez na posse da mercadoria, o velho Land-Rover da delegacia transportava cada trabalhador à sua residência, acompanhado do seu saco com o precioso cereal.  Este procedimento repetia-se todos os meses e, se bem me lembro, sem nenhum incidente registado ao longo do período em que assumi as responsabilidades de delegado.

Com este intróito já bastante longo, é chegado o momento de abordarmos o nosso Mutaro Djaló e o seu nada modesto percalço contra o estatuído pela Função Pública: o organismo que ajuíza e avalia o comportamento dos servidores do Estado em função de normas preestabelecidas para o efeito. Aceitem a definição como correcta!

Num dia em nada diferente dos anteriores e fazendo horas para o jantar num café da ‘Baixa’ de Bafatá, vejo entrar o gerente da Casa Pinheiro, o senhor Albino Pinheiro que, dirigindo-se à minha mesa, perguntou se me sobrava tempo para ouvir o que tinha para me dizer. Ao aceder à solicitação, ofereço um lugar à mesa e convido-lhe a tomar uma bebida.

Saboreando uma chávena de café, foi-me pondo ao corrente da sua relativa inquietação quanto a uma requisição para levantamento de meia tonelada (…) de arroz, autenticada com o carimbo da Delegacia Agrícola e a aguardar ainda pelo seu pagamento. Não precisei de muita reflexão para prever um fraudulento acto de abuso de confiança. Para esclarecer esse problema, pedi ao meu interlocutor que se dignasse estar presente no dia seguinte na Delegacia, acompanhado do comprovativo de levantamento dessa quantidade de arroz.

No dia previsto, reuni na Delegacia os poucos funcionários susceptíveis de terem cometido esse acto fraudulento.  Na presença dos convocados, o senhor Albino Pinheiro não tardou a reconhecer o guarda-florestal Mutaro Djaló, não só responsável pela  falsificação da minha assinatura mas também pelo levantamento da mercadoria que constava nessa viciada requisição.

O culpado, que prontamente assumiu a falta, comprometeu-se a pagar a totalidade do arroz ilegalmente requisitado, não me restando outra alternativa senão participar o ilícito à sede e pedir a instauração de um processo disciplinar.

Na sequência da participação, o faltoso não tardou a receber um formulário com quesitos relacionados não só com o levantamento do arroz como também e, sobretudo, pela indevida e abusiva utilização do carimbo a óleo em uso na delegacia.

Poucos dias volvidos após a recepção dessa dúzia e meia de quesitos, o senhor Mutaro Djaló entregou-me uma magra folha dactilografada onde entendeu, bem à sua maneira e decididamente parco em palavras, responder ao que lhe fora solicitado.

Essa magra folha imortalizou a prosa abaixo transcrita, merecedora de melhor moldura do que uma vulgar pasta de arquivo repousando algures num armário na sede em Bissau…

Excelentíssimo Senhor Chefe dos Serviços de Agricultura e Florestas da Guiné Portuguesa,

Senhor Engenheiro,

Eu, Mutaro Djaló, guarda-florestal de 2.ª classe do Quadro Técnico dos Serviços de Agricultura e Florestas da Guiné Portuguesa, ‘tem a declarar sobre assunto de carimbo’:

Eu Mutaro Djaló e carimbo de Estado Português é como Pai e Filho no berço,

  1. Amor

  2. Amizade

  3. Amigo

Portugal é Continental do Mundo por uma Guiné Melhor.

Data e assinatura.

O inflamado teor desta declaração, impregnada de  um patriotismo de dúbia consistência, ‘virou’ a poção mágica que permitiu Mutaro alcançar a absolvição ….

O signatário dessa patriótica declaração era visto, amiúde, na companhia de um temido indivíduo de nome António Joaquim Chatinho Manjerico, funcionário da DGS, Direcção-Geral de Segurança, a nova face da ex-PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a terrível polícia política do regime salazarista.

É óbvio que, estando a Guiné em ‘pé de guerra’, essa relação acabou por ser do conhecimento da grande maioria dos funcionários públicos radicados em Bafatá, permitindo cada um e a seu jeito tomar as necessárias precauções!…

Esse Chatinho Manjerico foi responsável por hediondos actos de sevícia sobre muitos patriotas guineenses que tiveram a infelicidade de passar pelas masmorras dessa polícia política. De entre esses muitos patriotas figurou um dos fundadores do PAIGC, o saudoso Júlio Antão de Oliveira Almeida, dedicado e competente técnico dos Serviços de Agricultura e Florestas da então província da Guiné.

Júlio Almeida também foi guarda-redes e dirigente da UDIB.

Voltemos a essa homérica declaração!

Na sequência desse processo disciplinar,  fui chamado a Bissau a fim de esclarecer uma ou outra ‘passagem’ da minha participação sobre o fraudulento acto de abuso de confiança, pela falsificação da minha assinatura e, sobretudo, pela indevida e abusiva utilização do carimbo a óleo em uso na delegacia.

Em Bissau e no gabinete do chefe dos serviços, o agrónomo António Queiroga, um capitão miliciano chamado a assumir interinamente a chefia dos serviços durante um interregno causado pela exoneração do senhor Nuno Manuel de Carvalho Martins, um agrónomo proveniente de Moçambique há menos de um ano, diz-me o seguinte:

Senhor Borges, tenho instruções para não deixar este processo ir mais longe. Tome imediata providência para que o senhor Djaló pague o que indevidamente levantou na casa comercial que você menciona na participação e, em nome de todos os santos, ponha-me um ponto final nessa história. E que seja um ponto final sem parágrafo…

Perante essa bem esclarecedora decisão… respondi: não se preocupe! De regresso a Bafatá tomarei imediatas medidas para que tudo fique resolvido, em conformidade com o que acaba de determinar.

Creio ser do interesse dos nossos leitores saberem que, depois da independência da G-Bissau, o nosso Mutaro Djaló continuou exercendo não só as funções de guarda-florestal como também as de fervoroso guardião da revolução bissau-guineense triunfantemente ovacionada por todo o território nacional. Resumindo: um delator nato!

E, para finalizar este episódio, nada melhor que o sábio aforismo: Búli ke custuma balança, nim ke bento ka tem…alâ i na balança son!

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Daniel, o guigui mwangolé!

Querendo preservar o habitual prazer de oferecer aos seus prezados e simpáticos leitores algo diferente  das habituais estórias ou passadas estritamente guineenses e com o ex-Liceu Honório Barreto servindo de palco, Tatitataia fez recurso do enorme talento do guigui Daniel Gomes Nazaré e da experiência linguística adquirida pelo mesmo, no seio de uma comunidade angolana do Bairro de Brandoa, nos arredores de Lisboa. Dizer guigui, é dizer guineense.

Daniel começa a enraizar-se mais profundamente nessa comunidade através de um conhecido que muito cedo se tornou amigo: Domingos Francisco, vulgo Mêmo, colega de Faculdade e influente membro da comunidade de mwangolés, como são conhecidos os angolanos.

Para efeitos tidos por convenientes, a terminologia Faculdade, no presente contexto e mui ironicamente, refere-se ao mundo da Construção Civil. Assim, guiguis e mwangolés podiam, no espaço de um ano, frequentar mais do que uma Faculdade. A título de exemplo, diriam ter frequentado as Faculdades de Lagos e de Entroncamento se, nesse espaço de tempo, tivessem construído algo nessas duas cidades. Os locais de trabalho davam nome às faculdades.

Mêmo, dos poucos universitários mwangolés ao corrente da identidade guigui de Daniel e de Malam, aproveitava as farras angolanas de fim-de-semana, comummente baptizadas de momentos de birra farras bem regadas… para permitir que Daniel e seu inseparável Malam se familiarizassem com Xando, seu primo, e com os demais membros da comunidade. Essa apadrinhada integração permitiu a Daniel e ao não menos talentoso Malam irem dominando o mwangolé e, sobretudo, se aperfeiçoarem no bom uso das expressões mais recorrentes.

Com o decorrer do tempo, os dotados Daniel e Malam, por dominarem a gíria angolana com facilidade e mestria, acabaram por fazer pairar no seio dos mwangolés, uma persistente dúvida quanto à verdadeira identidade de ambos: guiguis, guineenses? cabujuras, cabo-verdianos? OU MESMO, MWANGOLÉS? Saibam que nessa comunidade, os guiguis também são adjectivados de guitarras e guimarús!

Do léxico mwangolé chamo especial atenção para a expressão ú-iii. Essa preciosidade, que não se lê como os monossílabos ui ou ai, pronuncia-se com um ligeiro compasso entre as duas sílabas ú e iii e significa, com alguma nuance: tipo, gajo, ou sujeito, assumindo a qualidade de um pronome indefinido, a exemplo de: kem kônhéci êssi ú-iii? Davidi, você kônhéci êssi ú-iii? Ou ainda, o bem recorrente: pai, kumú é ke é? Kem é êssi ú-iii? Proveniente do mesmo léxico, a expressão ‘pai’ demonstra afecto e respeito por qualquer interlocutor, podendo, por isso, substituir, tanto no princípio como no fim de uma frase, nomes próprios como: João, Pedro, Mutambo, Tiago, Xando, Djamila ou expressões do tipo “ó pá”, “senhor”, “amigo” e outras tantas!

Quanto à etimologia, essa mwangolice presume encontrar raiz na ‘well british’ Who is he/Quem é ele? que, passando pela contracção Who’s he, finaliza nesse bizarro ú-iii bem mwangolês. Mundialização a quanto obrigas!

Segundo Mêmo, a grande maioria dos mwangolés que, tal como Daniel e Malam, assegurava o ganha-pão em diferentes faculdades por esse Portugal fora, era oriunda da Região de Quibala. Esses quibalistas, entretanto, alimentavam um bairrismo bem chauvinista, sem ocultar um descomplexado sentimento de superioridade em relação aos poucos mwangolés não quibalistas, frequentando as mesmas faculdades.

Ao falar da gastronomia desses mwangolés, Daniel, oferecendo o melhor dos seus sorrisos, alertou Tatitataia para a bem vincada preferência dos nossos amigos quibalistas por uma variada gama de roedores, à semelhança dos esquilos, nossos sáninhos, joaquim doido, o popularíssimo djikim dór, farfanas, demais predadores nocivos à cultura de cana sacarina e, uma gama de omissos, desta lista, pouco exaustiva, quanto inclusiva! Para bom entendedor…

A propósito do nosso djikim dór, famoso por tudo quanto é canto na G-Bissau, Tatitataia aproveita a oportunidade para levantar o véu dessa tamanha admiração e levar ao conhecimento de todos quantos, eventualmente, ainda desconhecem as razões que tornaram esse roedor tão popular. Segundo lenda e contos, esse animal adquiriu fama (e prestígio…) ao demonstrar que, se lhe puserem à entrada da toca qualquer recipiente contendo aguardente, de cana ou de outra fruta, o nosso bicharoco não se faz rogado e, sem preconceitos ou parcimónia, esvazia o recipiente e, uma vez bêbado que nem um cacho, vagueia pelo interior da toca as vezes necessárias para proceder ao autodespejo da residência, numa espécie de autopunição ou, quiçá, em reconhecimento a quem lhe tenha infligido essa valente piela. E, uma vez finda a operação de despejo: todos os haveres postos fora da toca ficam, gratuita e indiscriminadamente, à disposição de qualquer passante de ocasião! Môkú kâ bâli…

Mas, voltemos aos nossos Malam e Daniel e seus mwangolés!

Numa bela tarde de setembro, Malam e alguns universitários aguardavam na estação de caminhos de ferro de Santa Apolónia que Daniel se lhes juntasse a fim de seguirem para a Faculdade de Entroncamento onde o patrão, responsável pelo ganha-pão desses briosos universitários, adjudicara um excelente contrato para construção de um supermercado com razoáveis dimensões. Uma rara oportunidade em tempos de crise!

Ainda em Santa Apolónia, os nossos mwangolés ficaram admiradíssimos, extasiados diria eu, com a facilidade com que Malam prestara esclarecimento a um pequeno grupo de turistas americanos pretendendo visitar o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. Motivado por esse feito, um mwangolé mais afoito, ao ver Daniel chegar, extravasa: Danieli, esse teu mano é meeesssmo truta (esperto, arguto, desenvolto). Truta meeesssmo. Te juro, meu!

Olha aí: esse ú-iii é truta. Você ke num sabi. É meeesssmo muuuito truta, pai! Ele chupa o inglês, chupa meesssmo. Pai, apareceu aí uns kamóne e êli começou aí a kuspiri o inglês para cima dêlis, pai. Os kamóne ‘queria’ ir a Belém e esse ú-iii explicou tudo para êlis. Explicou direitinho mesmo, xé, xé, xé, xé, xé! Tu divia di vêêêri, pai. Esse ú-iii kóspi o inglês, juro. Kospi melhori que você fala o portuga, meu. Num têiiiiima, pai! Nãããooo! Esse ú-iii, é meesssmo truta. Com Deus!

Um outro mwangolé, eufórico, convida o grupo para ‘rodadas’ de birra, repetindo: sim sinhôr, Malam. Tu é meeesssmo truta. Truta mesmo. Xeeee, tu mereeeci bué de birra. Juro meeesssmo! Vamos, tenho kumbú (dinheiro) para bué de birra (bué é, muito, bastante)!

E sempre num rodopio de elogios a Malam, o herói da tarde, o grupo lá se acantonou num bar, nas imediações da estação de Santa Apolónia para, de birra em birra, homenagear Malam enquanto aguardava a hora de partida do comboio para a Faculdade de Entroncamento. E quando partiram, convenhamos que, sorrisos, risos, conversas e tudo mais, já não eram determinados pelos mais adequados estímulos, pelo que já não diziam coisa que valesse coisa…

Entretanto, em dezembro de 1998, os mwangolés sofrem pesada perda. Morre o quibalista Domingos Xingo, pai de Xando e de Mana Mita, viúvo de Cecília Mohongo, tio de  Mêmo e, seguramente, de muitos outros. Não esquecer que, em África, o grau de parentesco é regido por parâmetros bem menos restritos, nem sempre baseados na consanguinidade: a afinidade por laços de sangue. Coisas nossas!

Com o supramencionado acontecimento servindo de cenário o talento de Daniel reforçado por uma ousadia de se lhe tirar o chapéu, fragilizaram a dúvida anteriormente mencionada. Efectivamente, a impressionante capacidade de improvisação de Daniel acaba por dissipar os sentimentos de dúvida que pudessem subsistir quanto à sua identidade. Com esse desempenho, Daniel não podia ser senão mwangolé! Impossível atribuir-lhe outra origem que não essa…

Aquando desse repentino quão doloroso desaparecimento físico, Xando, filho primogénito do falecido, assume o papel de anfitrião ao aceitar que as habituais cerimónias de apresentação de condolências, à semelhança das nossas cerimónias de tchur, tivessem lugar na sua residência, em Odivelas, no primeiro sábado após a data em que essa saudosa e prestimosa figura fora a enterrar.

É durante a cerimónia de apresentação de condolências pelo malogrado Domingos Xingo, na residência de Xando, algures em Odivelas, que Daniel revela toda a magnitude do seu talento, ao pretender assumir um genuíno mwangolé. Um desempenho digno de prestigiados palcos. Feito para ribaltas bem iluminadas!

Num salão repleto, Daniel, depois de ter feito sala ostentando um ar pesaroso, sublinhe-se, perfeitamente de acordo com as circunstâncias, ergue-se e, pausadamente, vence a distância que o separa da poltrona onde se encontrava Xando, anfitrião da cerimónia e primo do seu amigo Domingos Francisco, o conhecido Mêmo.

Quanto a Xando, não querendo, enquanto digno anfitrião, perder a face em benefício de um Daniel cada vez mais empreendedor, foi-se esforçando por exibir, de forma notável e com louvável constância, um semblante de profunda mágoa, só reproduzível por caricaturistas de renome. E, por acréscimo, fazia questão que os seus magoados soluços fossem audíveis e perceptíveis, de modo a poderem, com quantificado vigor, atingir os ouvidos e, porque não, os corações… dos presentes: mwangolés e os demais.

Quando Daniel, com um andar pausado e pretensamente inseguro, atravessa a sala e diz: ai Xando, ai Xando, em decibéis melodiosamente concebidos e propagados numa voz embargada por uma emoção notoriamente artificial, os mwangolés emudeceram, deixando a sala envolvida por um pesado silêncio, prontamente quebrado por Daniel através de uma encenação digna de registo. Os mwangolés, esses, atónitos, esforçavam-se por compreender esse quadro surrealista….

Qual carpideira experiente, solfejando ais e gemidos artisticamente coadjuvados por uma ou outra apneia a preço de saldo, assim quebrou Daniel esse curto mas respeitável silêncio: ai Xando, ai Xando, ai Xandoo-ú-ú-ú! E, ensaiando procurar alívio com umas sonoras e compassadas palmadas na coxa, em sintonia com assertivos menear de cabeça, continuou; ai, ai Mana Mita, ai Mana Miiitaaà! O nosso quêrido Domingos Xingo, bazzooouuu!

E, virando o rosto alternadamente, faz, em silêncio e com gestos repetidos mas comedidos, o conhecido menear de cabeça em sinal de inconformismo para com o desaparecimento físico do kota Xingo. Finda essa bem encenada série de ‘não de cabeça’, volta a manifestar: mas kê ke nós fez, Xando? Kê ke nós fez Xaaandooo?! Aiii, aiii Xanduuu, kumu é ke é Xando? Isto é muito. Muiiiito mesmo. Assim, nós num pode. Num pode, num pode mesmo. Aiiii Xando: e agora pai?!

Continuando, e com os acordes de uma voz cada vez mais fragilizada, ainda sobra a Daniel coragem para abrir a sua caixa de Pandora e deixar todo o mundo estupefacto ao dizer: o nosso Domingos, o kota que nos deixou, conhecia a minha história. Mi falou muito de meu pai. Iaaa, esse kota, êli, é irmão do meu pai. Com Deus, irmão mesmo!

Essa afirmação e as que se lhe seguiram, visando o suposto grau de afinidade entre Daniel e o kota Domingos Xingo, deram origem a um burburinho em crescendo, expresso por vozes desgarradas que deixavam transparecer uma latente incredulidade instilada no espírito dos consternados mwangolés.

A primeira a reagir foi Mana Mita: mano Xando, mas kumu é ke é o Danieli? Ké ke o Danieli tá falari?! Sobrinho do nosso pai, o kota Domingos? Nosso primo? Mas kumu é ke é? O Danieli deve ter chupado…. 

Para esclarecer essa dúvida, Xando faz apelo do seu primo Francisco, o Mêmo, que se aproxima para responder: Mêmo, mas kumu é ke é o Danieli? o mesmo que dizer: que história é essa?! ou, mas quem é o Daniel para falar dessa maneira do nosso kota Domingos Xingo?

Ao dar conta que o seu amigo Mêmo estava em dificuldade devido à intempestiva afirmação acima mencionada, Daniel aproxima-se de Xando com a intenção de amenizar uma situação que se degradava a passos largos. E, procurando contemporizar, diz: mano Xando, ouve só; o tio Domingos Xingo tinha um irmão que fez a guerra da Guiné. Esse irmão do tio Domingos Xingo, chamado Mastundo Xingo, êli é que me fez ‘nascêri’ na Guiné! Êli mesmo. Mas quem conhecia bem essa história mesmo: é a tua falicida mãããee; a minha tia Cécííília, ‘á’ Cécília Mohongo. Somos primos de verdade, mesmo. Com Deus, Xando!     

Atónito e visivelmente mal recomposto de tudo quanto acabara de ouvir de Daniel, Xando vira-se para Mêmo e, com semblante de poucos amigos, diz: mas kumú é ke é kota? Não ti pércebo. Então tu sabia que Danieli é nosso primo e tu não mi dizésti nada. Kumu é ke é, pai? 

Perturbado pela reprimenda de Xando, o pobre Mêmo faz seu acto de contrição dizendo: mano Xando, tu Kunhéci ‘o’ Daniéli mesmo. Esse ú-iii kóspi kafumba! Já num posso dizêri o que êli fala, se é vérdadi se é mentira. Êli fála sério, más também fála a riri, e nós fica sem sabêri si tá falando vérdadi si tá kafubándo. Com Deus, mano!

E é nesse conturbado contexto, de dúvidas e suspeitas que, guiado pela providência, surge um amigo de Xando, de nome João Quiteke, sobejamente conhecido no meio mwangolês, o qual, sem prévia intenção, acaba por permitir Daniel desenvencilhar-se dessa situação que se afigurava cada vez mais incómoda.

Uma breve resenha desse mwangolé define-o como inveterado farrista ao qual se atribuiu o cognome de chupa-grosso, por ser assumidamente indiferente a tudo quanto lhe fosse oferecido como bebida. Obviamente, alcoólica. Um mata-borrão!

Exausto de tanto esperar pelo melhor, pois que a tarde já se fazia longa, o nosso Quiteke, despido de quaisquer entraves, interpela Xando: mas kumu é ke é, kota? Para kê tanta confusão por causa desse Daniéli? Guigui ou mwangolé, primo ô não primo, mas ké ke muda, pai?  Vamos é chupari. Há birra ou não há birra? Que maka é essa? Sem birra nem cachaça, eu mi bazo. Juro!

Vocês só perde tempo a falári! Falári, só falári, aka! O ú-iii ke vocês chora (o falecido Domingos Xingo!) já bazou e não volta mais. Chorar não faz êli voltar. Volta kê? Deixem êli em paz. Vamos mas é aos copo!

João Quiteke, ao reclamar vinho e cachaça, não só põe fim à saga Daniel, como também leva a até-aí-silenciosa assistência mudar de semblante, deixando de ser artificialmente pesarosa para se transformar numa ruidosa, efusiva e extrovertida plateia de mwangolés.

Mais tarde, e com os vapores de muito álcool fazendo efeito, por conta da alegria generosamente posta à disposição em garrafas de vinho, cachaça, algum cachipembe ou kissângua, artesanais, a plebe, bem ensopada, galhofava carinhosamente com Daniel: avilo (amigo) chega só aqui. Então kumu é ke é? Qual é a tua maka, meu? O mesmo que dizer; qual é o teu problema? Ôvi, ôvi bem; si tu é guigui, si tu é mwangolé; você num ker nem mesmo saber mais. Num é? Essa maka, num é mais. Kabou mesmo. Você é di nóóósss. Num liga mais isso não!

Nós ti quéri muito. Muito mésmo, pai!

E, pela noite fora, houve birra a rodo, bué de birra….