Mutaro Djaló, nas malhas da Função Pública!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Esta relato faz parte da minha experiência profissional e aconteceu a um dado momento em 1969-70.

Não sei precisar-vos o mês, mas os  factos desta narrativa ocorreram durante os primeiros passos da minha carreira profissional ao assumir as funções de delegado agrícola para a região de Bafatá, sob tutela dos Serviços de Agricultura e Florestas da então província ultramarina da Guiné Portuguesa. Delegado agrícola, um título demasiado pomposo para quem ainda só podia contar com os conhecimentos teóricos adquiridos na saudosa Escola de Regentes Agrícolas de Santarém em meados dos anos 60. Belos tempos!

Entretanto, ainda sem tempo para libertar-me desses saudosismos, eis-me num cenário de uma Guiné no apogeu da guerra, mas com a auréola do entusiástico paradigma de uma Guiné Melhor  e acerrimamente  defendido pelo recém-chegado governador, o  carismático general António Sebastião Ribeiro de Spínola, a braços com a espinhosa função de apoiar as populações no domínio das minhas ‘supostas’ competências isso, sem qualquer programa na minha pasta e sem recursos postos à minha disposição, tanto humanos como materiais. Aqui d’El rei!

Lançado em pára-quedas numa arena, outra que não a de César, fiz apelo de tudo quanto possuía em mente para inventar e reinventar atribuições susceptíveis de me fazer credível e, de alguma forma, justificar a minha ‘involuntária’ presença em Bafatá.

Comecei por inventariar os celeiros da região na sua grande maioria em notória degradação e mandar repará-los de maneira a poderem receber e manter as sementes em bom estado de conservação. E assim fui, de tarefa em tarefa, dando cautelosamente os primeiros passos no exercício dessa função de delegado agrícola.

Por limitações orçamentais, todo o trabalho administrativo das Delegacias Agrícolas das regiões administrativas da província era da exclusiva responsabilidade dos respectivos delegados dos Serviços de Agricultura e Florestas.

A exemplo, nos primeiros dias úteis de cada mês deslocava-me  aos Serviços de Fazenda onde recebia a folha nominal acompanhada do montante em dinheiro para  pagamento dos salários correspondentes ao mês findo.

Os pagamentos foram sempre efectuados na presença do guarda-florestal Joaquim Serra, ex-militar alentejano desmobilizado, o qual assinava a folha mensal de pagamento na qualidade de testemunha. A cada trabalhador jornaleiro era, com a prévia concordância dos mesmos, deduzido do seu salário a soma correspondente a um saco de arroz.

Para facilitar a compra do arroz destinado ao pessoal jornaleiro, fazia-se uma requisição a pronto pagamento, normalmente dirigida à conhecida Casa Pinheiro.  No momento do levantamento desse arroz, essa requisição era paga com o montante deduzido dos salários para esse efeito.

Uma vez na posse da mercadoria, o velho Land-Rover da delegacia transportava cada trabalhador à sua residência, acompanhado do seu saco com o precioso cereal.  Este procedimento repetia-se todos os meses e, se bem me lembro, sem nenhum incidente registado ao longo do período em que assumi as responsabilidades de delegado.

Com este intróito já bastante longo, é chegado o momento de abordarmos o nosso Mutaro Djaló e o seu nada modesto percalço contra o estatuído pela Função Pública: o organismo que ajuíza e avalia o comportamento dos servidores do Estado em função de normas preestabelecidas para o efeito. Aceitem a definição como correcta!

Num dia em nada diferente dos anteriores e fazendo horas para o jantar num café da ‘Baixa’ de Bafatá, vejo entrar o gerente da Casa Pinheiro, o senhor Albino Pinheiro que, dirigindo-se à minha mesa, perguntou se me sobrava tempo para ouvir o que tinha para me dizer. Ao aceder à solicitação, ofereço um lugar à mesa e convido-lhe a tomar uma bebida.

Saboreando uma chávena de café, foi-me pondo ao corrente da sua relativa inquietação quanto a uma requisição para levantamento de meia tonelada (…) de arroz, autenticada com o carimbo da Delegacia Agrícola e a aguardar ainda pelo seu pagamento. Não precisei de muita reflexão para prever um fraudulento acto de abuso de confiança. Para esclarecer esse problema, pedi ao meu interlocutor que se dignasse estar presente no dia seguinte na Delegacia, acompanhado do comprovativo de levantamento dessa quantidade de arroz.

No dia previsto, reuni na Delegacia os poucos funcionários susceptíveis de terem cometido esse acto fraudulento.  Na presença dos convocados, o senhor Albino Pinheiro não tardou a reconhecer o guarda-florestal Mutaro Djaló, não só responsável pela  falsificação da minha assinatura mas também pelo levantamento da mercadoria que constava nessa viciada requisição.

O culpado, que prontamente assumiu a falta, comprometeu-se a pagar a totalidade do arroz ilegalmente requisitado, não me restando outra alternativa senão participar o ilícito à sede e pedir a instauração de um processo disciplinar.

Na sequência da participação, o faltoso não tardou a receber um formulário com quesitos relacionados não só com o levantamento do arroz como também e, sobretudo, pela indevida e abusiva utilização do carimbo a óleo em uso na delegacia.

Poucos dias volvidos após a recepção dessa dúzia e meia de quesitos, o senhor Mutaro Djaló entregou-me uma magra folha dactilografada onde entendeu, bem à sua maneira e decididamente parco em palavras, responder ao que lhe fora solicitado.

Essa magra folha imortalizou a prosa abaixo transcrita, merecedora de melhor moldura do que uma vulgar pasta de arquivo repousando algures num armário na sede em Bissau…

Excelentíssimo Senhor Chefe dos Serviços de Agricultura e Florestas da Guiné Portuguesa,

Senhor Engenheiro,

Eu, Mutaro Djaló, guarda-florestal de 2.ª classe do Quadro Técnico dos Serviços de Agricultura e Florestas da Guiné Portuguesa, ‘tem a declarar sobre assunto de carimbo’:

Eu Mutaro Djaló e carimbo de Estado Português é como Pai e Filho no berço,

  1. Amor

  2. Amizade

  3. Amigo

Portugal é Continental do Mundo por uma Guiné Melhor.

Data e assinatura.

O inflamado teor desta declaração, impregnada de  um patriotismo de dúbia consistência, ‘virou’ a poção mágica que permitiu Mutaro alcançar a absolvição ….

O signatário dessa patriótica declaração era visto, amiúde, na companhia de um temido indivíduo de nome António Joaquim Chatinho Manjerico, funcionário da DGS, Direcção-Geral de Segurança, a nova face da ex-PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a terrível polícia política do regime salazarista.

É óbvio que, estando a Guiné em ‘pé de guerra’, essa relação acabou por ser do conhecimento da grande maioria dos funcionários públicos radicados em Bafatá, permitindo cada um e a seu jeito tomar as necessárias precauções!…

Esse Chatinho Manjerico foi responsável por hediondos actos de sevícia sobre muitos patriotas guineenses que tiveram a infelicidade de passar pelas masmorras dessa polícia política. De entre esses muitos patriotas figurou um dos fundadores do PAIGC, o saudoso Júlio Antão de Oliveira Almeida, dedicado e competente técnico dos Serviços de Agricultura e Florestas da então província da Guiné.

Júlio Almeida também foi guarda-redes e dirigente da UDIB.

Voltemos a essa homérica declaração!

Na sequência desse processo disciplinar,  fui chamado a Bissau a fim de esclarecer uma ou outra ‘passagem’ da minha participação sobre o fraudulento acto de abuso de confiança, pela falsificação da minha assinatura e, sobretudo, pela indevida e abusiva utilização do carimbo a óleo em uso na delegacia.

Em Bissau e no gabinete do chefe dos serviços, o agrónomo António Queiroga, um capitão miliciano chamado a assumir interinamente a chefia dos serviços durante um interregno causado pela exoneração do senhor Nuno Manuel de Carvalho Martins, um agrónomo proveniente de Moçambique há menos de um ano, diz-me o seguinte:

Senhor Borges, tenho instruções para não deixar este processo ir mais longe. Tome imediata providência para que o senhor Djaló pague o que indevidamente levantou na casa comercial que você menciona na participação e, em nome de todos os santos, ponha-me um ponto final nessa história. E que seja um ponto final sem parágrafo…

Perante essa bem esclarecedora decisão… respondi: não se preocupe! De regresso a Bafatá tomarei imediatas medidas para que tudo fique resolvido, em conformidade com o que acaba de determinar.

Creio ser do interesse dos nossos leitores saberem que, depois da independência da G-Bissau, o nosso Mutaro Djaló continuou exercendo não só as funções de guarda-florestal como também as de fervoroso guardião da revolução bissau-guineense triunfantemente ovacionada por todo o território nacional. Resumindo: um delator nato!

E, para finalizar este episódio, nada melhor que o sábio aforismo: Búli ke custuma balança, nim ke bento ka tem…alâ i na balança son!

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5 thoughts on “Mutaro Djaló, nas malhas da Função Pública!

  1. Creio q o provérbio original seja “Um ladrão não deixa de ser ladrão por declamar poesia”, mas pelo Mutaro devemos alterá-lo para “Um poeta não deixa de ser poeta por usar indevidamente o carimbo de Estado Português” 🙂

  2. Gostei e, como habitualmente, ri-me imenso com a parte cómica da história, nesta manhã de 5.ª feira.
    No geral, para mim, é mais um dos ensinamentos que podemos retirar do Tatitataia. Este que explica muita coisa do estado em que chegou o estado das coisas neste país.
    Obrigado Tonton.

  3. Meu prezado irmão colaço, se bem te deves lembrar, nós estivemos deslocados em Bafatá na época que referes, tu na Delegacia Agrícola e eu nos Barbosas & Comandita. Mesmo assim, eram escassos os nossos encontros, a não ser na noite em que fomos deixar o Carlos Baromeu, teu auxiliar, em Bambadinca com bilhete só de ida.
    Este episódio demonstra bem um tempo de uso e abuso indevido do livre arbítrio por parte de gente sem escrúpulos, como é o caso deste guarda-florestal, escudados na sua condição de colaboradores da reles e odiosa polícia política em serviço na Guiné então portuguesa.Também conheci o “Chatinho Manjerico” em Pirada onde fui Encarregado do Posto Administrativo. Por acção dele e de um empregado comercial de nome “Mário Soares”, da firma Virgílio Nunes, em vez da promoção que me fora prometida em 1966, fui, sim, mandado reverter ao meu quadro anterior, nos Serviços de Obras Públicas e Transportes.
    Agora, francamente meu caro Galvas, é de partir o coco a rir, a poética resposta aos quesitos do Mutaro Jaló. Triste, mas muito triste, a actuação da hierarquia, afastada da sua função de punir um crime de abuso de confiança que nem sequer mereceu contestação do infractor.
    Aproveita agora o teu período de férias para te recauchutares e te apetrechares com novas ideias para o “Tatitataia” em que me revejo no teu humor, na tua irreverência e na tua erudição. Abraço.

  4. Ahahahah,…, Eu Mutaro Djaló e carimbo de Estado Português é como Pai e Filho no berço. Apesar da piada, oportunista e ladrão, é oportunista e ladrão. Ouvi pessoas no país mencionarem este nome com muita admiração. Sinceramente após ler este artigo, penso sobre a face oculta de certas pessoas e o perigo que representam. Para terminar, permitam-me mencionar: “Búli ke custuma balança, nim ke bento ka tem…alâ i na balança son!”

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