Insultar bem é uma arte!

Durante a minha recente estada em Lisboa, Junho 2014, um amigo de peito teve a gentileza de me oferecer um livro. Não se trata de um romance.  É algo bem diferente mas não menos interessante para o qual guardarei um religioso sigilo. E essa simpática oferta veio acompanhada da seguinte dedicatória: “Espero que te divirtas e municies as tuas crónicas com este ‘paiol”. Abraço fraterno.

E, seguindo essa sábia sugestão, Tatitataia decide partilhar com os seus simpáticos leitores e leitoras algumas saborosas passagens escolhidas nesse valioso ‘paiol’.

Passando a citar:

“À laia de introdução,

Insultar é uma arte. Ou, por outras palavras, insultar bem é uma arte. Deixem-me dar três exemplos que o demonstram.

Primeiro exemplo. Depois de escutar uma peça de Berlioz, Rossini terá comentado um dia: “Esse moço, Berlioz…Ainda bem que não faz música, senão fá-la-ia da pior qualidade.”

Segundo exemplo. Um dia na década de 60, o deputado brasileiro Carlos Lacerda acabara de discursar no Parlamento. Logo um outro deputado, seu opositor, terá comentado: “Excelência, todo o seu discurso foi inútil. Entrou-me por um ouvido e saiu pelo outro.” Lacerda retorquiu: “Impossível, caro colega. O som não se propaga no vácuo.”

Terceiro exemplo. Lady Astor, a primeira inglesa a ser eleita para o Parlamento, disse um dia a Winston Churchill: “Se você fosse meu marido, dar-lhe-ia veneno…” Ao que Churchill respondeu: “Se você fosse minha mulher, bebê-lo-ia…”

Claro que, a bem dizer, estes ditos não serão propriamente insultos; são mais pérolas de retórica. Mas que são magníficos, disso ninguém duvida; e que achincalham quem os recebeu, também me parece evidente. Mas não é essa a função de um insulto? E note-se que um (bom) insulto nem sequer tem de ser dirigido a alguém em especial (seja Berlioz ou Churchill) para ser um mimo. O mais belo insulto que já ouvi foi dirigido pelo humorista brasileiro Juca Chaves à humanidade em geral (ou, pelo menos, a alguns humanos): Se o reino dos céus é dos pobres de espírito, então, meu Deus, estamos no paraíso.

Na verdade este livro não se ocupa deste tipo de insultos frásicos – finos, verrinosos, contundentes, desarmantes e capazes de causar inveja a quem os ouve (que não à vítima, claro). Se iniciámos esta introdução citando-os, foi apenas porque quisemos cativar a atenção do leitor desde logo. Este livro limita-se a descrever a origem e a história de cerca de quinhentos insultos que todos nós conhecemos, melhor ou pior. Alguns, já os proferimos, em voz alta ou à sorrelfa; de outros já fomos alvo. Alguns, de tão elaborados, nem dão jeito proferir. Se o leitor não acredita, experimente chamar iconoclasta ou sevandija a alguém. Outros são comuns, brejeiros, reles mesmo. Perdem em elegância o que ganham em javardice. O facto de resultarem diz bem da decadência a que chegou a nobre e vetusta arte de achincalhar o próximo. São insultos que estão ao nível daquele provérbio árabe que afirma que até os coelhos são capazes de insultar um leão morto.

E se o leitor quiser ter um relance de como o insulto pode ser uma arte, tomo a liberdade de sugerir que passe os olhos pela longa fala de Cyrano de Bergerac, na cena 5 do primeiro acto da peça homónima. Nessa cena, e após um visconde ter insultado o seu nariz dizendo que ele era demasiado grande, Cyrano lança-se num solilóquio sugerindo variadas formas mais imaginativas e requintadas que o fidalgote poderia usar para insultar o apêndice nasal. Um tratado…

Aqui falamos de todos eles. Ou enfim, se não de todos, pelo menos de muitos, dos mais acutilantes aos mais arredondados. E também explicamos a origem de algumas expressões que, aplicadas a alguém, são injuriosas; afinal dizer de outrem que anda à gandaia ou que está com a careca à mostra em nada abona a seu favor.

O que é, enfim, um insulto? O seu próprio étimo responde à questão. A origem da palavra insulto e da palavra assalto é similar: insultare, em latim, significa literalmente saltar para cima. Daqui vem o assaltar e o insultar. Nas línguas latinas e no inglês, os dois verbos são parecidos (assaltar/insultar, to assault/to insult). É até curioso notar que, no inglês medieval, o termo to insult significava literalmente assaltar, atacar ou assediar militarmente…Assim sendo, podemos dizer que um insulto é um dito ofensivo, indecente ou grosseiro dirigido contra alguém; um insulto é um assalto feito à honra, à fama e à dignidade de alguém.

Já agora é bom que não se confunda insulto com injúria, já que na sua origem eram coisas diferentes. A injúria era, entre os romanos, uma violação do Direito (jus) praticada sobre alguém, isto é, era uma intrínseca injustiça. Um injuriado era um injustiçado e não um insultado.

Só na Europa a partir do século XII é que o termo injúria se aproxima do insulto, se bem que mesmo hoje não sejam exactamente sinónimos. Já o insulto era, como vimos, um assalto. Que esse assalto seja desferido com luva de pelica ou com luva de boxe é irrelevante; só muda o estilo.

Dir-se-á, claro, que o estilo muda muita coisa. É verdade. Napoleão dizia que Talleyrand, seu ministro, era uma bosta dentro de uma luva de seda. Aqui temos um insulto que tem estilo e boa forma. Ora como dizia Jean Renoir, cineasta francês de bom-nome e justa fama: a arte é a forma e nada mais que a forma. Por mim, concordo.

Por essas e por outras é que penso que insultar é bem uma arte.

E como agora regresso ao ponto de partida, já o sagaz leitor terá compreendido que aqui termino esta introdução e que é chegada a altura de começar a percorrer a longa história dos insultos portugueses: “Dicionário de Insultos”, Estranhas origens e bizarras histórias dos insultos portugueses, Sérgio Luís de Carvalho, Editora Planeta.””

Ficam assim conhecendo o ‘paiol’ que municiou esta crónica e municiará as próximas com idêntico sabor!

Tatitataia promete voltar brevemente para partilhar as delícias que tem encontrado no mencionado ‘paiol’. E que ‘paiol’! Só um amigo de peito oferece semelhante relíquia…

Sejam pacientes!

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5 thoughts on “Insultar bem é uma arte!

      1. Eu te digo! Vou falar com os meus amigos do SEF e nem te deixam entrar no país sem a garantia de que vens estar com a família! ;-))

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