Farim de Dindim Bankô!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Farim de Dindim Bankô é uma expressão popular bissau-guineense que se pode traduzir por: Farim, terra de alegria, terra de crianças e adultos felizes em festa. Resumindo: terra de paz!

Façamos votos que assim seja. Não só em relação a Farim como em todas as cidades, vilas e tabancas dessa Guiné que nos diz muito e onde muitos deixaram um grande pedaço de suas vidas, e não só. Que reine uma paz duradoura. Uma paz definitiva!

O nosso Tatitataia encontrou em Farim tudo quanto necessário para a presente narrativa. Nesse tudo estão envolvidos factos ocorridos: na piscina de Farim e durante a estada de quase duas semanas para mais um dos acampamentos da MP, Mocidade Portuguesa.

Começarei pelo episódio da piscina!

No período da manhã todo esse mundo de jovens roía as unhas na expectativa da  ‘luz verde’ autorizando a deslocação à piscina. Esse recinto abarrotado de gente na sua grande parte  vinda de Bissau, tornava-se particularmente atractivo pela presença de umas quantas miúdas em traje de banho.

No que diz respeito à escassa nudez dessas miúdas, meu Deus! Ó quanta testosterona em ebulição nos corpinhos desses jovens rapazes em ofegantes suspiros por essas donzelas, cautelosa e religiosamente protegidas pela bem apertada vigilância dos pais dessa época… Um verdadeiro tormento. Que injusto suplício!

A primeira vítima dessa testosterona em ebulição que, de forma generosa e equitativa, ia causando esses injustos suplícios nas hostes desses  pupilos da MP, foi um jovem veterano de nome Nélson Nogueira Fernandes, amplamente tido e aceite por ‘Nélson Couves’!

Eis que o nosso ‘Couves’, sob os devastadores efeitos de uma desproporcionada e explosiva mistura de testosterona e adrenalina, ambas de superior qualidade e actuando sob tutela de pacífica sinergia, sobe com invejável energia os degraus da estrutura em betão armado onde estão instaladas as pranchas destinadas aos mergulhadores.

Optando posicionar-se no mais elevado patamar tentou, através de um artístico mergulho, despertar as atenções de algumas das citadas donzelas, justa ou injustamente responsáveis pelo mencionado suplício.

Sentindo-se na pele de um Adónis guineense quis, através da sua iminente acção, fazer esquecer a elegância dos mergulhos de um John Weissmuller, na pele de Tarzan, herói da selva africana nos muitos filmes dos anos 50, rodados por todos os cantos da Guiné pelo saudoso Manuel Joaquim.

Qual pára-quedista, lança-se de braços abertos mantendo o corpo paralelo à piscina. Entretanto, do que se esperou ser um artístico mergulho acabou sendo, numa ínfima fracção de segundo, uma desastrosa aterragem: bate de chapa na água produzindo um sonoro splashhhhhh!

Dando sinais de extrema debilidade, foi imediatamente retirado da piscina e prontamente conduzido, não sei se ao hospital, se ao quartel de Farim para ser urgentemente submetido a cuidados clínicos. Hoje, não saberei dizer-vos, tão rápido foi socorrido, se o Nélson não terá perdido os sentidos como consequência do violento embate do corpo ao atingir a água da piscina, produzindo o tal sonoro splashhhhhh….

Porém, algum tempo depois fomos informados que o nosso mergulhador regressara ao recinto do acampamento sem problemas de maior e, portanto, livre de quaisquer razões para preocupações. Esse aviso foi acolhido com uma salva de palmas. Bons rapazes!

Mas esta longa prosa sobre o ambiente na piscina e sobre esse mergulho menos conseguido, tornar-se-ia insípida e injustificável, não fosse ela necessária para que compreendam a enorme decepção manifestada pelo nosso ‘Couves’.

Poucos dias depois, na piscina, e fazendo uso de tudo quanto ainda lhe sobrava de adrenalina,‘Couves’ dirige-se aos banhistas em alto e bom som: o meu terrível mergulho de há dias deu-me muito a aprender. Garanto-vos que, de futuro, nenhuma miúda, por mais bonita que seja, me levará a cometer o mesmo erro. Podia ter perdido a minha vida por conta de um par de pernas femininas. Bô ábri orédja: bô fika na sibi kuma nha mamé ka pâdim pâ nim um kualkér ‘badjuda de mérda’, bim matâm. N’na murri ba na nada….

Esses impropérios ficaram registados e produziram, mais tarde, efeitos bem negativos…

Cada acampamento da MP tem um acontecimento que o marca e que acaba por identificá-lo no futuro. A exemplo, o primeiro acampamento em Bolama guarda a triste memória do falecimento, por acidente ocorrido na praia de Ofir, do jovem Hélder Robalo ao lançar-se de um trampolim, situado a uns cinquenta metros da berma da praia.

Esse gesto, infeliz, efectuado quando  a maré não estava suficientemente alta para permitir que se fizessem mergulhos a partir desse trampolim, levou a que o malogrado, ao bater com a cabeça no fundo, viesse a falecer, vitimado por um traumatismo craniano.

O acampamento de Farim, esse, sem vítimas a lastimar, ficou conhecido por uma fuga nocturna de um punhado de pupilos da MP que, escapando à vigilância da milícia que pretensamente garantia a segurança no interior do acampamento, optaram por fazer gala de uma festa tradicional de batuque na popularíssima zona suburbana de Farim denominada Morkunda.

No momento da revista às tendas, a evidência de uma marcada baixa de efectivos levou essa milícia a reagir prontamente através de um imediato início às buscas. E com essa busca em mente, os mais experientes não tardaram em visar Morkunda como primeiro destino. Esse feeling foi excelente, pois regressaram com o saco cheio…

De regresso a Bissau e umas semanas depois do acampamento de Farim, efectuou-se à noite e no recinto dos jogos de basquetebol e de hóquei em patins do ex-Estádio Sarmento Rodrigues, a festa de encerramento do enésimo curso de comandantes de castelo da Mocidade Portuguesa.

Tendo frequentado esse curso, achei por bem convidar o meu saudoso velho a estar presente na cerimónia de graduação do filho (!!!…). Um convite a que prontamente anuiu, acautelando-se ao dizer: excelente promoção! De comandante da ‘cabulice’ a comandante de ‘castelo’, ambas em ‘c’ mas de conotações bem diferentes. Só espero que isso possa de alguma maneira contribuir para a média do ano lectivo porqueeeee….., o senhor sabe bem a que me refiro!

Esqueçam isso…

No mencionado recinto desportivo, os pupilos formados a rigor e ostentando a farda da MP, iam sendo chamados para passarem à tribuna de honra onde, orgulhosamente, recebiam os cordões e as divisas de comandante de castelo. O momento era acompanhado de alguma solenidade.

Entretanto, confesso ter começado, à medida que a chamada prosseguia e não ouvia pronunciar o meu nome, a sentir-me possuído por uma palpável angústia. Mas, ó meu bom Deus, quantas e quantas dessas angústias o vosso Galvas não coleccionou ao longo da sua felicíssima vida de estudante, perdão, de aluno do saudoso Liceu Honório Barreto?!

Os minutos seguintes justificaram essa angústia. Não obtive nessa noite a promoção. E com o meu saudoso velho na bancada central, aplaudindo-me pelo olhar. Meu Deus, esse regresso a casa?!

Ahhh, vim a saber mais tarde que para este insucesso contou, e substancialmente, a ‘evasão Morkunda’, em Farim, levada a cabo pelo mencionado punhado de jovens do qual fiz obviamente parte, bem como o nosso ‘Couves’, que também ficou, nessa noite, ‘kuntango’ de cordão e divisas de comandante de castelo.

De regresso a casa, caminhando ao lado do ‘velho’ e procurando, obviamente, manter uma distância de segurança, custou-me ouvi-lo dizer: ei, ‘meu caro senhor’, oiça e oiça MUIIIITO BEM; para a próxima não me convide a esse tipo de  festas, mesmo que o senhor venha a ser promovido a ‘general’.

Ai Galvas, Galvas…

 

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3 thoughts on “Farim de Dindim Bankô!

  1. Passei uma vez por Farim em Agosto 1974, gostei, para quem estava habituado a ver tabancas e depois ver casas em tijolo, foi uma grande diferença, falaram-me na piscina, mas não tivemos tempo de lá ir, eu também gostava de dar mergulhos dos sitios mais altos da piscina como fazia na piscina de Bolama, mas já estava habituado a dar mergulhos das árvores que estavam no rio da minha terra o rio Arade, tenho um episódio igual na piscina de Bolama com o meu Capitão Angelo Cruz, armou-se em heroi, disse se eu dava ele também, e tivemos que o ir tirar de dentro da piscina.

  2. João, meu querido amigo: fizeste-me rir até às lágrimas, como se costuma dizer, com as aventuras e desventuras em Farim. Gostei e dei boas gargalhadas, pois através da tua escrita, visualizam-se, não só os cenários, como também os “actores” em cena, as falas e os àpartes dos assistentes. Conta mais…fico à espera. Aquela com o “teu velho” foi o máximo!

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