Armando Salvaterra, vulgo ‘Vainga’!

Tatitataia de novo presente para o prazer de vos fazer conhecer e, ao dizer fazer conhecer, refiro-mo à geração mais jovem pois, os que frequentaram o então Liceu Honório Barreto nos anos lectivos vizinhos de 1960, não se permitem dizer que não conheceram o saudoso Vainga!

Essa saudosa figura marcou uma geração. A minha, da qual fazem parte muitos dos que se dão ao trabalho de ler  Tatitataia e, muito possivelmente, a geração seguinte que se foi  inteirando sobre essa figura que, como muitas outras, também marcou a década de 60 enquanto aluno do Liceu Honório Barreto.

Armando Salvaterra, Armandinho Salvaterra ou Vainga que, nos momentos de euforia, autoproclamava-se de Armando Das Sargóvias e Salvaterra. E quando em grupo se afirmava como tal, não era de todo parco nas habituais, sonoras e inimitáveis gargalhadas a que muito agradavelmente nos acostumou.

Bem poucos foram capazes de se evidenciarem e de se tornarem reconhecidos pelo riso, quanto foi o saudoso Armandinho Salvaterra. Só um outro nome me vem à mente: Filinto Cécil Nogueira Miranda, vulgo Katxetxi.

Falar de Vainga é viajar no passado e dispor de alguma memória para relatar as muitas situações em que se envolveu. Armando Salvaterra jamais poderia ser figura apagada. Não só durante o seu percurso académico como, também, já adulto nas mais díspares situações a que se viu confrontado. E não foram poucas…

São poucos os que frequentaram o Liceu Honório Barreto pós-1958 que não tenham algo a dizer do nosso Armando Salvaterra, tragicamente desaparecido num obscuro acidente de viação já no período pós-independência da Guiné-Bissau. Esse trágico acidente ocorreu em circunstâncias pouco naturais que nunca foram esclarecidas. Devo dizer que Vainga não morria de amores pelo poder instalado em Bissau a partir de Setembro de 1974!!!…

Depois deste já longo intróito, é chegado o momento de contar-vos, sem preocupações de ordem cronológica, algumas das muitas peripécias do inesquecível Vainga. Entretanto, por  tudo quanto venha a descrever, podem estar certos de que muito, muito mesmo, ficará por dizer sobre o saudoso Armandinho Salvaterra…

Em determinados dias de semana, a sede do Comissariado da Mocidade Portuguesa (MP), em Bissau que, mais tarde, deu lugar aos Serviços de Fazenda e Contabilidade, sito na Avenida Marginal, mesmo em frente ao símbolo dos Descobrimentos com os dizeres : Por mares nunca dantes navegados, abria as portas no período da tarde entre as 16 e as 18.30 para umas tantas actividades: Canto Coral, Culinária para as alunas, jogos como ténis de mesa (então mais conhecido por pingue-pongue), matraquilhos e outros. Faço saber que essas actividades tinham lugar em dias e semanas diferentes, portanto, sem possibilidade de sobreposição. O empregado, que nessa altura se encarregava da abertura e do encerramento desse Comissariado não era outro senão o saudoso Mansoa, vulgo Cara feia.

Vainga adorava o pingue-pongue e, entre os adversários mais assíduos no Comissariado da MP citarei: Alexandre de Carvalho (Papa de Mussá), João Cardoso, João Galvão, Olívio Mendes, Tony Delgado e, entre os menos assíduos, os brilhantes alunos João Armando Mascarenhas Araújo e Luís Augusto Rodrigues Fernandes, prestigiados médicos em Portugal. O primeiro, especialista em medicina interna e o segundo, cardiologista. Ambos de renome.

Entre as muitas experiências vividas nessas maravilhosas tardes passadas no Comissariado da MP apontarei a estratégia utilizada por Vainga para vencer-me nas nossas batalhas de pingue-pongue. E com esse método ganhava bem mais jogos do que os que esporadicamente perdia quando me enfrentava. Para que vos faça compreender melhor o nosso amigo, ele, ao bolar, fazia um breve compasso de espera que produzia um efeito desgastante na minha pessoa. Olhava-me desafiadoramente e, depois de fazer uso das suas habituais e por vezes enervantes gargalhadas, dizia: estás pronto? Olha que o meu bolar é tramado: ami nha bola i ka kualker kanadja ke ta panhal. Traduzido: o meu bolar não é para qualquer um; não é para o primeiro que chegue. E, para se tornar mais demolidor, acrescentava: si bu otcha kuma i ka bali pena n’pirdi tempu ku bo, anda bu dissa utru entra. Chatissa pá! O mesmo que dizer: se não te sentes capaz de enfrentar-me, dá lugar a outro. Esses sucessivos apoucamentos botavam abaixo o meu moral, deixando-me mais tenso que uma corda de viola e totalmente incapacitado para jogar o que sabia. E o resultado era, uma vez mais,  uma vitória do inesquecível Armandinho!

Deixemos o Comissariado da MP e passemos ao registo de alguns incidentes ocorridos no Liceu Honório Barreto e com o nosso Salvaterra no papel de vedeta…

Começarei por uma senhora de origem indiana: a dr.ª Palmira Lopes, professora de Ciências Físico-Químicas. Salvaterra sempre deu que fazer a determinados professores e, ao que parece, a dr.ª Palmira terá merecido uma atenção mais cuidada da parte do Armandinho. Pelo menos é o que consta… A comprovar, aqui relato apenas dois dos muitos momentos de desavença entre o aluno Salvaterra e a professora Palmira Lopes, incidentes ainda hoje presentes na memória de muitos dos que estão  lendo estas páginas.

O primeiro foi uma frase proferida com invulgar ousadia pelo Armandinho que, de viva voz e no decorrer de  uma aula de Física, disse à pobre professora, Palmira Lopes, o seguinte: a senhora foi a pior encomenda que o Pandita Nehru nos enviou.  Jawaharlal NEHRU foi o primeiro Primeiro-Ministro da Índia independente em 1947 e o grande arquitecto da Constituição desse país, elaborada em 1950.

O segundo, fica por conta da qualidade do português dessa mesma professora que, ao decidir um dia expulsar Salvaterra por mais uma atitude à margem dos preceitos estatuídos, aponta o dedo ao nosso Vainga e diz:  Salvaterra, vai fora! Ao que o nosso amigo prontamente respondeu: minha senhora, não tenho vontade. Já fiz fora esta manhã antes de vir para o Liceu. Ora bem! Essa resposta mais exacerbou a ira da professora, incapaz de compreender a ironia do Salvaterra.

Efectivamente, ir fora, bá fóra significa em crioulo: ir à casa de banho para satisfazer a mais comum das necessidades fisiológicas; defecar, cagar. Fazer cocó!…

Armandinho também deixou traços nas aulas de um dos ícones do Liceu Honório Barreto: o dr. Caldeira Firmino, professor de Inglês. O saudoso Tell me!

Sempre que solicitado pelo Tell me a dar resposta a uma questão, o nosso amigo fazia da palavra because um autêntico refrão. A resposta muito raramente passava da conjunção because. Because…., because…. because….. E daí não passava até que um irritadíssimo Firmino,  já pelos cabelos, o convidava a calar-se.

Vainga tinha por hábito meter nos pés os conhecidíssimos chinelos com duas tiras em espuma de plástico ou borracha que a gíria denomina sarampo e que os brasileiros chamam havaianas. Pois o nosso Tell me, por detestar esse meio de protecção aos pés, pressionava o nosso Vainga com constantes reprimendas. E, um dia, já cheio dos chinelos do Salvaterra, decide questionar: mister Salvaterra, Why are you steadly wearing these horrible man’s toe-thongs slippers instead of a decent pair of shoes? Por que te apresentas diariamente com essas horríveis chinelas havaianas em vez de algo mais decente? Seguramente que um colega mais conhecedor da língua inglesa terá traduzido a pergunta ao nosso amigo. Entretanto, se a pergunta veio em Inglês, o nosso Salvaterra, não se fazendo rogado, respondeu com uma fleuma bem britânica: Because….because….because n’ka tôpi nim um pésss! O que em Português corresponde a: porque não disponho de um centavo. Não tenho dinheiro…

Quanto às relações com as miúdas, Armandinho não denunciava a timidez própria dos rapazes adolescentes face às raparigas bem mais avançadas ou ousadas… nessas idades. Chegava, uma vez por outra, a aventurar-se dizer às miúdas, quando provocado ou desafiado: se n’panhau n’na rikitiu bunda! Se te apanhar, dou-te uma beliscadela nas nádegas…

Armandinho tinha no topo da sua longa lista de qualidades por ele mais frequentemente demonstradas: a arte de desmaiar. Eu não ousaria, porém, afirmar de que não era dotado para outros desempenhos. Quando muito, seria apenas menos afoito, menos desenvolto nas outras rubricas que tanto enriqueciam a sua mencionada arte de desestabilizar uma professora ou um professor com a finalidade de transformar os nem sempre suportáveis cinquenta minutos de uma aula em momentos bem mais agradáveis.

Tanta conversa para vos dizer que o saudoso Salvaterra era polivalente. Enfim, o aluno, o colega ideal para, em meia dúzia de palavras associadas a pequenos gestos raramente chocantes, apenas com conta e medida, fazer a adrenalina de qualquer professor ou funcionário afecto ao já mencionado estabelecimento de ensino, atingir os limites do clinicamente aceitável. Salvaterra foi esse aluno. Difícil descortinar alguém melhor que Vainga para assumir, sem reservas e com algum regozijo, esse tipo de incumbência.  

Quanto aos desmaios, citarei apenas dois!

O primeiro ficou por conta de um desafio, uma espécie de aposta.

Armandinho fez saber aos seus mais próximos colegas de turma, Tony Delgado, Olívio Mendes e João Cardoso, o seu bem presente desejo de cravar um pequeno-almoço ao saudoso reitor, dr. Alfredo Pequito, vulgo Reitas. Para ser mais preciso: uma sandes de fiambre e um copo de batido de groselha da Pastelaria Império de então, que pertenceu à família Estácio.

Para levar a cabo esse projecto genuinamente Vainga, Salvaterra pôde uma vez mais contar com os bons ofícios dos seus habituais compagnons de route, Tony Delgado, Olívio Mendes e João Cardoso: amigos e paus para toda a obra!

Antes do grande recreio, entre as 8.50 e as 09.20, visado para a materialização da aposta, essa pequena mas solidária associação de jovens comediantes fez questão de não deixar passar o fugaz intervalo das 7.50 às 8 sem dele tirar algum proveito, assegurando a primeira confrontação com o saudoso Pequito. Um bom desempenho nessa primeira confrontação era fundamental para o sucesso da aposta. Assim programado, melhor executado.

Precisarei, entretanto, de algum engenho para relatar, com minúcia possível, o brilhante desempenho e a coragem desses talentosos comediantes que permitiram a Salvaterra, em escassos 10 minutos, mui merecidamente ganhar a aposta lançada ao dr. Alfredo Pequito, o saudoso Reitas.

E vamos aos factos!

A postos para a acção, os nossos comediantes aguardaram que o dr. Pequito saísse da reitoria, situada no edifício de cima, a caminho do edifício de baixo, onde deveria leccionar uma aula no 2.° tempo, das 8 às 8.50.

Assim que calcularam o reitor a distância propícia para dar início ao projecto-aposta, os dois amigos de recurso posicionam-se, um de cada lado do pseudo-paciente e, num gesto de louvável solidariedade, transportam o nosso amigo Salvaterra que, segurado pelos braços passados à volta do pescoço de cada assistente e, também, amparado pela cintura por ambos os socorristas, esmerava em mostrar-se verdadeiramente diminuído fisicamente. Com esse cenário, foi permitido à assistência ver um frágil Salvaterra ser penosamente transportado por dois bons samaritanos. Esses comediantes chegaram a suscitar, através dessa cena, uma vaga de admiração associada a uma palpável incredulidade no seio da massa estudantil presente.

Uma cena verdadeiramente surrealista!

Entretanto, os dois excelentes comediantes feitos socorristas, ao se darem conta de um Pequito já próximo e um tanto estupefacto por esse quadro digno das melhores plateias, exibiram um invejável talento ao pronunciarem em comedidos mas perceptíveis decibéis: bolas, mas não há alguém que ajude?! Não vêem que o nosso colega não está bem?!

E, com esses dizeres, conseguiram extorquir do reitor a esperada pergunta pela qual vinham diligentemente obrando para que fosse pronunciada: mas o que se passa com esse miúdo, perguntou o reitor!

A resposta não se fez esperar…

Em boa voz e quase em uníssono, responderam: senhor reitor, o nosso amigo Salvaterra não jantou ontem e está neste estado, porque até agora não comeu nem um pedacito de pão. Nada, mesmo nadinha no estômago. O que ele tem é FOME!

Numa pronta reacção, o reitor, com manifesta autoridade afirma: não podemos deixar este garoto neste estado! E, aproximando-se de Salvaterra, interroga: o que te apetece comer, meu rapaz? Ao que um Salvaterra com ar meio abatido, fungando do nariz e emitindo uns soluços mal simulados, respondeu em voz titubeante: senhor reitor, uma sandesita de fiambre e um batidinho de groselha da Pastelaria Império.

Esse diálogo entre Pequito e Salvaterra, em que o último, com calma desnaturada e comovente humildade, pede  “uma sandesita de fiambre e um batidinho de groselha”, era merecedor de bem melhores plateias. Simplesmente sublime!

Um quanto apressado com o tocar da sineta para o início das aulas do 2.° tempo, 08-8.50, o dr. Pequito deixou instruções para que Salvaterra fosse conduzido a um exíguo reservado com ligação à secretaria situada no edifício de baixo. Acto contínuo, deu algumas moedas a um servente de nome Augusto para que o mesmo se deslocasse à Pastelaria Império a fim de comprar o menu que Salvaterra havia proposto para pequeno-almoço.

Dos rescaldos desse hilariante episódio ficou o registo de que Salvaterra, já meio recomposto, fez saber ao pessoal da secretaria de que já se sentia em condições de ficar só, pelo que prescindia da companhia dos colegas que até aí o vinham prestando cuidados. Esses dois colegas acabaram por regressar à sala de aulas sem terem podido colher o benefício da aposta para a qual tanto contribuíram.

Moral da história: o nosso Vainga, vitorioso e livre de qualquer concorrência…, pôde tranquilamente saborear o seu troféu convertido numa suculenta sandes de fiambre e num delicioso batido de groselha. Saudoso Armandinho!

O segundo desmaio foi fabricado numa aula de História orientada pela professora Leonilde Cabrita, mãe do Eng.° Lima Infante, um dos gerentes da então Sociedade Comercial Ultramarina. Como a aula estava sendo demasiado monótona e pouco aliciante, João Cardoso e Tony Delgado, inseparáveis amigos do nosso Salvaterra, acharam por bem solicitar os bons ofícios desse prezado amigo para que pusesse fim a essa aula que já se fazia um verdadeiro calvário.

Sentindo-se estimulado e engrandecido pela solicitação dos amigos, Salvaterra gesticula um braço em direcção à professora e diz: minha ‘cenoura’ e,  ainda sentado na carteira e com a frase por acabar, encosta a face direita da cara na carteira e deixa tombar os braços como dois pêndulos, um ao lado de cada perna.  Acto contínuo, João Cardoso e Tony Delgado transmitem à professora o diagnóstico: minha senhora, ai minha senhora, o Salvaterra desmaiou. Desmaiou, ai Deus, desmaiou. E fizeram um alarido…

Enquanto a professora se encarregava de comunicar o sucedido à reitoria, os bons samaritanos de serviço, Tony Delgado e João Cardoso, transportaram um fragilizado Salvaterra à casa de banho com a intenção de reanimá-lo através de uma boa molhadela na cabeça, acompanhada de algumas tapas no rosto… tapas essas, muito mal aceites pelo desmaiado que ia deixando escapar uns tantos impropérios.

De regresso da casa de banho, transportando pelos ombros e pela cintura um Salvaterra cada vez mais debilitado, esse trio teve a sorte de ser interpelado pelo professor Amaro, director da Escola Técnica (Escola Comercial e Industrial de Bissau), o qual, ao inteirar-se quanto ao preocupante estado de saúde de Armandinho, prontificou-se a levar ao hospital esse núcleo de excelentes comediantes.

Cómoda e principescamente instalados no banco traseiro do Cadillac do professor Amaro, não tardaram a chegar ao Banco de Socorros do Hospital Central de Bissau, hoje denominado de Hospital Simão Mendes. Para grande felicidade dos nossos comediantes, o professor Amaro, uma vez cumprida a missão de os transportar ao hospital, regressou ao seu posto de trabalho.

Vendo a viatura partir e livres de quaisquer constrangimentos, os nossos amigos orientaram a bússola rumo ao mercado principal, féra de praça, onde se regalaram comprando mancarra cozida (mancarra firbintidu), doce de mancarra e pouco mais. De regresso ao liceu a tempo de recuperar os haveres escolares…foram amplamente aplaudidos pelos colegas,  pelo gesto de solidariedade dispensado a um colega em dificuldade…

Assim eram os jovens dessa época. Entre esses (e por tudo quanto acabam de ler), Armandinho Salvaterra, enquanto ícone, merece estar num patamar acima dos demais: pela sua irreverência, sua graça, sua ousadia, sua criatividade e pelo muito que ficou por dizer dessa tão querida e estimada figura. Assim foi Armandinho Salvaterra

Ainda tenho comigo uma carta que o saudoso Salvaterra me endereçou nos últimos dias de Dezembro de 1972…

Tatitataia voltará a estar convosco o mais brevemente possível. Sejam pacientes!

 

 

Anúncios