2014 in review

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2014 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

A New York City subway train holds 1,200 people. This blog was viewed about 6,400 times in 2014. If it were a NYC subway train, it would take about 5 trips to carry that many people.

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Memórias de Varela!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Os acampamentos da Mocidade Portuguesa sempre foram aguardados com exaltante expectativa. Por um período raramente superior a duas semanas nos era permitido disfrutar da ausência, ou melhor, da não presença dos pais ou de qualquer encarregado de educação.

A autoridade a que nos sujeitávamos durante essas duas semanas diferia substancialmente daquela que nos era administrada, tanto em casa quanto nos estabelecimentos de ensino.

Os dias que antecediam esses eventos pareciam não ter fim. Apercebia-se no seio da camada jovem um fervilhar de entusiasmo acompanhado de enorme ansiedade. E a confirmar essa enorme expectativa, o que mais se ouvia dizer entre os muitos candidatos a essa evasão era: teus pais deixam-te ir? Sempre vais?

Ahhh, e fiquem sabendo: uma vez assegurada a luz verde para o evento, essa rapaziada,  durante os dias que precediam a partida, tornavam-se inquestionáveis modelos de bom comportamento fazendo uso de uma exemplaridade digna dos melhores padrões…

Varela sempre foi, e ainda é,  uma estância balnear bastante apreciada pela sua beleza paisagística, pela qualidade da  praia com seu areal a perder de vista, seu amplo eucaliptal, seu pescado e suas ostras…, clima e muito mais. Um nunca acabar de atributos que justificavam a enorme ansiedade que precedia o momento de partida para qualquer acampamento da MP com Varela por destino.

Para esse acampamento, optou-se viajar por mar de Bissau a São Domingos e, por estrada, de São Domingos a Varela, em camiões militares. Para a primeira fase da viagem contámos com os bons ofícios de um velho rebocador de nome “Bissau”.

Deixámos a capital ao fim da tarde e, a meio da manhã do dia seguinte, o barco acostou no modestíssimo porto de São Domingos.

Ainda me lembro que essa viagem foi terrível para muitos, dos quais fiz parte, que não resistiram ao baloiçar, às subidas e descidas provocadas pelas ondas, aos solavancos dessa casca de noz com pretensões a  navio, ao cheiro a óleo e a essa maresia cujo odor chegava ao cérebro.

Essa traumatizante experiência fez que não poucos desses ‘marinheiros’ em dificuldades se envolvessem numa espécie de competição de vómitos, tão desagradável aos ouvidos quanto à vista. À chegada a São Domingos, o semblante marcadamente triste e apático desses jovens retratava, plenamente, as agruras suportadas durante esse trajecto por via marítima….

E é nesse quadro de extenuação e desânimo, com uns quantos já merecendo alguma compaixão, que dois colegas mais idosos, frescos que nem folhas de alface, decidem, antes de o barco acostar, passar breve revista às mochilas.

Depois de tanta atribulação, esses jovens, com evidentes sinais de prostração, já não dispunham de  energia que lhes permitisse reagir com adequada firmeza a essa violação de propriedade alheia a céu aberto.

Os responsáveis por esse exercício foram o saudoso Demóstenes Victor Robalo, dito espartano, e o ainda presente Nélson Nogueira Fernandes, mais conhecido por Nélson Couves.

Que fique bem claro, entretanto, que essas brincadeiras, absolutamente isentas de todo e qualquer propósito menos dignificante, nada tinham de comum com as actuais praxes violentas denominadas bullying:  intimidação pelo uso da força. Essas picardias não tinham outro objectivo senão o de optimizar esses raros e episódicos momentos de liberdade. Puro divertimento!

Como modus operandi, os autores dessa série de intrusões começavam por  inventariar o conteúdo das mochilas interpelando os proprietários das mesmas. E se decepcionados com o recheio de uma ou outra, interrogavam com uma certa aspereza: ei, ouve cá; a tua mãezinha só te deu isto? Seu egoísta, porque é que não disseste à tua mamã que te desse um pouco mais para partilhares com os teus amigos? N’tam bú ka fala bu mamé kuma bu tené kolégas? Kata burgunhu!

E, em constante diálogo, iam assumindo papel de juízes: olha, este só trouxe um pacote de bolachas; tomo ou deixo? Toma! Para a próxima ele saberá que há mais quem goste de bolachas. Si pâpia, koquil. É pá, waauuu! Temos atum que chegue…, o pai deste deve ser  comerciante: ah bom? atum n’pagâi? Sobra gajo duss lata pô. Duss lata na tchigal toke i sobra, sisss, m’tchssss! Si mérmeri, kokil, kim ki el? É óbvio que essa colecta era acompanhada de alguns aplausos e, naturalmente, de muitos resmungos proferidos em surdina. Porém, sempre numa boa!

Em São Domingos, antes de prosseguirmos viagem em direção a Varela, tivemos direito a uma refeição à base de sanduíches prenhes de um cornbeef próprio para famintos e acompanhadas por um café bem à tropa, o qual, pela sua qualidade, forçava  a flora intestinal a actividade suplementar…

Bem comidos e melhor bebidos, de mochilas aviadas e confirmado o efectivo vindo de  Bissau, a caravana deixou São Domingos a caminho de  Varela entoando, entre outras,  o bem conhecido hino da MP:

Lá vamos, cantando e rindo; Levados, levados, sim; Pela voz, de som tremendo; Das tubas, clamor sem fim…………..

E assim, de cantiga em cantiga e com muita galhofa, acabámos por chegar a Varela algumas horas depois.

Em Varela, temendo ver o Sol esconder-se no horizonte, foi numa trepidante azáfama que o pessoal, de mangas arregaçadas, se meteu a montar as tendas de campanha onde pequenos e grandes pernoitavam.

Os primeiros dias de estada serviam para matar saudades da maravilhosa praia e adquirir o ritmo das tarefas rotineiras dos acampamentos: cantina, provas desportivas, os longos serões ao redor da chama da MP, o recolher e os provocatórios actos de indisciplina que se lhe seguiam…

Esses actos, apimentados de muito humor, ocorriam quase sempre após o toque de recolher e visavam, normalmente, o chamado corpo de milícias de vigília ao acampamento.

Esse corpo de milícia, composto por indivíduos nem sempre graduados e aguardando incorporação militar, assumia entre o toque de recolher às 22.30 e o de alvorada às 7 e, através de efectivos revezados, o controlo  e a segurança do perímetro onde ficava instalado o acampamento. Em linguagem corrente, ficavam de plantão durante o intervalo acima mencionado.

E é entre esse toque de recolher, às 22.30, e o de alvorada, às 7 e em noites não consecutivas, que tiveram lugar duas saborosíssimas passadas que Tatitataia tem o prazer de fazer constar na ementa que hoje vos propõe saborear!

A primeira, como já vem sendo hábito, foi toda ela confeccionada pelo vosso Galvas.

Na tenda e depois do toque de recolher, sintomas de relaxamento do esfíncter,  sinónimo de iminente defecação, me pressionaram ao imediato abandono desse abrigo…

Sob pressão dessa ameaça e na ausência de uma acautelada vigilância da parte dos plantões, abandonei a tenda  muito sorrateiramente e, levando Deus comigo… embrenhei pelo eucaliptal a coberto de uma meia escuridão.

A um dado momento, com os calções ao nível dos joelhos, ponho-me de cócoras e, aí, vai de me aligeirar de tudo quanto o organismo entendeu por bem rejeitar. Devo dizer-vos que essa fisiológica acção de despejo foi sempre acompanhada de uma agradável sensação de felicidade…

Entretanto, atento ao menor ruído e ainda sob os efeitos dessa fugaz felicidade, senti-me repentinamente invadido por esses medos, cujas origens desconhecemos e que nos causam arrepios. Instintivamente e qual um sapo ou uma rã, dou um salto em frente. Mas o que aconteceu na imediata fracção de segundo é indescritível.

Foi num virar de cabeça que dei conta de uma pachorrenta vaquinha desgarrada que, depois de me ter acariciado o ânus com uma primeira bem-sucedida lambidela, saboreava descomplexadamente alguma porção do que eu me vinha aliviando. Baka limbim bunda!

Em sobressalto, num ápice e sem reflectir, dei ‘às de vila-diogo’. Bati á sola…

Essa fuga, ainda com os calções a meio das pernas e acompanhada de não modestos impropérios, fez-me tropeçar numa das cordas ou espias que seguravam as tendas e estatelar já muito próximo da estrada e sob os olhares de um ou dois milícias mortos de riso pelo meu ar esbaforido e meio envergonhado.

Como resultado dessa escapadela, vi-me na manhã seguinte privado da ida à praia e, mais tarde, na companhia de outros dois punidos por diferentes razões, ocupámo-nos da limpeza do espaço reservado para o serviço cantina.

Não só pela fuga, mas também e, sobretudo,  pela sui generis reacção dessa pachorrenta vaquinha, foi-me muito carinhosamente atribuído uma alcunha, algo que ainda perdura. Entre os que mais contribuíram para a propagação dessa alcunha figura o saudoso António Augusto de Oliveira Marques, o Tony Marques para os contemporâneos e amigos.

Hoje, os dedos de uma mão superam e bem o número dos que ainda me dão o enorme prazer de ouvi-los chamar-me  por essa alcunha. E como fico embevecido!

Mas não percamos tempo. Vamos à segunda passada, bem mais saborosa!

Os já mencionados sintomas de relaxamento do esfíncter, o que, em linguagem corrente, significa vontade de evacuar, foram  a causa principal das frequentes evasões nocturnas à semelhança da que nos brindou o criativo Galvas, useiro e vezeiro em envolver-se em situações susceptíveis de reprimenda. O protótipo de bulidur!

Essa segunda passada relata uma situação que, por dificilmente concebível, fez eco por todo o acampamento e, mais tarde, em Bissau.

Convém entretanto sublinhar que o incidente do Galvas não se reproduziu a papel químico na medida em que a nova vítima de mais um relaxamento de esfíncter rectal optou por não abandonar a tenda. Questão de estoicismo!

O acesso à cantina era efectuado em fila indiana e controlada pelos elementos da milícia. Aproximávamo-nos por sectores e, ao chegar à mesa onde eram servidas as refeições,  separávamos as peças da marmita de modo a receber o que era o rancho do dia, o qual não ia muito além de sopa, arroz, um prato de feijão com carne ou qualquer enlatado e um pedaço de pão. A água era distribuída e cada um encarregava-se de encher o seu cantil.

Esse segundo incidente acabou mui naturalmente por ser mais amplamente divulgado, por ter ocorrido à hora do almoço e, na presença da quase totalidade do efectivo dos jovens acampados.

O momento mais hilariante acontece no instante em que um dos pupilos, o conhecido Tonecas Parente, ao abrir a marmita para receber a ração, constata com enorme estupefacção, que uma das peças da mesma, não estava vazia…

E por mais inverosímil que vos possa parecer, essa peça da marmita do jovem Tonecas arrecadava um volume pouco invejável de cocó.

Sim, cocó, comummente denominado fóra em crioulo. Não podia haver margem para dúvidas. Cheiro, côr, textura, aspecto, enfim, tudo correspondia aos parâmetros ou requisitos que definem essa massa que o organismo humano rejeita pela via rectal.

Não dava lugar a especulações. Cocó e nada mais que cocó!

Sabendo com quem partilhava a tenda, o nosso Tonecas, vermelho de raiva, vira-se num ápice e, sem perda de tempo, dirige-se à pessoa visada dizendo: ó meu grande sacana, em tua casa tu cagas em marmitas? Olha, só te digo o seguinte: procura onde dormir esta noite porque se voltares a entrar na minha tenda eu parto-te o focinho. Mas os impropérios não se resumiram a esses. Pudera!

O visado não era outro senão o saudoso Coelho de Mendonça, vulgo lapin, colega de tenda do nosso Tonecas Parente, mais tarde conhecido como treinador de algumas equipas de futebol da Guiné a citar, entre outras, o Benfica e o Ténis Clube de Bissau.

E foram esses os episódios mais marcantes do segundo acampamento da MP em Varela e, por algum tempo, bastante lembrados em Bissau pela camada jovem!

Tatitataia voltará a estar convosco o mais breve possível. Sejam pacientes…