Apodos, Epítetos do Dicionário de Insultos de Sérgio Luís de Carvalho.

Prosseguindo o tema anterior: insultar bem é uma arte, volto a consultar o Dicionário de Insultos, Estranhas origens e bizarras histórias dos insultos portugueses, Sérgio Luís de Carvalho, Editora Planeta”, para partilhar convosco a longa história dos insultos portugueses levada a conhecimento público com muita perspicácia e elevado sentido de humor na obra supramencionada.

E sigo partilhando novos achincalhamentos:

“Andar à gandaia…

Temos (depois) aqueles que passam a vida a andar à gandaia. Acham que não é um insulto? Pois bem, se se disser que isso significa andar sem fazer nada de útil ou, noutra asserção, andar à má vida e na vadiagem, convenhamos que não é coisa boa, pelo menos. A origem da expressão é espanhola (andar a la gandaya) e significa o mesmo que entre nós. No século XIX a expressão designava aqueles miseráveis que revolviam os lodos do Tejo à cata de algo aproveitável. Eram os pobres que andavam à gandaia.”

“Andar à nora…

Não tão mau como andar à gandaia é andar à nora, coisa que todos sentimos em alguns momentos da vida. Tal como o epíteto refere, isto está relacionado com as noras (não as noras de família, mas as de lavoura), aqueles instrumentos agrícolas para extração da água que giram sempre sem cessar, por vezes movidos por um animal que anda sempre às voltas (à nora). Soa familiar?”

“Andar à toa…

Sinónimo do anterior é o andar à toa. Curiosamente, a toa é corda ou tira de cabedal que serve para conduzir os animais. No fundo, para além do significado similar, também estamos a falar de bichos que são conduzidos. À toa ou à nora…”

“Andar à zorra…

Continuamos com os bichos e com os andamentos. Passemos ao andar à zorra, epíteto um pouco desatualizado (anacrónico, pois) que designa uma pessoa dissimulada e cínica. Ora sucede que zorra é o termo popular para a raposa, canídeo esperto e vivaço. Lembram-se do Zorro? E lembram-se do Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro? Esqueçam o Zorro e leiam o nosso Aquilino…”

“Andar ao deus-dará…

Semelhante ao andar à gandaia, é o famoso andar ao deus-dará. Coisa a evitar e que pode ser atirada como um insulto a alguém. Esta expressão remete para a história de Manuel Álvares, comerciante seiscentista português radicado em Pernambuco. No seu tempo, era comum haver salários em atraso entre os soldados da guarnição lusa. O comerciante, piedoso e solidário tranquilizava a soldadesca dizendo “Deus dará”. E dava. Na verdade era ele quem garantia os víveres e o sustento dos pobres militares. Por posterior mercê régia, acrescentou o apelido Deus-Dará ao seu próprio nome e até recebeu brasão com esse mesmo mote. Ainda há gente generosa e reis reconhecidos. Seja como for, e curiosamente, o termo passou a designar pessoas ociosas que vivem de mãozinha estendida, podendo até ser insultuoso. O tempo é cruel…”

“Andar aos bordos…

andar aos bordos é próprio dos bêbados. Por isso, se dito a alguém, é insulto e ponto final. A génese deste termo leva-nos à linguagem ou à vida náutica, mais especificamente a bordo dos navios que, oscilando pelas vagas do mar, nos fazem andar aos bordos. Como os bêbados. Em sentido figurado, andar aos bordos na vida é andar de cá para lá sem rumo certo.

Uma representação exemplar do andar aos bordos figura numa célebre cena de um filme de Chaplin, O Emigrante, quando, num navio em plena tempestade, um grupo de migrantes tenta comer à mesa… A não perder.”

Tatitataia terá periodicamente o prazer de, através da nova modalidade flash, fazer-vos conhecer mais formas de desconsiderações  provenientes do supramencionado Dicionário de Insultos, a utilizar com muita moderação pois não abonam a favor de ninguém. Seguramente que não.

Entretanto, sempre se disse que saber não ocupa lugar…

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