Assim se impediram algumas aulas…

Ao longo do seu percurso Tatitataia tem procurado chegar aos seus prezados leitores através de pitorescas narrativas de situações ocorridas no dia a dia do então liceu Honório Barreto e no lapso da década 1953-62 durante a qual os protagonistas desses relatos eram alunos que por carisma ou ousadia foram adquirindo alguma notoriedade acabando alguns por se tornarem figuras marcantes dessa instituição de ensino secundário, a exemplo de um Vaínga e sobretudo de um Olilas.

Porém, por todas as razões que tenham contribuído para que esses alunos se tornassem figuras marcantes desse liceu, não há registo de comportamentos reconhecidamente marginais. Tratava-se de jovens traquinas, voluntariosos e não mais que isso… 

Entretanto, esses jovens traquinas e voluntariosos tinham alguns atributos, chamemos qualidades, que os diferenciavam dos demais: 1. eram alunos que só muito esporadicamente, aquando uma ou outra prova escrita de avaliação mensal ou trimestral, se empenhavam na tentativa de se aproximarem dos melhores; 2. eram dotados de uma enorme capacidade para, em escassos segundos e sem muito alarde, levar ao rubro a adrenalina de qualquer docente…e para finalizar; 3. em circunstância alguma e em nome de santo nenhum, se esforçavam por figurar no prestigioso quadro de honra ou em qualquer outro indicador de excelência… A condição de simples alunos era largamente suficiente para alimentar seus egos, modestos em exigências e pouco apreciadores de estéreis protagonismos. Enfim, gente simples… 

O presente modelo de curtas metragens permitir-vos-á familiarizar com uma infinidade de pequenos episódios não menos interessantes que os que vêm sendo narrados neste espaço. Tatitataia espera que este novo formato vos proporcione momentos de agradável leitura.

Nesta primeira curta metragem tentarei descrever a forma bem pouco convencional, através da qual um saudoso colega de nome Júlio César conseguia, com notável eficiência, destabilizar uma aula chegando por vezes a impossibilitar a sua continuidade.

A título informativo, o protagonista deste sui generis desempenho também fez parte do plantel do já mencionado 3° B, 1958-59: um aglomerado de uns tantos alunos e de um punhado de estudantes que se tornou vitrina de uma perfeita e invejável simbiose constituída por essas duas categorias de educandos.

Sempre que solicitado para levar a cabo essa acção destabilizadora, o nosso saudoso amigo, sentindo-se enaltecido, não conseguia disfarçar um discreto sorriso. Esse sorriso que ainda hoje consigo ver… era estimulado por esse irresistível sentimento de orgulho em poder ser útil à sua comunidade estudantil. Nunca recusou esse gesto de solidariedade…

Mas é chegado o momento de saberem em que consistia esse gesto de solidariedade!

Pois caríssimas e caríssimos Tatitas: esse gesto de solidariedade mais não era que uma programada e doseada emissão de gases intestinais portadores de um intolerável e inqualificável odor. Ora o nosso amigo Júlio César, com inigualável mestria, conseguia comandar a contracção do esfincter anal e fazer com que essas emissões só fossem libertas quando oportuno e já agora, em doses com qualidade e volume susceptíveis de surtir o efeito desejado; impossibilitar o leccionamento de uma aula. E creiam que essa eficiência tocava as raias da perfeição. Julio César era inexcedível nessa função!

Esse gesto de solidariedade obedecia a umas poucas etapas escrupulosamente estabelecidas.

A primeira, absolutamente lógica e compreensível, era a de fechar todas as janelas da sala. Essa etapa era vencida ou cumprida, como queiram considerar, uns cinco minutos antes do toque da sineta anunciando o fim de recreio. Uma vez fechadas as janelas, o artífice desse mencionado método de destabilização, passava a dispor de uma sala sem viva alma, onde a preceito cumpria o que dele se esperava.

Ao sentir-se por escassos minutos dono e senhor da sala que se pretendia impraticável para qualquer actividade educativa, uma aula como exemplo, o nosso Júlio César orgulhava-se do seu talento e da sua total entrega no cumprimento da palavra dada. Como já afirmado: era inexcedível nessa função!

Percorria os quatro cantos da sala libertando em cada um uma boa dose de gás intestinal cujo odor nauseabundo se equilatava ao do malcheiroso gás sulfídrico, de fabrico industrial. Conseguia criar um ambiente horrivelmente fedorento e tão irrespirável quanto ao provocado pelas conhecidíssimas bombinhas de mau cheiro. O local ficava totalmente impróprio para consumo, o mesmo que dizer: imprópio para uma sala de aulas…

Findo esse périplo regressava à sua carteira onde, impávido e sereno, continuava  essa acção profundamente destabilizadora. Inclinando o corpo, elevava ligeiramente a nádega esquerda e depois a direita e, sem produzir qualquer ruído, ia libertando os gases intestinais.

Somos unânimes em reconhecer que essa popularíssima forma de libertação silenciosa de gases intestinais, fúss em crioulo, produz um efeito bem mais devastador que o menos discreto peido: ruidoso, incontrolável e socialmente condenável.   Júlio César exibia em perfeita descontracção  todo o seu savoir-faire nessa matéria de intoxicação através de gás intestinal, sem nunca recorrer ao peido.  Era um irredutível apreciador do fuss como método de emanação de gases intestinais, e nesse desempenho era um executante de luxo.

Esse gesto de reconhecido altruísmo era normalmente solicitado quando receávamos que uma dada aula pudesse vir a ser palco para avaliação do conhecimento dos alunos sobre uma matéria do domínio da disciplina a leccionar nessa dada aula. Normalmente os estudantes eram muito poucas vezes abrangidos por esse tipo de escrutínio. Essa avaliação de conhecimento, pouco do agrado de qualquer comunidade de alunos, tinha um nome que causava calafrios: ‘chamada’. 

E era nessa sala diligentemente asséptizada que alunos e estudantes ocupavam seus lugares na iminência da chegada da professora ou do professor. Os primeiros obviamente excitados e ansiosos, pela expectativa de conhecerem a reacção do mestre. Os segundos, compreensivelmente, mostravam-se muito menos complacentes com semelhante cenário…

Normalmente a primeira reacção dos professores era de manifesto descontentamento: ‘mas que raio de cheiro é este’? Abram imediatamente as janelas!

A essa esperada reacção contrapunha-se a de alguns alunos mais afoitos que reclamavam a anulação da aula. Shôtor, não aguentamos este mau cheiro. Há bicho morto nesta sala, puxa… E cada um a seu geito procurava instalar uma certa forma de anarquia e impossibilitar o bom funcionamento da aula. 

E entre os mais ousados aparecia sempre um a solicitar ao ufano Júlio César: Júlio, excelente trabalho. Oh pá envia mais umas pastilhas das tuas! O que em crioulo equiparava-se a: Júlio, hómi bu fâssi bom tarbadjú. Sim sinhôr! Pâ fadja éss kussa, anda bú búri um dús fúss de bom koldadi. Djanti homi… 

Por vezes o nosso amigo respondia ufanamente: mas vocês pensam que sou alguma botija de gás? Por hoje já dei o que tinha para dar….

E nessas circunstâncias, essas aulas tornavam-se pedagogicamente improdutivas por conta desse saudoso Júlio César. Paz à sua alma! 

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