Crianças, quanto valem…

Desta vez Tatitataia traz ao vosso conhecimento três pequenos episódios ocorridos entre um pai, não outro senão a minha modesta pessoa, dois dos meus filhos, Pedro e David e finalmente Ronnie, meu único sobrinho.

Pedro, o meu codé, foi um miúdo que passava do sorriso às lágrimas e das lágrimas ao sorriso com um desembaraço digno de nota. Numa das muitas tardes de sol radiante levei-o para uma passeata não longe de casa, mais precisamente em frente ao edifício do Sindicato que se transformou na UNTG no pós independência da GBissau. No passeio oposto ao edifício da UNTG ainda restavam alguns bancos rudimentares em cimento com dois suportes e uma placa horizontal que servia de assento. Pedro tinha na altura uns três ou quatro anitos. Tenho uma foto tirada nesse dia e com ele em franco sorriso. Mas passemos ao acontecido…

Quiçá por estar ‘farto’ da passeata o miúdo passa do sorriso às lágrimas. Querendo dar-lhe um pouco de conforto e curioso por descortinar a causa de mais uma ‘mudança de humor’, disse-lhe: Pedro, porquê a ‘mesma crise de sempre’? A resposta não se fez tardar: não é a mesma crise papá, esta é outra. Ai é outra, procurei saber; sim papá já te disse que não é a mesma crise. Obviamente que o nosso diálogo se fazia acompanhar por um choro intermitente mas com poucos ‘altos’. Na tentativa de ‘suavizar ou desactivar’  mais uma crise, aparentemente de origem e intensidade diferentes, retorqui: Pedro, pelos vistos estamos mesmo em ‘maus lençóis’ pois esta crise que dizes ser outra pode durar muito mais tempo que as habituais: o que é que pensas?

Tranquilizou-me de imediato dizendo: não te preocupes papá porque já está a passar. Ai é? E como é que sabes que está a passar? Como resposta não poderia ter obtido nada de melhor, mais convincente e sobretudo mais tranquilizador: ‘Estou a sentir’….

De regresso a casa era um Pedro esbanjando sorrisos!

Finalizarei esta ‘curta metragem’ com mais dois episódios ambos ocorridos à volta de uma travessa de camarão, episódios esses nos quais eu, meu David e meu sobrinho Ronnie fomos os principais protagonistas.

Apreciem ao que pode estar sujeito um pai e um tio se desatentos! 

A convite dos meus saudosos progenitores, eu e família deslocámo-nos à casa dos velhos num sábado à tarde para saborearmos não só uma tentadora travessa de camarão cozido que reteve imediatamente a minha atenção, como também outras iguarias como doce de batata doce, filhós, cuscús, café com leite, digamos um lanche tipicamente familiar. Desnecessário dizer que o camarão, como não podia deixar de ser, foi por mim acompanhado com cerveja da Cicer…

A um bom ritmo os camarões iam desaparecendo da travessa, sem que me tivesse apercebido do olhar um quanto reprovador e inquieto do meu David que muito naturalmente também gostaria de ter o direito de saborear esse pitéu.   Face à minha incompreensível falta de atenção em relação a esse olhar, eis que o miúdo não se fazendo rogado, decide atempadamente por os pontos nos ‘iiii(s)’ e de uma forma irrepreensivelmente peremptória que não me permitiu continuar esse comportamento pouco digno para qualquer pai. David olha-me ‘bem nos olhos’ e diz: “Papá, não sabes que os camarões fazem os meninos crescer”? Tudo quanto vos posso dizer é que fiquei obviamente estupefacto, procurando refúgio num pálido e desajeitado sorriso que nem sei ‘como  veio e muito menos de onde veio’! Demasiado para um pai…

Entretanto e pelo que se segue, acabarão ou acabaremos por concluir que de bem pouco  me serviu a lição do David. Sinceramente!

O cenário em nada diferiu do anterior na medida em que umas semanas depois e também em casa dos meus ‘velhos’, vi-me ‘a braços’ com mais uma travessa de camarão cozido tendo dessa vez  como concorrente, o meu sobrinho Ronnie. Acautelando-me do que me acontecera com o David, à medida que saboreava essa deliciosa iguaria tive o cuidado de ir oferencendo ao meu ‘adversário’ um ou outro saboroso crustáceo.  Obviamente dos mais pequenos… 

Eis que, no momento em que restavam pouco mais que dúzia e meia de camarões, o meu sobrinho me diz em bom som e sem vacilações: tio João, sabes que os meus pais também me dão dos grandes! 

Pelo conteúdo desta curta metragem vejo-me, por sobejas razões, forçado reconhecer que o camarão, esse apreciado crustáceo, me ajudou saber bastante mais sobre psicologia infantil. E que não restem dúvidas…

Hoje, com os três já bem adultos e pais de filhos, posso assegurar-vos que havendo uma travessa de camarão a partilhar com os mesmos, seria eu o mais vigilante e pronto a dizer de olhos bem abertos: ‘ei gente, também gosto dos grandes’! 

E se vier a ter os meus nétinhos como adversários num idêntico desafio de camarões… é certo e sabido que prepararei um pratinho contendo uns quantos desse petisco, a serem saboreados num espaço mais seguro, com paz e sossego.

Uma sábia forma de me acautelar do que poderia essa terceira geração, bem mais expedita, me reservar como decisão de partilha… Ai não! 

 

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