Joaquim, Nhú Djokim: Pintur, Caiadur!

Tatitataia relata um pouco de tudo. Que fiquem entretanto cientes de que tudo quanto vos faz ler, teve como palco ou cenário, a nossa Guiné. Em suma, tudo aconteceu nessa terra que nos é muito querida e que querida continuará sendo! 

Foi costume em tempos idos, caiar o interior das casas normalmente umas semanas antes da quadra natalícia. Todo o nosso bom mundo queria ver e sentir a sua residência em estado apresentável de modo a agradar visitas e convidados como é comum aparecerem ao longo dessa quadra festiva. Nessa quadra, a procura por profissionais de pintura era obviamente maior que nos outros períodos do ano.

Mas passemos ao nosso Joaquim!

Durante largos anos, antes e pós-independência da Guiné, o prestável, amável e sorridente Joaquim era o homem-pintor que arregaçava mangas para dar um aspecto mais fresco e juvenil às paredes do interior da minha residência. E foi sempre para mim um verdadeiro deleite de fim-de-semana entabular conversa com essa figura que pelo seu paleio não deixava ninguém indiferente. Impossível ouvi-lo sem deixar escapar copiosamente: risos, sonoras e  saborosíssimas gargalhadas.

Um verdadeiro humorista na pele de um excelente pintor…

Procurarei inteirar-vos de umas quantas conversas tidas com Joaquim, as tais que davam sabôr aos fins-de semana em que se apresentava para responder ao compromisso firmado. E ohhh quanto nos fazem hoje falta esses pequenos e grandes momentos de felicidade quasi-gratuita, alimentados por pequeníssimas e insignificantes coisas: um simples e informal diálogo!

Nesses saborosos périplos de fins-de-semana completamente dedicados à pintura ou caiação, deixando a definição à vossa inteira responsabilidade, o nosso Joaquim a caminho da minha residência ia matutando, como mais tarde confessou, uma forma mais ardilosa de abordar comigo um novo preço para essa tarefa que vinha assumindo ao longo de anos e por sinal, a contento de todos os residentes. Entretanto, por razões que só a razão do nosso Joaquim entendia, via-o partir sempre sorridente e sem traços ou sintomas de desagrado.

Só dizia à saída: senhor Galvon, Déuss fika ku nhú té útru sábadu…

Mas lá acabou por chegar o sábado no qual o nosso Joaquim decidiu pôr as cartas na mesa. E fê-lo com uma notável desenvoltura dizendo-me: Senhor Galvon, pa tudu kê ke n’na buska: anhu nhu pudi kumi! Confesso ter ficado meio surpreendido com essas palavras que me chegaram aos ouvidos numa voz suave mas firme e olhando-me bem de frente…

Pudi kumi, em sentido figurado quer muito simplesmente dizer: você é mais forte do que eu, sem que necessariamente se trate de uma comparação baseada na compleição física. Ajusta-se bem melhor á capacidade pessoal de argumentação, na capacidade de convencer outrem e levar sempre a melhor. Entretanto meu feeling sem demoras me alertou quanto à iminência de uma nova proposta de ajustamento salarial, o mesmo que dizer aumento do custo da pintura da residência. E não tardarão ver que não me enganei… 

Joaquim fez-me nesse sábado saber as razões que o levam a reconhecer-me como mais forte que ele, traduzidas pela expressão: pudi kumi. Disse-me meio decepcionado que de há muito que vem arquitectando um plano, uma estratégia, um estratagema, enfim escolham o que melhor vos aprouver como expressão, para levar-me a reavaliar o mérito dele como pintor e muito naturalmente e em consequência: o valor pecuniário do seu trabalho. E acabou por explicar-me as raízes da sua enorme decepção pelo facto de nunca ter podido levar esse plano avante, essa sua estratégia, esse seu estratagema, enfim tudo quanto vinha ardilosamente arquitectando.

Quanto a esse plano, estratégia ou estratagema mencionados, o nosso Joaquim fez-me saber que cada vez que saía de casa em direcção à minha, vinha extremamente motivado trazendo em mente um só discurso focado na melhoria, mesmo que modesta, do nosso contrato de trabalho. Quando digo melhoria é óbvio que me refiro aos benefícios que ele queria mui logicamente ver revertidos a seu favor.

Segundo ele, por trazer a ‘lição sabida na ponta da língua’ não via como poderia eu sair vitorioso quando confrontado com o dito discurso por ele considerado teoricamente indestrutível, indesmontável. Para ser breve, o nosso Joaquim faz uso do crioulo para expressar com um sabor bem particular tudo quanto em português perderia todo o humor inerente e imprescindível à narrativa…

No fundo Joaquim tenta num discurso que mais se assemelha a um conto, justificar razões um quanto pitorescas… que o impediam de me convencer a melhorar o nosso contrato de pintura. E não mais que isso!

Oiçam-no…

Senhor Galvon: aóss i dia pâ’n konta nhú kê ke manda ami Djokim n’fâla kuma nhú púdi kumi. Nhú facim fabúr nhú ôbi!

Ke sédu éss: kâda dia ke’n sai de nha káu pâm bim tarbadja na káu de nhú, n’tâ bati planu pâ nhú. N’náu, kilâ máss planú. N’tâ n’djatâ nam própi pâ nhú… N’tâ fâla nha kabéssa: ahóss i dia k’éss homi na sibi kim ki bó Djokim. Kil ke na sédu, aóss ki na sédu!

Má senhor Galvon purbléma, i na kaminhu ki ta lánta.

Konforme n’na pértu kassa de nhú… assim ke n’ta sinti nha kurpu na kiri móli… N’ta sinti limpu kuma ki plánu ke n’djata pa nhú kána bai nim li ku lâ. Bardadi sabi konta!

Iohhh…káu ta kum’ssa fiu, i ora ke n’sibi skada de kau de ba nhú, nha rostu fila ku ki porta de riba. N’bom ora ke n’kunku porta lâ ke n’ta fâla nha kabéssa, ai Djokim bu ka bali nim um pééssss!… 

Lâaa…senhor Galvon, n’ta ôbi limpu, limpu, alguim déntu de mi ke tâ falâm: Djokim, bu sibi kéeee, maina éss bu planu. Éss homi sabi bókaaa… i na bim batiu. Se bú buli éss alguim, abó própi ke na kabanta pa riantal préss de bu tarbadju. Ahhh Djokim dissâ, dissa kila Djokim. Tém passença, dissa!

Senhôr Galvon, ami i mandjaku de Kalekiss. N’tam, ki alguim dentu mi ta ripitim é konbersa dús, triss biáss na orédja. Éss alguim ta kordân sintidú na lingu mandjaku. Má mandjaku limpu púss: “Djokim mé? Nintche utan… Nintche à sabe n’tum, kabi watu. Kassarai Djokim, utan!”

Quanto ao nosso contrato, Joaquim disse-me ter sérios motivos que o impediriam estar presente no próximo fim-de-semana. Sem ainda conhecer as razões dessa forçada ausência, disse-lhe: Joaquim acho que não é a mim que deves anunciar essa ausência mas à ‘mindjer garandi de kassa’, a minha sogra.  Aí Joaquim levou as mãos à cabeça e retorquiu: Senhor Galvon nhú tém passénça, kâ nhú randjam purbuléma. I kâ mi Djokim ke na fâla mindjer garandi kuma n’kana pudi bim utru sábadu. Tsse, tsse, tsse, ka nhu pensa kila!

Si nhú ka têm manêra de falal él, kila i ka ku mi dé. Anhu ke sibi lâ… 

Mas oiçam este delicioso discurso, uma verdadeira tese… tentando justificar a razão que o impediria avançar o trabalho de pintura em minha casa, no sábado seguinte. Convenhemos: hilariante e de certa maneira, revigorante…

Senhor Galvon, nhu ôbi nha bardadi: tarbadju na caiaçon i ka fácil otcha. Pâ tudo ké ke n’na buska. N’bom, n’tem dus alguim ke Déus pui na nha kaminhu ke n’ka pudi falsia elis é sábadu ke na bim. Nhu tem passénça nhu djudam…Ku kil purmêru n’tenê dja contratu firmádo. Firmádo tok firma kâba. Mà éss último, papé di mi ke pâdim… n’pudi fala nhu kuma i burru marradu ke’n otcha’: nhu anda nhu sibi kuma éss i purmêru biáss ke n’waga alguim préss si dunu ka mêrmériiiii, pa tudo ké ke n’na buska! Senhor Galvon, nhu anda nhu n’tindi: éss ‘koldadi’ de pécadur ka pudi kaplim….

O meu amigo Joaquim disse estar seguro de poder  contar com a minha compreensão pela solicitada ausência em minha casa no sábado seguinte. Tentando confortar e confirmar essa ausência foi-me dizendo: senhor Galvão não posso de forma alguma faltar aos dois compromissos.

Se eu faltar  a esses compromissos, ficarei em muito maus lençóis!

Mas o nosso Joaquim só é mesmo vedeta quando ouvimo-lo em crioulo. Pois oiçam-no uma vez mais!

Senhor Galvon, kil alguim ke n’firmanta dja kontratu n’na bai si kau pa n’kabântal tetú. Se n’fassi kilâ i ta discánsa e fiança kuma n’na kabantâl tarbadju. N’ka pudi maina é planú!

N’Bom kil segundú, kil ke n’fâla nhú kuma i ‘burru marradu’, n’na bai si kau n’bofatial un dús paridi (dar umas pinceladas…) pâ i fiança kuma nó kontratú firma. Kâ nhú médi senhor Galvon, utru semana na sta na kau de nhu rék pâm kabanta tarbadju.  Kila ka tem nim’nôss.

N’bé, i sta suma nhú ka kunsim…

Entretanto e para finalizar o relato desta cativante figura genuinamente bissau-guineense que não se amedronta com pequenas ou grandes dificuldades próprias do quotidiano e para as quais vai encontrando soluções muitas das quais por débrouillage…, faço-vos ouvir o que Joaquim pensava a respeito de determinadas profissões bem populares, a mencionar: carpinteiro, alfaiate, sapateiro, não podendo obviamente esquecer a nobre profissão de caiador…

Ao fazer a abordagem de cada uma das citadas profissões o nosso Joaquim quiz salientar o savoir-faire e o savoir-vivre, digamos a habilidade de cada um desses profissionais em encontrar justificação ou justificações por qualquer atraso ou imperfeição na satisfação dos seus compromissos assumidos. Em língua portuguesa essa habilidade é perfeitamente definida em todos os seus contornos pelo verbo ludibriar e melhor que esse não conheço.

Para os que ainda não saibam, essa habilidade em encontrar justificações para determinados precalços profissionais está perfeitamente traduzida pelo mais sociabilizado substantivo bissau-guineense: palam, arte de kambanta purbuléma…

Portanto, dar palam é no mínimo tentar ludibriar!

Mas esse relato como Tatitataia tem afirmado só se torna interessante e merecedor de uns poucos parágrafos quando exprimido em crioulo.

Portanto, vamos a isso…

Senhor Galvon: n’pensa kuma de anós caiadúris nhu kabanta kunssinu pâbia n’ka sukundi nhu nada ke nô ka sédu…Má nim ku sim nhu fika nhu sibi kuma nô tarpassa, nô palam, nô kambanta ô ké máss kila tudo i di mininu ke ka kabanta scola. Pâ nha mamé…

N’Bom gossi nhu sukuta ké ke n’tem pa fâla nhu de quil útruss. Ba nhu bartabáss…

Alfaiatis éssis é ka tem manêra de fassi tarpassa ku kil ke é kabanta kussi dja pabia kada pékadur tem si midida. Má na tecido ki ka toka inda, se contra alguim passa i mostra n’tréss na tecido (ke tem dunu…) ahhh lâ i na fâla kil alguim: se bu mistil pa utru kussa anda bu fâlam pabia n’ténel li ditandadu n’ka sibi ké ke n’na fassi kel. Kila gora ka nhu purfia…

Carpintêro tâm, i ka lundju alfaiate na si tarpassa….Se contra alguim bim punta pâ banco, cadêra, méssa, banquinha ô kalker kussa ki kumpuba dja n’bom i na séta bindi sim purbuléma é kussas ke tem dja dunu. Despuss i ta buska manêra de safa si kabéssa…Bom tarpacêros ke nhu odja sim!

N’bom senhor Galvon ali no tchiga nâ chefe di chefes. Rei de palam. Senhor Galvon ka nhu brinka ku sapaaaatêeeeruuuuu! Lai, lai, lai, lai…

Senhor Galvon anós ohhh, alfaiate ohhh, carpintêro ohhh nô palam vida ke sinanu él. Kil de sapatêru i bai nam scola pâ i sinadu él. Pâ nha boka mopi se n’na conta mintida, senhor Galvon.

Nhu ka misti sibi pabia de ké ke sapatêro ta sinta na n’trada de si porta e kata tarbadja dentro de si kau? Ahhh n’bom nhu pera n’fala nhu. I ta tarbadja na si porta pa i pudi bata odja kim ke na bim…

Assim ora ki odja kim ke na bim i ta fâla si ajudante: “djanti bu dam ki sandália ke sta riba de kil turpéssa ke perto bó”. É portanto óbvio que a sandália solicitada pertence ao cliente que o sapateiro viu aproximar-se….e assim o recém-chegado era premiado com um audível; nhu Braima anhu i futecêro. Alim kel na mom….

Senhor Galvon nhu anda nhu buska má máss ossanti ke sapatêru nhu kana otcha. Senhor Galvon, sapatêru ta bindi nhu kada koldadi de mintida ke anhu própri ke na burgunho el, nhu n’pina kabéssa. Má ora ki na konta nhu si mintida, el i ta odja nhu na kuku d’udju. I kata djngui kabéssa. N’ná, é bali pena…

O que acabam de ler, é o Joaquim que conheci e me deixou uma enorme saudade pois que nunca mais soube dele. A nossa Guiné teve e ainda tem muitos outros Joaquim(s) que nem sempre tiveram a merecida atenção…

Tatitataia voltará a estar convosco oportunamente. Fiquem bem!

 

 

 

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