2015 in review

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Mussa Dabo, vulgo Mussa ‘Cowboy’!

Mussa Dabo, mítica e carismática figura do então Liceu Honório Barreto,  é com toda a justiça hoje recordado neste espaço feito de memórias que nos trazem momentos de saudade e nostalgia.

Por tudo quanto Mussa Dabo representa para uma geração de alunos desse liceu, dos quais  bem poucos serão os que dele nada tenham retido, Tatitataia sentiu-se no dever de redigir o presente texto em memória dessa saudosa figura. Vejamo-lo como uma singela e merecida homenagem.

Que o nosso Mussa Cowboy, repouse em Paz!

Porém, antes de abordar o sujeito, julgo absolutamente pacífico que lamente não haver, ainda hoje ( e por que não no sector de Bissau?), uma escola com o nome de Mussa Dabo, por modesta que ela fosse. Ficaremos na expectativa de ver um dia consumado esse acto de justiça.

A presente narrativa, enriquecida pela contribuição de muitos alunos dessa época, constitui como que uma colectânea de registos ocorridos há pouco mais de meio século. Muito do que aqui está escrito é fruto do relacionamento do vigilante Mussa Dabo, que com muita dedicação serviu uma instituição de ensino denominada Liceu de Honório Barreto, com os alunos que frequentaram essa mesma instituição.

Para os alunos cujos pais ou parentes Mussa tivesse conhecido em Bolama, sua terra natal, o nosso prezado amigo tinha uma resposta-padrão sempre que se aventurassem chamá-lo Cowboy: odja, ami n’mâti badjudéssa de bu mamé…ka bu léb’ssim! Se n’kontáu kriol, bu na lâba ku sete iágu, bu kána limpu! O mesmo que dizer: conheci a tua mãe em idade dos primeiros namoros. Portanto, aconselho que te portes bem para que não oiças umas quantas verdades que te farão perder o pio.

A patente Mussa Dabo!

No que me diz respeito, e o contrário seria de admirar, tenho a partilhar com os prezados leitores umas poucas estórias nas quais eu e o saudoso Mussa figurámos em posições nem sempre convergentes.

Comecemos pela mais corrente.

Mussa ia registando as minhas travessuras e, quando o seu ‘toleranciómetro’ atingia o tracinho vermelho, ele anunciava-me o veredicto que em crioulo, em mais ou menos palavras, queria dizer ter chegado o momento de levar essa minha colectânea de bons exemplos ao conhecimento do meu saudoso velho: bom! abó bú kabânta komplêta bú kinhôn. Ahóss bu nâ findidú kadêra na kassa, kilâ kâ tém nim nóss! N’na larga sôn n’bá tem ke bu papé, ki alguin ke gróss barriga, pam kontal fadjadu (com requintes, preciosismos…), kuma é buli ke bu ta buli, i ka de mininu ke mandadu pega skola.

Só si i ka ami Mussa: não me chame Mussa…

Melhor que ninguém, Mussa sabia como fazer uso do seu enorme talento para, com uma subtileza digna de registo, instilar nos ouvidos do meu saudoso pai um discurso muito bem orquestrado, veiculando por meias palavras as sanções que ele me julgava merecedor. Por exemplo, fazia chegar aos ouvidos do meu velho: se bu sibi kuma ke é bu fidju misti djugo de bola….com maior ou menor precisão; tu não imaginas como o teu filho ‘é mordido’ por futebol. E ficava assim plantada a ‘árvore das patacas’….

Devo dizer que esse virulento discurso acabava por me deixar completamente desarmado e numa posição pouco invejável…na medida em que, uma vez descodificadas e sobretudo interiorizadas as acusadoras palavras de Mussa, era um supermotivado Amílcar  que se apressava por chegar a casa!…

Com o velho chegado a casa… é que eu compreendia o ‘Ahóss bu nâ findidú kadêra…..’, essa espécie de profecia (…relato no qual se afirma prever acontecimentos futuros…) de Mussa, querendo sentenciar os meus atropelos às normas de boa conduta. E para mal dos meus pecados, Mussa raramente se enganou….

Recentemente licenciada em Lisboa, regressa a Bissau uma ex-aluna do Liceu Honório Barreto de nome Maria Dulce Almeida, mais conhecida por Dulce Almeida, para exercer nessa instituição de ensino, entre outras, a função de professora de Ciências Físico-Químicas, a partir do ano lectivo de 1968-69.

O facto da nova docente ter passado pelos bancos dessa mesma instituição de ensino liceal, despertou em Mussa uma enorme satisfação. Essa satisfação, acompanhada de uma indissimulável afeição, fez com que o relacionamento entre a nova professora e o funcionário Mussa se manifestasse de forma substancialmente diferente daquela que ele mantinha com os outros professores vindos de Portugal, então ‘continental’.

Era um relacionamento irrepreensivelmente informal.

Sempre que tivesse de se dirigir à Dra Maria Dulce Almeida, Mussa tratava-a unicamente por Dulce, coibindo-se de dizer Dra. Maria Dulce Almeida ou mesmo D. Dulce. Nesse relacionamento, entre o vigilante e a professora, estavam banidos os termos “doutora”,” dona”, “minha senhora” e quejandos.

Para Mussa, essa professora era a mesma Dulce que conhecera como aluna do liceu Honório Barreto. Portanto, para ele, a ex-aluna Dulce continuaria sendo a Dulce, e ponto final!

Com base nessa realidade a Dra Maria Dulce Silva Almeida, preparando-se para celebrar casamento no primeiro trimestre de 1969, decidiu muito naturalmente participar esse acontecimento a Mussa.

Radiante com a notícia, Mussa avança a mais natural das perguntas: Dulce posso saber quem é o teu futuro marido? Será alguém que eu conheça? A resposta não se fez esperar – Sim Mussa, estou certa de que o conheces muito bem. O meu futuro marido é o João Galvão!

Ao que um incrédulo Mussa reage de imediato: ai Déuss Dulce, ai Dulce bu ôssa udjuuuu. Éhhh! Má n’fâla: bu ka ôtcha ninguim fóra déss alguim? Bu kunci Galbôn mé?! Abó ke sibi la…Traduzido: ohhh Dulce, tu és mesmo ousada. Não te apareceu nenhum outro senão esse? Tens a certeza de conhecer devidamente esse Galvão? Tu lá sabes…

Mais uma com a patente de Mussa Cowboy!

Mussa atinge o apogeu da sua carreira na época do Dr. Alfredo Pequito que foi reitor, creio que no final dos anos 50 e no princípio dos 60.

A razão que está na base dessa ascensão não é outra senão a quasi ilimitada confiança que o reitas Alfredo Pequito depositava nele, pela sua dedicação e entrega e, sobretudo, pelos seus empíricos mas eficientes métodos de investigação, aqui e ali apimentados por um apurado feeling.

Conhecendo pela ponta dos dedos os traquinas, os buliduris desse estabelecimento de ensino, Mussá servia-se dessa experiência e da sua refinada intuição para, desde o início de qualquer pesquisa, poder visar um número mais reduzido dos suspeitos mais vocacionados para o tipo de transgressão em causa.

Esse trunfo permitia-lhe reduzir consideravelmente o escopo dos possíveis suspeitos, e chegar ao faltoso (ou faltosos) num espaço de tempo relativamente curto, com uma louvável percentagem de sucesso.

A cumplicidade e a qualidade do relacionamento entre o Dr. Alfredo Pequito, Mussa e seu fiel adjunto Malam evocam-nos a romancista britânica Agatha Christie.

Efectivamente, com um omnipresente Alfredo Pequito no topo de uma muito bem hierarquizada coligação de que faziam parte um Mussa assumindo, na perfeição, o papel do célebre detective belga Hercule Poirot, imortalizado pela literatura policial da mencionada romancista, e um Malam na pele do não menos famoso capitão inglês Arthur Hastings, melhor amigo de Poirot e seu parceiro inseparável, a instituição liceal Honório Barreto tinha sobejas razões para se orgulhar da qualidade desse núcleo de devotos profissionais.

E que não restem dúvidas…

Consequentemente, a probabilidade de uma transgressão aos preceitos estatuídos ficar impune era praticamente nula quando esta sui generis coligação decidia actuar à imagem de uma agência de Serviços de inteligência e contra-espionagem! E eu que o diga…

Mas não percamos Mussa de vista…

António Pedro Almeida, um dos que também se orgulha de ter pertencido à tal turma B do 3° ano do lectivo 1958-59, também fez parte do enorme plantel dos lesados pelo empenho e zelo de que o nosso Mussa fazia uso no exercício das suas funções.

O estudante, quero dizer o aluno António Pedro Almeida, conhecido  por Tony Almeida, é apanhado nas malhas de Mussa por ter diligentemente tentado imitar a assinatura do pai, o saudoso senhor Paulino Almeida.

Essa fraude foi descoberta pelo não menos zeloso funcionário, o saudoso senhor Raul Cabral, mais conhecido por Raulinho, que se aprontou a disponibilizar essa preciosíssima informação a um zeloso Mussa que soube, sem desperdício de tempo, fazer bom uso dessa relíquia…

Na posse de provas irrefutáveis que deixavam Tony Almeida em maus lençóis, Mussa, num estilo ex Cathedra, reza esta missa a Tony: rapassinho, bu sibi ké, bardadi sabi konta…abó bu mufna. Má mufna ke bâli. Ahóss bu na fika bu sibi kuma e ka tudu kóboy… ke ta séta lébssimenti!

Ahóss bu na matil, só si ka ami Mussa!

N’na pértu bu papé n’puntál: homi garandi, bu fidju fala Pikito nha chefe, kuma abó que scribi bu nomi na éss karta de falta. Djubi driiiiitu bu kontam se éss i abó ke scribi li. E juntando o útil ao agradável afundou o prego: homi garandi tem passéeeeença, pâpia ku bu fidju. Ké ki fassi abó própi bu sibi kuma i ka bonitu. Ésss i tempu pâ i pára um biáss éss koldade manera…

É obvio que com esse discurso extremamente elucidativo e sobretudo galvanizador…, o nosso Tony não pôde escapar a uma pesada sanção. Viu-se por algum tempo privado de passeatas, idas à UDIB, das tão apreciadas peladinhas….e seguramente de bem mais.

Mas de Mussa, por muito que se conte mais fica por contar…

O meu irmão Hugo Henrique Galvão dos Reis Borges, o Gui para os colegas dos tempos do liceu Honório Barreto e Hugo Borges para os demais, de regresso da sua pós-graduação em Sarajevo na Jugoslávia, cruzando Mussa numa rua em Bissau, fez questão de cumprimentá-lo. Este, radiante por ver um dos seus meninos de regresso, não só falou dos tempos desse liceu como também quis, em conversa absolutamente informal, saber dos projectos do meu irmão, da família e do corriqueiro.

E foi a meio dessa conversa amena que Mussa se mostra algo surpreendido em saber que o Gui é meu irmão. E ainda sobre o efeito dessa inesperada surpresa desanuvia: pára brinkadêra! Bu misti falâm kuma abó ku Galbôn bô sédu armon na um mamé ku um papé?’ Abô, dé di mininu bu sédu alguin drito, drito, drito. N’náaaa, bu ka pudi sédu armon de ki mufnado.

E passando esse discurso ao português não estamos longe do seguinte: deixa-te de brincadeiras! Tu não estás querendo dizer-me que és irmão, de pai e mãe, do João Galvão? Tu, que sempre foste um miúdo às direitas, não podes ser irmão desse indisciplinado-mor que dificultou a vida de contínuos e demais pessoal do liceu do vosso tempo.

E assim findaram essa conversa com um Mussa relatando as minhas traquinices e façanhas enquanto aluno do liceu e enaltecendo o comportamento exemplar do meu irmão enquanto estudante desse mesmo estabelecimento de ensino.

O parágrafo anterior confirma a ideia por mim defendida de duas categorias de educandos nesse estabelecimento de ensino secundário: alunos e estudantes, em proporções nada equiparáveis, sendo a  segunda categoria obviamente mais fácil de identificar e contabilizar…

Indo longa esta narrativa, que nunca será exaustiva, em relação à mítica figura que foi o saudoso Mussa Dabo, vulgo Mussa Cowboy, vou findá-la com o registo, que me lembre, de um dos muitos desafios, quiçá o último, que pressionei Mussa a enfrentar.

Esta narrativa merece a melhor das atenções…

Tal como aconteceu com o meu irmão no pós-independência, ao cruzar Mussa algures em Bissau, faço sinal para que me conceda uns minutos de conversa. Logo que desci da viatura disse-me de imediato: Galbôn, n’kunsiu dé, djubi dritu kê ke bú na bim kél… Um pré-aviso bem significativo!

Com as devidas cautelas e  num discurso bem musicado… tentei motivar Mussa a falar com um alto dirigente do Ministério de Educação Nacional com o propósito de solicitar uma modesta promoção que lhe permitisse uma eventual  subida de letra no quadro da função pública, de modo a possibilitar-lhe uma reforma mais desafogada.

Disse-lhe: Mussa, repara que quase todos os quadros dirigentes desse ministério passaram pelas tuas mãos enquanto alunos ou estudantes do ex-liceu Honório Barreto.

Com esse argumento tentava fazer-lhe ver que, a priori, não havia razão ou razões para que não levasse essa iniciativa avante. Tens o direito MORAL e não só, de formular esse pedido. Na tua posição, eu não hesitaria. Má ké ke bú médi, incitava eu!

Não tardou em responder dizendo: Bú sibi Galbôn é guintis, ora ke é panha pustu é ta diskici ké ke passaba na ki tempuba. O que quer dizer por outras palavras: Sabes Galvão, as pessoas quando chegam a lugares de chefia esquecem-se do passado…

Entretanto lá consegui ‘mobilizá-lo’ para essa missão. Suficientemente encorajado, prometeu dar andamento a esse projecto logo que se lhe deparasse a primeira oportunidade.

Meses volvidos, volto a cruzar-me com o Mussa num ponto da marginal que conduz à alfândega.

Peço ao condutor para que pare o carro e dirijo-me a Mussa, curioso por saber o que teria conseguido na sequência da minha anterior sugestão. Confesso não ter tomado as necessárias precauções quanto à qualidade da resposta…

Sem pestanejar, a resposta não tardou: Bú sîbi kê ké falâm? Kuma ki pustu ke n’pidi alguim djumna i tômál. Retorqui: má éss i kim ke toma ki pustu?

Galbôn, n’faláuba kuma é guintis ka bâli. Bú misti sibi kim ke é pui na ki pustu? N’Bom, fika bu sibi kuma BU PÁPÉ ké pui na ki pustu. Sacana de merda…

Dessa reacção, que traduz o que o nosso saudoso Mussa possuía de mais genuíno, o leitor sem muito se esforçar concluirá: 1. Que o pedido foi rejeitado, 2. E que muito naturalmente… Mussa terá ficado meio, senão inteiramente, convencido de que o aluno Galvas, que ele tão bem conhecera nos tempos do liceu, tê-lo-ia, malevolamente, induzido a apresentar aos seus superiores uma proposta inaceitável…

Entretanto, posso assegurar-vos que, na altura, eu acreditava que pudesse haver margem para um gesto, por pequeno fosse…

Muito mais fica por contar sobre essa saudosa e mítica figura!

Repousa em paz, querido Mussa Dabo!

Por quanto mais tempo?!

Por uma vez um Tatitataia disco-jóquei.

Tatitataia tem o imenso prazer em vos fazer ouvir no fim do presente texto e em vídeo, os clássicos mais relevantes da música popular da Guiné-Bissau, país o qual, parafraseando Blaise Pascal, 1623-62: por razões que a razão desconhece se transformou num inenarrável paradoxo.

Corrupção e impunidade de mãos dadas e em invejável harmonia com governantes e governados, um sistema de ensino pelas ruas da amargura, sem saúde pública, sem justiça, sem paz social,  e parecendo orgulhar-se da total ausência de quaisquer infra-estruturas de saneamento básico, designadamente, recolha e tratamento de lixo, esgoto, drenagem de águas pluviais, entre outras num ambiente escabroso de ruas esburacadas em que há muito o asfalto cedeu lugar a um amontoado de terra vermelha!!!

E não falemos no clima de permanente instabilidade política…

Mas por mais inverosímil que vos pareça esse país ainda consegue dar guarida a um considerável número de pessoas que vivendo principescamente, não se sentem minimamente chocadas e muito menos afectadas por essa colectânea de desleixos e irresponsabilidades!!!

Também é merecedor de um reparo especial o facto de um país como a Guiné-Bissau, de vocação eminentemente agrícola e com mão de obra maioritariamente composta por camponeses, não ter apostado numa agricultura mais comprometida em assegurar a tão necessária e ambicionada autosuficiência alimentar, preferindo ao invés especializá-lo na cultura do cajú, um produto tradicionalmente vulnerável à flutuação de preços no mercado internacional.

Esse cenário faz lembrar o rol de nefastas consequências geradas pela má aplicação da conhecida ‘Green Revolution’ no país de Mahatma Gandhi num passado não muito longínquo. Entre as mencionadas nefastas consequências, o êxodo campo-cidade figura como sendo o primeiro responsável por uma infinidade de problemas socioeconómicos ainda hoje não sanados!!

Essa cajumania de filiação bissau-guineense veio semear a instabilidade no seio da mão de obra inicialmente vocacionada às culturas tradicionais como o arroz de sequeiro, o conhecido n’pam-pam, o fundo, o milho em espiga, o milho bacil, a mancarra ou amendoim…, a mandioca, o inhame e em actividades como a colheita de regimes de dendém (o nosso chabéu!), a tecelagem e outras mais.

Que se tenha entretanto em conta que esse infeliz projecto não só desactivou grande parte dessa mão de obra quanto acabou por provocar o seu êxodo em direcção às zonas urbanas. Abandonam o campo onde sabem produzir, e aglomeram-se nos centros urbanos onde não estão qualificados para produzir. O resultado é clássico e amplamente conhecido: desordem social e delinquência, entre os mais nocivos.

E com o quinto decénio batendo à porta, permitem-se o luxo de não terem ainda definidos, que objectivos e quais as estratégias para qualquer futuro, seja ele: a curto, a médio ou a longo prazo!!! Fica tudo dependente da magia dos irans…

O quanto não é doloroso constatar em cada amanhecer, olhares de crianças escrutinando céus e horizontes procurando indícios de melhores dias e uma população que não esconde um enorme sentimento de frustração e insegurança alimentado por esse desfilar de manhãs despidas de esperança.

E é nessa pátria vitimizada por algumas décadas de desmandos para todos os gostos e feitios que uma caterva de pseudo-governantes continua apostada em recusar ao povo guineense o mais elementar dos direitos: o direito à paz e ao progresso. Mas esse povo saberá, como no passado, forjar energias e arregaçar mangas “pa finkanda purmêru dúbi di ki kassa ke nô mîsti kumpu”, como enfatizou o saudoso Zé Carlos.

Tatitataia entretanto recusa as vestes de promotor de fatalismos sobretudo durante uma quadra onde as famílias se juntam num clima de paz e harmonia para festejarem o Natal e não só…

Pois é com esse espírito de festa que Tatitataia deseja a todos os bissau-guineenses e respectivas famílias, no país ou na diáspora, uma quadra festiva com saúde, muita paz, muita alegria, mantendo-se sempre acesa a esperança em melhores dias como nos incita o nosso amigo Ernesto Dabo nas suas palavras impregnadas de encorajamento: “Ka nô tchôra péna Djussé, ka nô tchôra péna…..”.

Tatitataia não pode deixar fugir esta oportunidade sem formular sinceros votos de um 2017 pleno de realizações positivas para cada família guineense e sobretudo para o estóico povo da Guiné-Bissau. Certo que quarenta anos é já algum tempo…

Mas quantas mais décadas serão necessárias para que se decida mudar de rota e de timoneiros? Cansado está o povo guineense de ouvir esse estribilho: barco kána n’kadja…, quando na realidade esse pobre barco continua há umas longas décadas estagnado no ancoradouro, aguardando outros ventos, outras marés, destros marinheiros e adequados instrumentos de navegação… 

Com esse repertório de irresponsabilidades acumuladas, acreditamos inadiável o momento de exigir que seja prestada, sem apelo nem agravo, a devida atenção ao povo guineense!!!!!

Atenção mais que devida a esse povo que continua na expectativa de ver alvorecer no horizonte esse radioso futuro há seis longas décadas propalado por esse mundo fora e copiosamente prometido pelos auto-proclamados melhores filhos da nossa terra…

Recordo-me ter ouvido no pós independência uma senhora que já não está entre nós…, dizer a um membro de família regressado de Conackry: bô bai ku bardádi, bô riba ku mintida. Essa frase, por expressar uma indesmentível verdade, é merecedora de especial reflexão.

E a finalizar eis o novo Tatitataia feito disco-jóquei a fazer-vos ouvir as vozes mais expressivas e ouvidas da Guiné-Bissau.

Essas vozes ganharam espaço e dimensão não só pelos seus  timbres bem peculiares e pela excelência em outros parâmetros de qualidade, mas sobretudo por terem sabido dar justificada e merecida notoriedade aos maiores clássicos  da música popular bissau-guineense.

José Carlos Schwarz, Si bu sta dianti na Luta: composição do próprio Zé Carlos.

Ernesto Dabo e Karyna Gomes, Mindjeris di panu pretu: letra de Armando Salvaterra.

Diria que as palavras constituem uma espécie de lenitivo às angústias, às dores, aos sacrifícios, aos acidentes e incidentes de percurso, muito resumidamente: amenizam o período entre a génese do sonho e a concretização do mesmo. Esse longo período de construção… As vozes, essas, nutrem a esperança!

São esses artistas e esses clássicos soberbamente interpretados que irão proporcionar ás nossas tatitataianas e aos nossos tatitataianos alguma satisfação nos seus momentos de lazer.  E será ao longo desses momentos que nos veremos confrontados com aquela saudade, diria antes nostalgia…, dos tempos daquele Bissau de outrora…, de rosto lavado e perfumado,  cidadezinha bonita e limpa.

Dessa cidade que num passado um nada distante, sempre soube forjar razões que lhe permitissem mostrar-se orgulhosa dos seus jardins bem cuidados, das suas acácias, das suas ruas e avenidas alcatroadas, dos seus edifícios trajados de cores garridas, e como não mencionar a sua acolhedora marginal, entre o porto de Pidjiguiti e a Alfândega. Orgulhosa de tudo isso e seguramente de muito, de muito mais que isso…

Entretanto e a respeito “daquele Bissau de outrora…, de rosto lavado e perfumado,  cidadezinha bonita e limpa”…, tem estado omnipresente uma questão bastante incomodativa a qual ninguém tem sabido responder: quais as raízes, o móbil desse clamoroso desamor por essa cidadezinha bonita e limpa de outrora, paulatina mas progressivamente desfigurada de 1974 a esta parte?!

Só responde quem souber…

Bem hajam!

Tatitataia voltará a estar convosco. Saibam ser pacientes…