Tony Marques!

Tatitataia já escreveu tantas estórias e já abordou, por um motivo ou outro, o nome de muitos que não passaram despercebidos enquanto alunos da primeira instituição de ensino liceal da nossa Guiné: o nosso tão querido Liceu Honório Barreto.

Lamentavelmente, muitos desses nos deixaram bastante cedo. E entre os que nos deixaram prematuramente, seria imperdoável não mencionar o nome de Tony Marques, António Augusto Oliveira Marques, o n° 2 dessa sobejamente mencionada turma B do  ano lectivo, 1958-59!

O desaparecimento físico do Tony produziu um imenso choque. Obviamente para a família em primeiro lugar: para a mãe, a D. Esmeralda ainda viva na altura, o irmão Waldemar, os filhos ainda em tenra idade, a Lara e os gémeos Samory e Jorge,  seu primogénito Valdemar com o diminutivo de ‘Djony’ e obviamente a inconsolável esposa Elsa Almeida Marques. E naturalmente para uma infinidade de amigos e conhecidos…

Esse trágico acontecimento, um mergulho à beira-mar numa zona escarpada, ocorreu, se a memória não me trai, em 1985. Estava eu em vésperas de deixar Bissau a caminho dos Estados Unidos, a coberto de uma bolsa de estudos. A notícia tombou em Bissau com enorme estrondo, como que o ribombar de uma trovoada.

Por se tratar de uma figura bastante conhecida em Bissau…, a notícia deixou meio mundo incrédulo!

Partiu na flôr da idade como é costume dizer-se. Pelas minhas contas, enquanto contemporâneo, Tony estaria na altura dessa tragédia, nos seus 40 anos ou 41 quando muito!

Tony, para além do seu espírito afável e comunicador, foi um desportista polivalente. Só me fica a dúvida quanto ao hóquei em patins. Entretanto vi-o praticar futebol no Ténis Clube de Bissau, bem como outras modalidades como o basketball, volleyball, handball para não falar da sua paixão pelo ténis, o lawn-tennis no qual o irmão, o saudoso Waldemar e o também falecido Jorge Sinais foram brilhantes praticantes.

Para além desses atributos no plano desportivo, não posso deixar de mencionar as suas qualidades artísticas. Viola, baixo e acústica nunca lhe puseram em xeque. Conjuntos musicais, serenatas e outras actividades desse género fizeram parte dos seus hobbies de predilecção.

Mornas e coladeiras, passando por sambas e canções brasileiras, tudo o saudoso Tony cantou. Parece-me ouvi-lo: “Oi dja Braba n’ka nêgábo, oi nha ninho n’ka dixábo…” ou se quiserem, contorcendo-se como só ele sabia, cantando e dançando os roc’n’roll de Bill Halley , de Chubby Checker ou de Elvis Presley o rei do rock-and-roll. Enfim, também polivalente na música e canções.

E quando se sentia mais românco, era delicioso ouvi-lo cantar slows como o September In The Rain do compositor americano Nelson Riddle ou o Love Is A Many Splendored Thing dos compositores Sammy Fain e Paul Francis Webster, como reza o Wikipédia… E conhecia muitas mais. Servia-se de um vastíssimo repertório das mais célebres vozes americanas da época: Sinatra, Dean Marin, Nat King Cole e & …

No plano profissional Tony ascendeu a posições de relevo tanto na Guiné como em Cabo Verde, nos Serviços Aduaneiros de ambos os países.

Mas passemos ao espírito Tatitataia para vos contar um pequeno episódio ocorrido numa sala de aula do Liceu Honório Barreto, acontecimento esse em que o Tony Marques foi vedeta.

Só um Tony Marques e só uma turma como o 3° B, poderiam tornar possível semelhante episódio. Oiçam porque vale a pena… 

Que acreditem ou não…, a cena que tentarei reproduzir o mais fidedignamente possível, teve lugar durante uma aula de matemática leccionada pela Dra Fernanda Barroso irmã de uma outra professora, essa de história e de nome Francisca Barroso que a malta entendeu alcunhar de Nha Xica! A rapaziada tinha portanto duas manas professoras: a ‘Nha Xica e Nha Fernanda’, ambas com ares de inveteradas solteironas.

E por conta dessa declarada inclinação pelo celibato…, os mais afoitos diziam que se num dia de sol luminoso a D. Francisca chegasse a vencer essa tendência para o celibato, ‘dando o passo’…, levaria a irmã na qualidade de um bónus… ao feliz ou infeliz do marido que lhe saísse na lotaria dos amores.

E não é que por conta desse imaginário ou inimaginável ‘bónus’…, a pobre da professora, refiro-me à D. Fernanda, deixa literalmente de ser mencionada pelo nome próprio para ser, dos pés à cabeça, conhecida como a ‘labarrémo’, o que em crioulo significa mesmo… GORJETA! E esta?!

Mas passemos ao relato da cena soberbamente interpretada pelo nosso Tony Marques. Prestem atenção…

Toca a sineta para o início das aulas e a garotada entra na sala onde, a caminho dos seus lugares ainda encontra tempo para uma palmada no colega, uma careta, pronunciar com suficientes decibéis  uma alcunha pouco apreciada, a qual, por pouco simpática dava direito a retornos nem sempre em conformidade com as regras de boas maneiras…, ou uma ou outra saída menos previsível que viesse à mente! Depois desses momentos de alguma atribulação, instaurava-se algum silêncio nem sempre suficiente e de qualidade a permitir que se processasse em devidas condições a conhecida chamada para conferir presenças.

Conferidas as presenças e com a professora Fernanda Barroso em vias de acabar de escrever no livro de ponto o sumário da matéria prevista para essa aula, a turma vê um aluno abandonar seu lugar com um sorriso nos lábios e muito seguro de si, avançar descomplexadamente em direção à secretária da professora, colocada por cima de um estrado e próxima dos dois grandes quadros em ardósia.

Sendo esse aluno o Tony Marques, a turma não precisou de nenhuma explicação de fosse quem fosse para se aperceber que a rapaziada estava na iminência de presenciar uma daquelas cenas a não ser tão cedo esquecida… Dominando  uma natural excitação, esse 3° B soube aguardar o momento para demonstrar a sua habitual solidariedade e a sua indefectível cumplicidade para com todo aquele que se mostrasse mais audaz. E uma vez mais, nesse dia e nessa aula, essa solidariedade foi assumida com bastante brilho. Mas que turma…

Tony vence os dois degraus do estrado e em pequenos passos aproxima-se da secretária da Nha Fernanda a labarrémo com um ar pedinchão e um sorriso bem maroto esperando o apoio da sua troupe. O silêncio é quebrado pela professora que diz: o que faz aqui o Marques? Vá para o seu lugar. E a reacção de Tony não tardou: minha senhora, eu quero cantar!

Foi exactamente isso que a professora e a turma ouviram desse Tony mantendo um aberto sorriso, cada vez mais envolvente, mais contagiante e perfeitamente descontraído como se estivesse tendo um comportamento merecedor de rasgados elogios.

E foi nesse preciso momento que a turma não se conteve e libertou dois pestinhas, e seria de estranhar que o Galvas não tivesse sido um deles…, que sobem ao estrado e se posicionam à frente do Tony e dizem à professora: ai Deus minha senhora, ai Deus… deixe o Tony cantar. Ele canta bem, bem, bem, muito bem mesmo. A senhora vai gostar!

E sem esperarem pelo aval da professora esses ‘dois pestinhas’ incitaram Tony cantar: Tony canta, ka bu médi; alinú li, kanta!... ao que ele não se fez esperar e muito menos rogado….

Daqui p’rá frente espero poder contar com a vossa imaginação para poderem na devida medida apreciar essa cena absolutamente surrealista, digna de ser vista e revista. É um Tony totalmente descomplexado e descontraído que, cantando e dançando ao mesmo tempo, premeia toda uma turma plena de alunos e de um pequeno punhado de estudantes, com a seguinte canção toda ela brasileira: Eu quero-me casar, eu quero-me casar, eu quero-me casar mas não sei com quem (?!), você quer (?!) , ta-ra-ra-ra-ra-ra…ra-ra-ra! Bis repitita… Eu quero-me casar, eu quero-me casar, eu quero-me casar mas não sei com quem (?!), você quer (?!) , ta-ra-ra-ra-ra-ra…ra-ra-ra! Isso tudo bem dançado e sempre estimulado pelos espectadores…

E não preciso dizer-vos que os mencionados pestinhas que partiram a apoiar Tony, envolveram-se de corpo e alma nessa coreografia dançando ao lado do Tony que, a cada vez que questionava o você quer…, punha as duas mãos sobre o peito como que a medir as batidas de um coração apaixonado. Como disse, surrealista MAS aconteceu ali à frente de uma salada de muitos alunos e poucos estudantes, prefazendo um total de cerca de pouco mais de vinte…

Isso foi obra do Tony Marques e desse 3° B de gratas memórias. Repousa em paz querido Tony!

E para terminar esta singela homenagem a Tony Marques ou se quiserem uma terna lembrança a esse meu saudoso amigo e companheiro de turma, tomo a liberdade de vos fazer ouvir duas canções que Tony, por apreciá-las sobremaneira, as cantarolava amiúde: September in The Rain na voz do inolvidável Frank Sinatra e Love is The Many Splendored Thing na suavíssima voz de veludo do não menos famoso Nat King Cole. Que sejam ambas do vosso agrado!

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Saber não ocupa espaço!

Tatitataia tem o prazer de partilhar algumas saborosas e instrutivas expressões recolhidas de “Uma viagem pelas histórias das EXPRESSÕES PORTUGUESAS, Nova Edição nos trinques de NAS BOCAS DO MUNDO” do autor Sérgio Luís de Carvalho, Editora: Grupo Planeta. Página 65…

“Coisas de reis, de nobre e de cavaleiros:

A sociedade mediaval é uma sociedade tripartida, ou seja, assente em três grupos sociais: clero, nobreza e povo. As funções, hierarquias e estatutos de cada grupo estavam bem definidos. Cabia aos nobres manter a ordem e a paz (os belatores, ou seja, os que combatiam), cabia ao clero orar (eram os oratores, os que oravam) e ao povo cabia suportar a sociedade (eram os laboratores, os que laboravam).

Em termos de Estado, a medievalidade marca um período de tentativas de afirmação do poder real, numa relação nem sempre fácil com os grupos privilegiados, também eles detentores de poder: nobreza e clero. De facto, o feudalismo levou, em muitos países, a um esfacelar do poder régio.

Vejamos então expressões ligadas a reis, nobres, cavaleiros e demais gente dos grupos privilegiados deste mundo medieval. E muitas dessas expressões são, realmente…

Do tempo dos afonsinhos [afonsinos]

… que remete para algo muito antigo ou arcaico. Neste caso, é clara a referência à primeira dinastia portuguesa (século XII a XIV) fundada por Afonso I: a dinastia afonsina, que também se designa por dinastia de Borgonha. E já que falamos de reis… Nas suas cortes existiam tradições curiosas que deram origem a expressões que ainda hoje subsistem. Uma, assaz conhecida, é:

[Ser o] Bobo da corte

O significado é simples: ser aquele com quem todos gozam, ou aquele que faz tolices. Nas antigas cortes europeias, o bobo correspondia àquela personagem que podia ironizar com tudo e com todos sem ser punido (bom, desde que não exagerasse, claro). No fundo era alguém que não era levado a sério. Note-se, já agora, que o próprio termo “bobo” vem do latim balbus, que significa “gago”. A explicação é simples. Uma das formas de provocar o riso era através da imitação da gaguez, técnica ainda hoje usada por cómicos pouco imaginativos.

Mas a corte, nos primeiros tempos da nossa monarquia, não tinha poiso certo. Muitas vezes deslocava-se pelo país, estabelecendo-se em paços, em castelos ou em quintas régias. Daí vem a expressão…

Estar nas suas sete quintas

… que quer dizer  “estar deliciado, estar muito confortável”. Segundo uma antiga lenda, os reis nacionais possuíam sete quintas no Seixal, para as quais se recolhiam quando queriam descansar e folgar. Estavam nas suas sete quintas, de facto. Caberá aqui recordar que, por muito interessantes que as lendas sejam, não correspondem à verdade histórica. Mas que podem dar origem a expressões correntes, lá isso podem…

Continuando com os reis, uma expressão muito conhecida é…

Andar com o rei na barriga

… ou seja, “fazer-se importante, agir com soberba”. A origem desta expressão não parece complicada. Remonta ao tempo das monarquias europeias, quando a gravidez de uma raínha era motivo quer de preocupação quer de alegria. Preocupação pelo elevado grau de periculosidade associado à gravidez e ao parto (vinte por cento das mulheres do Antigo Regime morriam no parto), e alegria pelo príncipe que ia nascer e que assegurava a continuidade da dinastia. Por tudo isto, a raínha era alvo de atenções e cuidados constantes; literalmente, “andava com o rei na barriga”. Diga-se, entretanto, que de França, e associado a este tema, nos veio a expressão:

[Ser um] Delfim

… que mais não é que “ser o sucessor natural de alguém, ser o preferido de um líder para a sua própria sucessão”. Sucede que “delfim” (dauphin) era a designação do príncipe herdeiro na antiga monarquia francesa, sobretudo nas dinastias Valois (séculos XIV a XVI) e Bourbon (séculos XVI a XVIII).

E já que falamos de reis, podemos aqui referir uma curiosa e já pouco frequente expressão que é:

Não é nenhuma ucharia

A ucharia era um cargo mediavel que consistia em cuidar da despensa da casa real, sendo ocupado geralmente por um nobre. Era um cargo importante e bem remunerado, a julgar pela expressão acima citada.

Dos nobres e dos cavaleiros mediavais vem ainda a expressão…

[Ser um] Paladino

… que designa um nobre defensor de uma causa. No poema épico mediaval francês, Chanson de Roland, os Paladinos eram os doze cavaleiros de Carlos Magno. Recorde-se que o poema teve particular divulgação na Europa da época. Entretanto, diga-se que o próprio termo tem a sua origem em palatinus (oficial do palácio imperial), que, por sua vez, remonta ao monte Palatino, na Antiga Roma.

Mantenhamo-nos nos nobres, fidalgos, e cavaleiros, no seu mundo e hábitos. Se bem que, como hoje, as modas variassem e o costume de ter barba fosse condicionado pela moda, é também certo que as barbas eram geralmente sinal de sabedoria e nobreza. Assim, temos a famosa asserção…

Pôr as barbas de molho

… que se diz quando alguém se acautela contra um perigo iminente. A frase leva-nos, de facto, a estes tempos. Cortar as barbas, ou ser obrigado a cortá-las, era tido como humilhante para certos escalões sociais, sobretudo para a nobreza. Por isso, muitos homens eram muito cuidadosos na sua preservação. O próprio D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia, quando teve que reconstruir, em 1546, a fortaleza de Diu, empenhou as barbas como garantia de um empréstimo de vinte mil pardaus para tal tarefa. A frase completa é: “Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as barbas de molho.” Popularmente, só ficou a segunda parte. A vaidade cedia à humildade. Curiosamente (perdoe-se-nos o aparte), também na Rússia, China e Japão, as barbas e o cabelo eram considerados como marcas nobilitantes; de tal forma que quando alguns monarcas quiseram reformar os seus países, ordenaram o corte de barbas e cabelo aos súbditos, como marca de um forçado progresso. Esse foi o caso do imperador Pedro, o Grande, na Rússia, que, por volta de 1700, ordenou o corte das longas barbas da nobreza rural russa. Quem não quisesse, teria de pagar pesados impostos.

Aliás, que a honra e a coragem era algo de essencial para os nobres, prova-o a histórica frase que se segue e que ainda hoje é usada:

É fartar, vilanagem!

A expressão é usada por alguém que se considera injustamente alvo de críticas ou de perseguições por parte de pessoas tidas como “inferiores”. Na Batalha de Alfarrobeira, em 1449, o infante D. Pedro foi morto pelas tropas reais de D. Afonso V, na sequência de intrigas palacianas contra o infante. Nessa batalha pereceu também o seu grande amigo, D. Antão Vaz de Almada. Reza a lenda que, enquanto combatia, e já moribundo, D. Antão gritava desdenhosamente aos soldados que o trespassavam: “É fartar, vilanagem!” A frase passou a figurar como paradigma de altiva coragem e de desprezo pela adversidade.

Prossigamos com as artes bélicas. Afinal, não nos olvidemos de que, nesta sociedade tripartida e trifuncional, cabia à nobreza combater e dedicar-se à guerra. Eram os belatores, como vimos…

Uma expressão ligada aos nobres e às artes bélicas, é…

[Ser um] Cavalo de batalha”

Por hoje ficamos por aqui. A explicação de “[Ser um] Cavalo de batalha”, será tema para o próximo “Saber não ocupa espaço”, rubrica onde conhecerão outras não menos interessantes expressões todas recolhidas da mencionada “Uma viagem pelas histórias das EXPRESSÕES PORTUGUESAS, Nova Edição nos trinques de NAS BOCAS DO MUNDO” do autor Sérgio Luís de Carvalho, Editora: Grupo Planeta.

Sejam pacientes…