Saber não ocupa espaço!

Tatitataia tem o prazer de partilhar algumas saborosas e instrutivas expressões recolhidas de “Uma viagem pelas histórias das EXPRESSÕES PORTUGUESAS, Nova Edição nos trinques de NAS BOCAS DO MUNDO” do autor Sérgio Luís de Carvalho, Editora: Grupo Planeta. Página 65…

“Coisas de reis, de nobre e de cavaleiros:

A sociedade mediaval é uma sociedade tripartida, ou seja, assente em três grupos sociais: clero, nobreza e povo. As funções, hierarquias e estatutos de cada grupo estavam bem definidos. Cabia aos nobres manter a ordem e a paz (os belatores, ou seja, os que combatiam), cabia ao clero orar (eram os oratores, os que oravam) e ao povo cabia suportar a sociedade (eram os laboratores, os que laboravam).

Em termos de Estado, a medievalidade marca um período de tentativas de afirmação do poder real, numa relação nem sempre fácil com os grupos privilegiados, também eles detentores de poder: nobreza e clero. De facto, o feudalismo levou, em muitos países, a um esfacelar do poder régio.

Vejamos então expressões ligadas a reis, nobres, cavaleiros e demais gente dos grupos privilegiados deste mundo medieval. E muitas dessas expressões são, realmente…

Do tempo dos afonsinhos [afonsinos]

… que remete para algo muito antigo ou arcaico. Neste caso, é clara a referência à primeira dinastia portuguesa (século XII a XIV) fundada por Afonso I: a dinastia afonsina, que também se designa por dinastia de Borgonha. E já que falamos de reis… Nas suas cortes existiam tradições curiosas que deram origem a expressões que ainda hoje subsistem. Uma, assaz conhecida, é:

[Ser o] Bobo da corte

O significado é simples: ser aquele com quem todos gozam, ou aquele que faz tolices. Nas antigas cortes europeias, o bobo correspondia àquela personagem que podia ironizar com tudo e com todos sem ser punido (bom, desde que não exagerasse, claro). No fundo era alguém que não era levado a sério. Note-se, já agora, que o próprio termo “bobo” vem do latim balbus, que significa “gago”. A explicação é simples. Uma das formas de provocar o riso era através da imitação da gaguez, técnica ainda hoje usada por cómicos pouco imaginativos.

Mas a corte, nos primeiros tempos da nossa monarquia, não tinha poiso certo. Muitas vezes deslocava-se pelo país, estabelecendo-se em paços, em castelos ou em quintas régias. Daí vem a expressão…

Estar nas suas sete quintas

… que quer dizer  “estar deliciado, estar muito confortável”. Segundo uma antiga lenda, os reis nacionais possuíam sete quintas no Seixal, para as quais se recolhiam quando queriam descansar e folgar. Estavam nas suas sete quintas, de facto. Caberá aqui recordar que, por muito interessantes que as lendas sejam, não correspondem à verdade histórica. Mas que podem dar origem a expressões correntes, lá isso podem…

Continuando com os reis, uma expressão muito conhecida é…

Andar com o rei na barriga

… ou seja, “fazer-se importante, agir com soberba”. A origem desta expressão não parece complicada. Remonta ao tempo das monarquias europeias, quando a gravidez de uma raínha era motivo quer de preocupação quer de alegria. Preocupação pelo elevado grau de periculosidade associado à gravidez e ao parto (vinte por cento das mulheres do Antigo Regime morriam no parto), e alegria pelo príncipe que ia nascer e que assegurava a continuidade da dinastia. Por tudo isto, a raínha era alvo de atenções e cuidados constantes; literalmente, “andava com o rei na barriga”. Diga-se, entretanto, que de França, e associado a este tema, nos veio a expressão:

[Ser um] Delfim

… que mais não é que “ser o sucessor natural de alguém, ser o preferido de um líder para a sua própria sucessão”. Sucede que “delfim” (dauphin) era a designação do príncipe herdeiro na antiga monarquia francesa, sobretudo nas dinastias Valois (séculos XIV a XVI) e Bourbon (séculos XVI a XVIII).

E já que falamos de reis, podemos aqui referir uma curiosa e já pouco frequente expressão que é:

Não é nenhuma ucharia

A ucharia era um cargo mediavel que consistia em cuidar da despensa da casa real, sendo ocupado geralmente por um nobre. Era um cargo importante e bem remunerado, a julgar pela expressão acima citada.

Dos nobres e dos cavaleiros mediavais vem ainda a expressão…

[Ser um] Paladino

… que designa um nobre defensor de uma causa. No poema épico mediaval francês, Chanson de Roland, os Paladinos eram os doze cavaleiros de Carlos Magno. Recorde-se que o poema teve particular divulgação na Europa da época. Entretanto, diga-se que o próprio termo tem a sua origem em palatinus (oficial do palácio imperial), que, por sua vez, remonta ao monte Palatino, na Antiga Roma.

Mantenhamo-nos nos nobres, fidalgos, e cavaleiros, no seu mundo e hábitos. Se bem que, como hoje, as modas variassem e o costume de ter barba fosse condicionado pela moda, é também certo que as barbas eram geralmente sinal de sabedoria e nobreza. Assim, temos a famosa asserção…

Pôr as barbas de molho

… que se diz quando alguém se acautela contra um perigo iminente. A frase leva-nos, de facto, a estes tempos. Cortar as barbas, ou ser obrigado a cortá-las, era tido como humilhante para certos escalões sociais, sobretudo para a nobreza. Por isso, muitos homens eram muito cuidadosos na sua preservação. O próprio D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia, quando teve que reconstruir, em 1546, a fortaleza de Diu, empenhou as barbas como garantia de um empréstimo de vinte mil pardaus para tal tarefa. A frase completa é: “Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as barbas de molho.” Popularmente, só ficou a segunda parte. A vaidade cedia à humildade. Curiosamente (perdoe-se-nos o aparte), também na Rússia, China e Japão, as barbas e o cabelo eram considerados como marcas nobilitantes; de tal forma que quando alguns monarcas quiseram reformar os seus países, ordenaram o corte de barbas e cabelo aos súbditos, como marca de um forçado progresso. Esse foi o caso do imperador Pedro, o Grande, na Rússia, que, por volta de 1700, ordenou o corte das longas barbas da nobreza rural russa. Quem não quisesse, teria de pagar pesados impostos.

Aliás, que a honra e a coragem era algo de essencial para os nobres, prova-o a histórica frase que se segue e que ainda hoje é usada:

É fartar, vilanagem!

A expressão é usada por alguém que se considera injustamente alvo de críticas ou de perseguições por parte de pessoas tidas como “inferiores”. Na Batalha de Alfarrobeira, em 1449, o infante D. Pedro foi morto pelas tropas reais de D. Afonso V, na sequência de intrigas palacianas contra o infante. Nessa batalha pereceu também o seu grande amigo, D. Antão Vaz de Almada. Reza a lenda que, enquanto combatia, e já moribundo, D. Antão gritava desdenhosamente aos soldados que o trespassavam: “É fartar, vilanagem!” A frase passou a figurar como paradigma de altiva coragem e de desprezo pela adversidade.

Prossigamos com as artes bélicas. Afinal, não nos olvidemos de que, nesta sociedade tripartida e trifuncional, cabia à nobreza combater e dedicar-se à guerra. Eram os belatores, como vimos…

Uma expressão ligada aos nobres e às artes bélicas, é…

[Ser um] Cavalo de batalha”

Por hoje ficamos por aqui. A explicação de “[Ser um] Cavalo de batalha”, será tema para o próximo “Saber não ocupa espaço”, rubrica onde conhecerão outras não menos interessantes expressões todas recolhidas da mencionada “Uma viagem pelas histórias das EXPRESSÕES PORTUGUESAS, Nova Edição nos trinques de NAS BOCAS DO MUNDO” do autor Sérgio Luís de Carvalho, Editora: Grupo Planeta.

Sejam pacientes…

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4 thoughts on “Saber não ocupa espaço!

  1. Djarama Mano João Galvão Borges, por mais uma pista num índico de palavras e sentido a dar de acordo com o contexto inserido, o meu Pai por exemplo dizia: “estuda filho, consulta o pai dos burros (era o Dicionário de Português); tens de ler ainda mais, porque o saber não ocupa lugar, e por aí (…) Fez-me recordar agora o meu velho amigo, que conhecia profundamente a Língua Portuguesa… Abração Mais velho. Estamos a aguardar, acredito que muitos de nós, estão na “garagem”, mas prontos a sair para uma publicação (1ª), no entanto, os mais velhos devem ir na frente rsrsrsrsrsrsrsrsrsr, enfim, hoje!, como quase tudo sai em “livro”, ando com tosse rsrsrsrs… No seu caso, publique a sua obra sff., (tenho lido as suas publicações e reconheço enorme qualidade literária)…. Abração. Pina.

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