Farim de Dindim Bankô!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Farim de Dindim Bankô é uma expressão popular bissau-guineense que se pode traduzir por: Farim, terra de alegria, terra de crianças e adultos felizes em festa. Resumindo: terra de paz!

Façamos votos que assim seja. Não só em relação a Farim como em todas as cidades, vilas e tabancas dessa Guiné que nos diz muito e onde muitos deixaram um grande pedaço de suas vidas, e não só. Que reine uma paz duradoura. Uma paz definitiva!

O nosso Tatitataia encontrou em Farim tudo quanto necessário para a presente narrativa. Nesse tudo estão envolvidos factos ocorridos: na piscina de Farim e durante a estada de quase duas semanas para mais um dos acampamentos da MP, Mocidade Portuguesa.

Começarei pelo episódio da piscina!

No período da manhã todo esse mundo de jovens roía as unhas na expectativa da  ‘luz verde’ autorizando a deslocação à piscina. Esse recinto abarrotado de gente na sua grande parte  vinda de Bissau, tornava-se particularmente atractivo pela presença de umas quantas miúdas em traje de banho.

No que diz respeito à escassa nudez dessas miúdas, meu Deus! Ó quanta testosterona em ebulição nos corpinhos desses jovens rapazes em ofegantes suspiros por essas donzelas, cautelosa e religiosamente protegidas pela bem apertada vigilância dos pais dessa época… Um verdadeiro tormento. Que injusto suplício!

A primeira vítima dessa testosterona em ebulição que, de forma generosa e equitativa, ia causando esses injustos suplícios nas hostes desses  pupilos da MP, foi um jovem veterano de nome Nélson Nogueira Fernandes, amplamente tido e aceite por ‘Nélson Couves’!

Eis que o nosso ‘Couves’, sob os devastadores efeitos de uma desproporcionada e explosiva mistura de testosterona e adrenalina, ambas de superior qualidade e actuando sob tutela de pacífica sinergia, sobe com invejável energia os degraus da estrutura em betão armado onde estão instaladas as pranchas destinadas aos mergulhadores.

Optando posicionar-se no mais elevado patamar tentou, através de um artístico mergulho, despertar as atenções de algumas das citadas donzelas, justa ou injustamente responsáveis pelo mencionado suplício.

Sentindo-se na pele de um Adónis guineense quis, através da sua iminente acção, fazer esquecer a elegância dos mergulhos de um John Weissmuller, na pele de Tarzan, herói da selva africana nos muitos filmes dos anos 50, rodados por todos os cantos da Guiné pelo saudoso Manuel Joaquim.

Qual pára-quedista, lança-se de braços abertos mantendo o corpo paralelo à piscina. Entretanto, do que se esperou ser um artístico mergulho acabou sendo, numa ínfima fracção de segundo, uma desastrosa aterragem: bate de chapa na água produzindo um sonoro splashhhhhh!

Dando sinais de extrema debilidade, foi imediatamente retirado da piscina e prontamente conduzido, não sei se ao hospital, se ao quartel de Farim para ser urgentemente submetido a cuidados clínicos. Hoje, não saberei dizer-vos, tão rápido foi socorrido, se o Nélson não terá perdido os sentidos como consequência do violento embate do corpo ao atingir a água da piscina, produzindo o tal sonoro splashhhhhh….

Porém, algum tempo depois fomos informados que o nosso mergulhador regressara ao recinto do acampamento sem problemas de maior e, portanto, livre de quaisquer razões para preocupações. Esse aviso foi acolhido com uma salva de palmas. Bons rapazes!

Mas esta longa prosa sobre o ambiente na piscina e sobre esse mergulho menos conseguido, tornar-se-ia insípida e injustificável, não fosse ela necessária para que compreendam a enorme decepção manifestada pelo nosso ‘Couves’.

Poucos dias depois, na piscina, e fazendo uso de tudo quanto ainda lhe sobrava de adrenalina,‘Couves’ dirige-se aos banhistas em alto e bom som: o meu terrível mergulho de há dias deu-me muito a aprender. Garanto-vos que, de futuro, nenhuma miúda, por mais bonita que seja, me levará a cometer o mesmo erro. Podia ter perdido a minha vida por conta de um par de pernas femininas. Bô ábri orédja: bô fika na sibi kuma nha mamé ka pâdim pâ nim um kualkér ‘badjuda de mérda’, bim matâm. N’na murri ba na nada….

Esses impropérios ficaram registados e produziram, mais tarde, efeitos bem negativos…

Cada acampamento da MP tem um acontecimento que o marca e que acaba por identificá-lo no futuro. A exemplo, o primeiro acampamento em Bolama guarda a triste memória do falecimento, por acidente ocorrido na praia de Ofir, do jovem Hélder Robalo ao lançar-se de um trampolim, situado a uns cinquenta metros da berma da praia.

Esse gesto, infeliz, efectuado quando  a maré não estava suficientemente alta para permitir que se fizessem mergulhos a partir desse trampolim, levou a que o malogrado, ao bater com a cabeça no fundo, viesse a falecer, vitimado por um traumatismo craniano.

O acampamento de Farim, esse, sem vítimas a lastimar, ficou conhecido por uma fuga nocturna de um punhado de pupilos da MP que, escapando à vigilância da milícia que pretensamente garantia a segurança no interior do acampamento, optaram por fazer gala de uma festa tradicional de batuque na popularíssima zona suburbana de Farim denominada Morkunda.

No momento da revista às tendas, a evidência de uma marcada baixa de efectivos levou essa milícia a reagir prontamente através de um imediato início às buscas. E com essa busca em mente, os mais experientes não tardaram em visar Morkunda como primeiro destino. Esse feeling foi excelente, pois regressaram com o saco cheio…

De regresso a Bissau e umas semanas depois do acampamento de Farim, efectuou-se à noite e no recinto dos jogos de basquetebol e de hóquei em patins do ex-Estádio Sarmento Rodrigues, a festa de encerramento do enésimo curso de comandantes de castelo da Mocidade Portuguesa.

Tendo frequentado esse curso, achei por bem convidar o meu saudoso velho a estar presente na cerimónia de graduação do filho (!!!…). Um convite a que prontamente anuiu, acautelando-se ao dizer: excelente promoção! De comandante da ‘cabulice’ a comandante de ‘castelo’, ambas em ‘c’ mas de conotações bem diferentes. Só espero que isso possa de alguma maneira contribuir para a média do ano lectivo porqueeeee….., o senhor sabe bem a que me refiro!

Esqueçam isso…

No mencionado recinto desportivo, os pupilos formados a rigor e ostentando a farda da MP, iam sendo chamados para passarem à tribuna de honra onde, orgulhosamente, recebiam os cordões e as divisas de comandante de castelo. O momento era acompanhado de alguma solenidade.

Entretanto, confesso ter começado, à medida que a chamada prosseguia e não ouvia pronunciar o meu nome, a sentir-me possuído por uma palpável angústia. Mas, ó meu bom Deus, quantas e quantas dessas angústias o vosso Galvas não coleccionou ao longo da sua felicíssima vida de estudante, perdão, de aluno do saudoso Liceu Honório Barreto?!

Os minutos seguintes justificaram essa angústia. Não obtive nessa noite a promoção. E com o meu saudoso velho na bancada central, aplaudindo-me pelo olhar. Meu Deus, esse regresso a casa?!

Ahhh, vim a saber mais tarde que para este insucesso contou, e substancialmente, a ‘evasão Morkunda’, em Farim, levada a cabo pelo mencionado punhado de jovens do qual fiz obviamente parte, bem como o nosso ‘Couves’, que também ficou, nessa noite, ‘kuntango’ de cordão e divisas de comandante de castelo.

De regresso a casa, caminhando ao lado do ‘velho’ e procurando, obviamente, manter uma distância de segurança, custou-me ouvi-lo dizer: ei, ‘meu caro senhor’, oiça e oiça MUIIIITO BEM; para a próxima não me convide a esse tipo de  festas, mesmo que o senhor venha a ser promovido a ‘general’.

Ai Galvas, Galvas…

 

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Insultar bem é uma arte!

Durante a minha recente estada em Lisboa, Junho 2014, um amigo de peito teve a gentileza de me oferecer um livro. Não se trata de um romance.  É algo bem diferente mas não menos interessante para o qual guardarei um religioso sigilo. E essa simpática oferta veio acompanhada da seguinte dedicatória: “Espero que te divirtas e municies as tuas crónicas com este ‘paiol”. Abraço fraterno.

E, seguindo essa sábia sugestão, Tatitataia decide partilhar com os seus simpáticos leitores e leitoras algumas saborosas passagens escolhidas nesse valioso ‘paiol’.

Passando a citar:

“À laia de introdução,

Insultar é uma arte. Ou, por outras palavras, insultar bem é uma arte. Deixem-me dar três exemplos que o demonstram.

Primeiro exemplo. Depois de escutar uma peça de Berlioz, Rossini terá comentado um dia: “Esse moço, Berlioz…Ainda bem que não faz música, senão fá-la-ia da pior qualidade.”

Segundo exemplo. Um dia na década de 60, o deputado brasileiro Carlos Lacerda acabara de discursar no Parlamento. Logo um outro deputado, seu opositor, terá comentado: “Excelência, todo o seu discurso foi inútil. Entrou-me por um ouvido e saiu pelo outro.” Lacerda retorquiu: “Impossível, caro colega. O som não se propaga no vácuo.”

Terceiro exemplo. Lady Astor, a primeira inglesa a ser eleita para o Parlamento, disse um dia a Winston Churchill: “Se você fosse meu marido, dar-lhe-ia veneno…” Ao que Churchill respondeu: “Se você fosse minha mulher, bebê-lo-ia…”

Claro que, a bem dizer, estes ditos não serão propriamente insultos; são mais pérolas de retórica. Mas que são magníficos, disso ninguém duvida; e que achincalham quem os recebeu, também me parece evidente. Mas não é essa a função de um insulto? E note-se que um (bom) insulto nem sequer tem de ser dirigido a alguém em especial (seja Berlioz ou Churchill) para ser um mimo. O mais belo insulto que já ouvi foi dirigido pelo humorista brasileiro Juca Chaves à humanidade em geral (ou, pelo menos, a alguns humanos): Se o reino dos céus é dos pobres de espírito, então, meu Deus, estamos no paraíso.

Na verdade este livro não se ocupa deste tipo de insultos frásicos – finos, verrinosos, contundentes, desarmantes e capazes de causar inveja a quem os ouve (que não à vítima, claro). Se iniciámos esta introdução citando-os, foi apenas porque quisemos cativar a atenção do leitor desde logo. Este livro limita-se a descrever a origem e a história de cerca de quinhentos insultos que todos nós conhecemos, melhor ou pior. Alguns, já os proferimos, em voz alta ou à sorrelfa; de outros já fomos alvo. Alguns, de tão elaborados, nem dão jeito proferir. Se o leitor não acredita, experimente chamar iconoclasta ou sevandija a alguém. Outros são comuns, brejeiros, reles mesmo. Perdem em elegância o que ganham em javardice. O facto de resultarem diz bem da decadência a que chegou a nobre e vetusta arte de achincalhar o próximo. São insultos que estão ao nível daquele provérbio árabe que afirma que até os coelhos são capazes de insultar um leão morto.

E se o leitor quiser ter um relance de como o insulto pode ser uma arte, tomo a liberdade de sugerir que passe os olhos pela longa fala de Cyrano de Bergerac, na cena 5 do primeiro acto da peça homónima. Nessa cena, e após um visconde ter insultado o seu nariz dizendo que ele era demasiado grande, Cyrano lança-se num solilóquio sugerindo variadas formas mais imaginativas e requintadas que o fidalgote poderia usar para insultar o apêndice nasal. Um tratado…

Aqui falamos de todos eles. Ou enfim, se não de todos, pelo menos de muitos, dos mais acutilantes aos mais arredondados. E também explicamos a origem de algumas expressões que, aplicadas a alguém, são injuriosas; afinal dizer de outrem que anda à gandaia ou que está com a careca à mostra em nada abona a seu favor.

O que é, enfim, um insulto? O seu próprio étimo responde à questão. A origem da palavra insulto e da palavra assalto é similar: insultare, em latim, significa literalmente saltar para cima. Daqui vem o assaltar e o insultar. Nas línguas latinas e no inglês, os dois verbos são parecidos (assaltar/insultar, to assault/to insult). É até curioso notar que, no inglês medieval, o termo to insult significava literalmente assaltar, atacar ou assediar militarmente…Assim sendo, podemos dizer que um insulto é um dito ofensivo, indecente ou grosseiro dirigido contra alguém; um insulto é um assalto feito à honra, à fama e à dignidade de alguém.

Já agora é bom que não se confunda insulto com injúria, já que na sua origem eram coisas diferentes. A injúria era, entre os romanos, uma violação do Direito (jus) praticada sobre alguém, isto é, era uma intrínseca injustiça. Um injuriado era um injustiçado e não um insultado.

Só na Europa a partir do século XII é que o termo injúria se aproxima do insulto, se bem que mesmo hoje não sejam exactamente sinónimos. Já o insulto era, como vimos, um assalto. Que esse assalto seja desferido com luva de pelica ou com luva de boxe é irrelevante; só muda o estilo.

Dir-se-á, claro, que o estilo muda muita coisa. É verdade. Napoleão dizia que Talleyrand, seu ministro, era uma bosta dentro de uma luva de seda. Aqui temos um insulto que tem estilo e boa forma. Ora como dizia Jean Renoir, cineasta francês de bom-nome e justa fama: a arte é a forma e nada mais que a forma. Por mim, concordo.

Por essas e por outras é que penso que insultar é bem uma arte.

E como agora regresso ao ponto de partida, já o sagaz leitor terá compreendido que aqui termino esta introdução e que é chegada a altura de começar a percorrer a longa história dos insultos portugueses: “Dicionário de Insultos”, Estranhas origens e bizarras histórias dos insultos portugueses, Sérgio Luís de Carvalho, Editora Planeta.””

Ficam assim conhecendo o ‘paiol’ que municiou esta crónica e municiará as próximas com idêntico sabor!

Tatitataia promete voltar brevemente para partilhar as delícias que tem encontrado no mencionado ‘paiol’. E que ‘paiol’! Só um amigo de peito oferece semelhante relíquia…

Sejam pacientes!

Mutaro Djaló, nas malhas da Função Pública!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Esta relato faz parte da minha experiência profissional e aconteceu a um dado momento em 1969-70.

Não sei precisar-vos o mês, mas os  factos desta narrativa ocorreram durante os primeiros passos da minha carreira profissional ao assumir as funções de delegado agrícola para a região de Bafatá, sob tutela dos Serviços de Agricultura e Florestas da então província ultramarina da Guiné Portuguesa. Delegado agrícola, um título demasiado pomposo para quem ainda só podia contar com os conhecimentos teóricos adquiridos na saudosa Escola de Regentes Agrícolas de Santarém em meados dos anos 60. Belos tempos!

Entretanto, ainda sem tempo para libertar-me desses saudosismos, eis-me num cenário de uma Guiné no apogeu da guerra, mas com a auréola do entusiástico paradigma de uma Guiné Melhor  e acerrimamente  defendido pelo recém-chegado governador, o  carismático general António Sebastião Ribeiro de Spínola, a braços com a espinhosa função de apoiar as populações no domínio das minhas ‘supostas’ competências isso, sem qualquer programa na minha pasta e sem recursos postos à minha disposição, tanto humanos como materiais. Aqui d’El rei!

Lançado em pára-quedas numa arena, outra que não a de César, fiz apelo de tudo quanto possuía em mente para inventar e reinventar atribuições susceptíveis de me fazer credível e, de alguma forma, justificar a minha ‘involuntária’ presença em Bafatá.

Comecei por inventariar os celeiros da região na sua grande maioria em notória degradação e mandar repará-los de maneira a poderem receber e manter as sementes em bom estado de conservação. E assim fui, de tarefa em tarefa, dando cautelosamente os primeiros passos no exercício dessa função de delegado agrícola.

Por limitações orçamentais, todo o trabalho administrativo das Delegacias Agrícolas das regiões administrativas da província era da exclusiva responsabilidade dos respectivos delegados dos Serviços de Agricultura e Florestas.

A exemplo, nos primeiros dias úteis de cada mês deslocava-me  aos Serviços de Fazenda onde recebia a folha nominal acompanhada do montante em dinheiro para  pagamento dos salários correspondentes ao mês findo.

Os pagamentos foram sempre efectuados na presença do guarda-florestal Joaquim Serra, ex-militar alentejano desmobilizado, o qual assinava a folha mensal de pagamento na qualidade de testemunha. A cada trabalhador jornaleiro era, com a prévia concordância dos mesmos, deduzido do seu salário a soma correspondente a um saco de arroz.

Para facilitar a compra do arroz destinado ao pessoal jornaleiro, fazia-se uma requisição a pronto pagamento, normalmente dirigida à conhecida Casa Pinheiro.  No momento do levantamento desse arroz, essa requisição era paga com o montante deduzido dos salários para esse efeito.

Uma vez na posse da mercadoria, o velho Land-Rover da delegacia transportava cada trabalhador à sua residência, acompanhado do seu saco com o precioso cereal.  Este procedimento repetia-se todos os meses e, se bem me lembro, sem nenhum incidente registado ao longo do período em que assumi as responsabilidades de delegado.

Com este intróito já bastante longo, é chegado o momento de abordarmos o nosso Mutaro Djaló e o seu nada modesto percalço contra o estatuído pela Função Pública: o organismo que ajuíza e avalia o comportamento dos servidores do Estado em função de normas preestabelecidas para o efeito. Aceitem a definição como correcta!

Num dia em nada diferente dos anteriores e fazendo horas para o jantar num café da ‘Baixa’ de Bafatá, vejo entrar o gerente da Casa Pinheiro, o senhor Albino Pinheiro que, dirigindo-se à minha mesa, perguntou se me sobrava tempo para ouvir o que tinha para me dizer. Ao aceder à solicitação, ofereço um lugar à mesa e convido-lhe a tomar uma bebida.

Saboreando uma chávena de café, foi-me pondo ao corrente da sua relativa inquietação quanto a uma requisição para levantamento de meia tonelada (…) de arroz, autenticada com o carimbo da Delegacia Agrícola e a aguardar ainda pelo seu pagamento. Não precisei de muita reflexão para prever um fraudulento acto de abuso de confiança. Para esclarecer esse problema, pedi ao meu interlocutor que se dignasse estar presente no dia seguinte na Delegacia, acompanhado do comprovativo de levantamento dessa quantidade de arroz.

No dia previsto, reuni na Delegacia os poucos funcionários susceptíveis de terem cometido esse acto fraudulento.  Na presença dos convocados, o senhor Albino Pinheiro não tardou a reconhecer o guarda-florestal Mutaro Djaló, não só responsável pela  falsificação da minha assinatura mas também pelo levantamento da mercadoria que constava nessa viciada requisição.

O culpado, que prontamente assumiu a falta, comprometeu-se a pagar a totalidade do arroz ilegalmente requisitado, não me restando outra alternativa senão participar o ilícito à sede e pedir a instauração de um processo disciplinar.

Na sequência da participação, o faltoso não tardou a receber um formulário com quesitos relacionados não só com o levantamento do arroz como também e, sobretudo, pela indevida e abusiva utilização do carimbo a óleo em uso na delegacia.

Poucos dias volvidos após a recepção dessa dúzia e meia de quesitos, o senhor Mutaro Djaló entregou-me uma magra folha dactilografada onde entendeu, bem à sua maneira e decididamente parco em palavras, responder ao que lhe fora solicitado.

Essa magra folha imortalizou a prosa abaixo transcrita, merecedora de melhor moldura do que uma vulgar pasta de arquivo repousando algures num armário na sede em Bissau…

Excelentíssimo Senhor Chefe dos Serviços de Agricultura e Florestas da Guiné Portuguesa,

Senhor Engenheiro,

Eu, Mutaro Djaló, guarda-florestal de 2.ª classe do Quadro Técnico dos Serviços de Agricultura e Florestas da Guiné Portuguesa, ‘tem a declarar sobre assunto de carimbo’:

Eu Mutaro Djaló e carimbo de Estado Português é como Pai e Filho no berço,

  1. Amor

  2. Amizade

  3. Amigo

Portugal é Continental do Mundo por uma Guiné Melhor.

Data e assinatura.

O inflamado teor desta declaração, impregnada de  um patriotismo de dúbia consistência, ‘virou’ a poção mágica que permitiu Mutaro alcançar a absolvição ….

O signatário dessa patriótica declaração era visto, amiúde, na companhia de um temido indivíduo de nome António Joaquim Chatinho Manjerico, funcionário da DGS, Direcção-Geral de Segurança, a nova face da ex-PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a terrível polícia política do regime salazarista.

É óbvio que, estando a Guiné em ‘pé de guerra’, essa relação acabou por ser do conhecimento da grande maioria dos funcionários públicos radicados em Bafatá, permitindo cada um e a seu jeito tomar as necessárias precauções!…

Esse Chatinho Manjerico foi responsável por hediondos actos de sevícia sobre muitos patriotas guineenses que tiveram a infelicidade de passar pelas masmorras dessa polícia política. De entre esses muitos patriotas figurou um dos fundadores do PAIGC, o saudoso Júlio Antão de Oliveira Almeida, dedicado e competente técnico dos Serviços de Agricultura e Florestas da então província da Guiné.

Júlio Almeida também foi guarda-redes e dirigente da UDIB.

Voltemos a essa homérica declaração!

Na sequência desse processo disciplinar,  fui chamado a Bissau a fim de esclarecer uma ou outra ‘passagem’ da minha participação sobre o fraudulento acto de abuso de confiança, pela falsificação da minha assinatura e, sobretudo, pela indevida e abusiva utilização do carimbo a óleo em uso na delegacia.

Em Bissau e no gabinete do chefe dos serviços, o agrónomo António Queiroga, um capitão miliciano chamado a assumir interinamente a chefia dos serviços durante um interregno causado pela exoneração do senhor Nuno Manuel de Carvalho Martins, um agrónomo proveniente de Moçambique há menos de um ano, diz-me o seguinte:

Senhor Borges, tenho instruções para não deixar este processo ir mais longe. Tome imediata providência para que o senhor Djaló pague o que indevidamente levantou na casa comercial que você menciona na participação e, em nome de todos os santos, ponha-me um ponto final nessa história. E que seja um ponto final sem parágrafo…

Perante essa bem esclarecedora decisão… respondi: não se preocupe! De regresso a Bafatá tomarei imediatas medidas para que tudo fique resolvido, em conformidade com o que acaba de determinar.

Creio ser do interesse dos nossos leitores saberem que, depois da independência da G-Bissau, o nosso Mutaro Djaló continuou exercendo não só as funções de guarda-florestal como também as de fervoroso guardião da revolução bissau-guineense triunfantemente ovacionada por todo o território nacional. Resumindo: um delator nato!

E, para finalizar este episódio, nada melhor que o sábio aforismo: Búli ke custuma balança, nim ke bento ka tem…alâ i na balança son!

Daniel, o guigui mwangolé!

Querendo preservar o habitual prazer de oferecer aos seus prezados e simpáticos leitores algo diferente  das habituais estórias ou passadas estritamente guineenses e com o ex-Liceu Honório Barreto servindo de palco, Tatitataia fez recurso do enorme talento do guigui Daniel Gomes Nazaré e da experiência linguística adquirida pelo mesmo, no seio de uma comunidade angolana do Bairro de Brandoa, nos arredores de Lisboa. Dizer guigui, é dizer guineense.

Daniel começa a enraizar-se mais profundamente nessa comunidade através de um conhecido que muito cedo se tornou amigo: Domingos Francisco, vulgo Mêmo, colega de Faculdade e influente membro da comunidade de mwangolés, como são conhecidos os angolanos.

Para efeitos tidos por convenientes, a terminologia Faculdade, no presente contexto e mui ironicamente, refere-se ao mundo da Construção Civil. Assim, guiguis e mwangolés podiam, no espaço de um ano, frequentar mais do que uma Faculdade. A título de exemplo, diriam ter frequentado as Faculdades de Lagos e de Entroncamento se, nesse espaço de tempo, tivessem construído algo nessas duas cidades. Os locais de trabalho davam nome às faculdades.

Mêmo, dos poucos universitários mwangolés ao corrente da identidade guigui de Daniel e de Malam, aproveitava as farras angolanas de fim-de-semana, comummente baptizadas de momentos de birra farras bem regadas… para permitir que Daniel e seu inseparável Malam se familiarizassem com Xando, seu primo, e com os demais membros da comunidade. Essa apadrinhada integração permitiu a Daniel e ao não menos talentoso Malam irem dominando o mwangolé e, sobretudo, se aperfeiçoarem no bom uso das expressões mais recorrentes.

Com o decorrer do tempo, os dotados Daniel e Malam, por dominarem a gíria angolana com facilidade e mestria, acabaram por fazer pairar no seio dos mwangolés, uma persistente dúvida quanto à verdadeira identidade de ambos: guiguis, guineenses? cabujuras, cabo-verdianos? OU MESMO, MWANGOLÉS? Saibam que nessa comunidade, os guiguis também são adjectivados de guitarras e guimarús!

Do léxico mwangolé chamo especial atenção para a expressão ú-iii. Essa preciosidade, que não se lê como os monossílabos ui ou ai, pronuncia-se com um ligeiro compasso entre as duas sílabas ú e iii e significa, com alguma nuance: tipo, gajo, ou sujeito, assumindo a qualidade de um pronome indefinido, a exemplo de: kem kônhéci êssi ú-iii? Davidi, você kônhéci êssi ú-iii? Ou ainda, o bem recorrente: pai, kumú é ke é? Kem é êssi ú-iii? Proveniente do mesmo léxico, a expressão ‘pai’ demonstra afecto e respeito por qualquer interlocutor, podendo, por isso, substituir, tanto no princípio como no fim de uma frase, nomes próprios como: João, Pedro, Mutambo, Tiago, Xando, Djamila ou expressões do tipo “ó pá”, “senhor”, “amigo” e outras tantas!

Quanto à etimologia, essa mwangolice presume encontrar raiz na ‘well british’ Who is he/Quem é ele? que, passando pela contracção Who’s he, finaliza nesse bizarro ú-iii bem mwangolês. Mundialização a quanto obrigas!

Segundo Mêmo, a grande maioria dos mwangolés que, tal como Daniel e Malam, assegurava o ganha-pão em diferentes faculdades por esse Portugal fora, era oriunda da Região de Quibala. Esses quibalistas, entretanto, alimentavam um bairrismo bem chauvinista, sem ocultar um descomplexado sentimento de superioridade em relação aos poucos mwangolés não quibalistas, frequentando as mesmas faculdades.

Ao falar da gastronomia desses mwangolés, Daniel, oferecendo o melhor dos seus sorrisos, alertou Tatitataia para a bem vincada preferência dos nossos amigos quibalistas por uma variada gama de roedores, à semelhança dos esquilos, nossos sáninhos, joaquim doido, o popularíssimo djikim dór, farfanas, demais predadores nocivos à cultura de cana sacarina e, uma gama de omissos, desta lista, pouco exaustiva, quanto inclusiva! Para bom entendedor…

A propósito do nosso djikim dór, famoso por tudo quanto é canto na G-Bissau, Tatitataia aproveita a oportunidade para levantar o véu dessa tamanha admiração e levar ao conhecimento de todos quantos, eventualmente, ainda desconhecem as razões que tornaram esse roedor tão popular. Segundo lenda e contos, esse animal adquiriu fama (e prestígio…) ao demonstrar que, se lhe puserem à entrada da toca qualquer recipiente contendo aguardente, de cana ou de outra fruta, o nosso bicharoco não se faz rogado e, sem preconceitos ou parcimónia, esvazia o recipiente e, uma vez bêbado que nem um cacho, vagueia pelo interior da toca as vezes necessárias para proceder ao autodespejo da residência, numa espécie de autopunição ou, quiçá, em reconhecimento a quem lhe tenha infligido essa valente piela. E, uma vez finda a operação de despejo: todos os haveres postos fora da toca ficam, gratuita e indiscriminadamente, à disposição de qualquer passante de ocasião! Môkú kâ bâli…

Mas, voltemos aos nossos Malam e Daniel e seus mwangolés!

Numa bela tarde de setembro, Malam e alguns universitários aguardavam na estação de caminhos de ferro de Santa Apolónia que Daniel se lhes juntasse a fim de seguirem para a Faculdade de Entroncamento onde o patrão, responsável pelo ganha-pão desses briosos universitários, adjudicara um excelente contrato para construção de um supermercado com razoáveis dimensões. Uma rara oportunidade em tempos de crise!

Ainda em Santa Apolónia, os nossos mwangolés ficaram admiradíssimos, extasiados diria eu, com a facilidade com que Malam prestara esclarecimento a um pequeno grupo de turistas americanos pretendendo visitar o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. Motivado por esse feito, um mwangolé mais afoito, ao ver Daniel chegar, extravasa: Danieli, esse teu mano é meeesssmo truta (esperto, arguto, desenvolto). Truta meeesssmo. Te juro, meu!

Olha aí: esse ú-iii é truta. Você ke num sabi. É meeesssmo muuuito truta, pai! Ele chupa o inglês, chupa meesssmo. Pai, apareceu aí uns kamóne e êli começou aí a kuspiri o inglês para cima dêlis, pai. Os kamóne ‘queria’ ir a Belém e esse ú-iii explicou tudo para êlis. Explicou direitinho mesmo, xé, xé, xé, xé, xé! Tu divia di vêêêri, pai. Esse ú-iii kóspi o inglês, juro. Kospi melhori que você fala o portuga, meu. Num têiiiiima, pai! Nãããooo! Esse ú-iii, é meesssmo truta. Com Deus!

Um outro mwangolé, eufórico, convida o grupo para ‘rodadas’ de birra, repetindo: sim sinhôr, Malam. Tu é meeesssmo truta. Truta mesmo. Xeeee, tu mereeeci bué de birra. Juro meeesssmo! Vamos, tenho kumbú (dinheiro) para bué de birra (bué é, muito, bastante)!

E sempre num rodopio de elogios a Malam, o herói da tarde, o grupo lá se acantonou num bar, nas imediações da estação de Santa Apolónia para, de birra em birra, homenagear Malam enquanto aguardava a hora de partida do comboio para a Faculdade de Entroncamento. E quando partiram, convenhamos que, sorrisos, risos, conversas e tudo mais, já não eram determinados pelos mais adequados estímulos, pelo que já não diziam coisa que valesse coisa…

Entretanto, em dezembro de 1998, os mwangolés sofrem pesada perda. Morre o quibalista Domingos Xingo, pai de Xando e de Mana Mita, viúvo de Cecília Mohongo, tio de  Mêmo e, seguramente, de muitos outros. Não esquecer que, em África, o grau de parentesco é regido por parâmetros bem menos restritos, nem sempre baseados na consanguinidade: a afinidade por laços de sangue. Coisas nossas!

Com o supramencionado acontecimento servindo de cenário o talento de Daniel reforçado por uma ousadia de se lhe tirar o chapéu, fragilizaram a dúvida anteriormente mencionada. Efectivamente, a impressionante capacidade de improvisação de Daniel acaba por dissipar os sentimentos de dúvida que pudessem subsistir quanto à sua identidade. Com esse desempenho, Daniel não podia ser senão mwangolé! Impossível atribuir-lhe outra origem que não essa…

Aquando desse repentino quão doloroso desaparecimento físico, Xando, filho primogénito do falecido, assume o papel de anfitrião ao aceitar que as habituais cerimónias de apresentação de condolências, à semelhança das nossas cerimónias de tchur, tivessem lugar na sua residência, em Odivelas, no primeiro sábado após a data em que essa saudosa e prestimosa figura fora a enterrar.

É durante a cerimónia de apresentação de condolências pelo malogrado Domingos Xingo, na residência de Xando, algures em Odivelas, que Daniel revela toda a magnitude do seu talento, ao pretender assumir um genuíno mwangolé. Um desempenho digno de prestigiados palcos. Feito para ribaltas bem iluminadas!

Num salão repleto, Daniel, depois de ter feito sala ostentando um ar pesaroso, sublinhe-se, perfeitamente de acordo com as circunstâncias, ergue-se e, pausadamente, vence a distância que o separa da poltrona onde se encontrava Xando, anfitrião da cerimónia e primo do seu amigo Domingos Francisco, o conhecido Mêmo.

Quanto a Xando, não querendo, enquanto digno anfitrião, perder a face em benefício de um Daniel cada vez mais empreendedor, foi-se esforçando por exibir, de forma notável e com louvável constância, um semblante de profunda mágoa, só reproduzível por caricaturistas de renome. E, por acréscimo, fazia questão que os seus magoados soluços fossem audíveis e perceptíveis, de modo a poderem, com quantificado vigor, atingir os ouvidos e, porque não, os corações… dos presentes: mwangolés e os demais.

Quando Daniel, com um andar pausado e pretensamente inseguro, atravessa a sala e diz: ai Xando, ai Xando, em decibéis melodiosamente concebidos e propagados numa voz embargada por uma emoção notoriamente artificial, os mwangolés emudeceram, deixando a sala envolvida por um pesado silêncio, prontamente quebrado por Daniel através de uma encenação digna de registo. Os mwangolés, esses, atónitos, esforçavam-se por compreender esse quadro surrealista….

Qual carpideira experiente, solfejando ais e gemidos artisticamente coadjuvados por uma ou outra apneia a preço de saldo, assim quebrou Daniel esse curto mas respeitável silêncio: ai Xando, ai Xando, ai Xandoo-ú-ú-ú! E, ensaiando procurar alívio com umas sonoras e compassadas palmadas na coxa, em sintonia com assertivos menear de cabeça, continuou; ai, ai Mana Mita, ai Mana Miiitaaà! O nosso quêrido Domingos Xingo, bazzooouuu!

E, virando o rosto alternadamente, faz, em silêncio e com gestos repetidos mas comedidos, o conhecido menear de cabeça em sinal de inconformismo para com o desaparecimento físico do kota Xingo. Finda essa bem encenada série de ‘não de cabeça’, volta a manifestar: mas kê ke nós fez, Xando? Kê ke nós fez Xaaandooo?! Aiii, aiii Xanduuu, kumu é ke é Xando? Isto é muito. Muiiiito mesmo. Assim, nós num pode. Num pode, num pode mesmo. Aiiii Xando: e agora pai?!

Continuando, e com os acordes de uma voz cada vez mais fragilizada, ainda sobra a Daniel coragem para abrir a sua caixa de Pandora e deixar todo o mundo estupefacto ao dizer: o nosso Domingos, o kota que nos deixou, conhecia a minha história. Mi falou muito de meu pai. Iaaa, esse kota, êli, é irmão do meu pai. Com Deus, irmão mesmo!

Essa afirmação e as que se lhe seguiram, visando o suposto grau de afinidade entre Daniel e o kota Domingos Xingo, deram origem a um burburinho em crescendo, expresso por vozes desgarradas que deixavam transparecer uma latente incredulidade instilada no espírito dos consternados mwangolés.

A primeira a reagir foi Mana Mita: mano Xando, mas kumu é ke é o Danieli? Ké ke o Danieli tá falari?! Sobrinho do nosso pai, o kota Domingos? Nosso primo? Mas kumu é ke é? O Danieli deve ter chupado…. 

Para esclarecer essa dúvida, Xando faz apelo do seu primo Francisco, o Mêmo, que se aproxima para responder: Mêmo, mas kumu é ke é o Danieli? o mesmo que dizer: que história é essa?! ou, mas quem é o Daniel para falar dessa maneira do nosso kota Domingos Xingo?

Ao dar conta que o seu amigo Mêmo estava em dificuldade devido à intempestiva afirmação acima mencionada, Daniel aproxima-se de Xando com a intenção de amenizar uma situação que se degradava a passos largos. E, procurando contemporizar, diz: mano Xando, ouve só; o tio Domingos Xingo tinha um irmão que fez a guerra da Guiné. Esse irmão do tio Domingos Xingo, chamado Mastundo Xingo, êli é que me fez ‘nascêri’ na Guiné! Êli mesmo. Mas quem conhecia bem essa história mesmo: é a tua falicida mãããee; a minha tia Cécííília, ‘á’ Cécília Mohongo. Somos primos de verdade, mesmo. Com Deus, Xando!     

Atónito e visivelmente mal recomposto de tudo quanto acabara de ouvir de Daniel, Xando vira-se para Mêmo e, com semblante de poucos amigos, diz: mas kumú é ke é kota? Não ti pércebo. Então tu sabia que Danieli é nosso primo e tu não mi dizésti nada. Kumu é ke é, pai? 

Perturbado pela reprimenda de Xando, o pobre Mêmo faz seu acto de contrição dizendo: mano Xando, tu Kunhéci ‘o’ Daniéli mesmo. Esse ú-iii kóspi kafumba! Já num posso dizêri o que êli fala, se é vérdadi se é mentira. Êli fála sério, más também fála a riri, e nós fica sem sabêri si tá falando vérdadi si tá kafubándo. Com Deus, mano!

E é nesse conturbado contexto, de dúvidas e suspeitas que, guiado pela providência, surge um amigo de Xando, de nome João Quiteke, sobejamente conhecido no meio mwangolês, o qual, sem prévia intenção, acaba por permitir Daniel desenvencilhar-se dessa situação que se afigurava cada vez mais incómoda.

Uma breve resenha desse mwangolé define-o como inveterado farrista ao qual se atribuiu o cognome de chupa-grosso, por ser assumidamente indiferente a tudo quanto lhe fosse oferecido como bebida. Obviamente, alcoólica. Um mata-borrão!

Exausto de tanto esperar pelo melhor, pois que a tarde já se fazia longa, o nosso Quiteke, despido de quaisquer entraves, interpela Xando: mas kumu é ke é, kota? Para kê tanta confusão por causa desse Daniéli? Guigui ou mwangolé, primo ô não primo, mas ké ke muda, pai?  Vamos é chupari. Há birra ou não há birra? Que maka é essa? Sem birra nem cachaça, eu mi bazo. Juro!

Vocês só perde tempo a falári! Falári, só falári, aka! O ú-iii ke vocês chora (o falecido Domingos Xingo!) já bazou e não volta mais. Chorar não faz êli voltar. Volta kê? Deixem êli em paz. Vamos mas é aos copo!

João Quiteke, ao reclamar vinho e cachaça, não só põe fim à saga Daniel, como também leva a até-aí-silenciosa assistência mudar de semblante, deixando de ser artificialmente pesarosa para se transformar numa ruidosa, efusiva e extrovertida plateia de mwangolés.

Mais tarde, e com os vapores de muito álcool fazendo efeito, por conta da alegria generosamente posta à disposição em garrafas de vinho, cachaça, algum cachipembe ou kissângua, artesanais, a plebe, bem ensopada, galhofava carinhosamente com Daniel: avilo (amigo) chega só aqui. Então kumu é ke é? Qual é a tua maka, meu? O mesmo que dizer; qual é o teu problema? Ôvi, ôvi bem; si tu é guigui, si tu é mwangolé; você num ker nem mesmo saber mais. Num é? Essa maka, num é mais. Kabou mesmo. Você é di nóóósss. Num liga mais isso não!

Nós ti quéri muito. Muito mésmo, pai!

E, pela noite fora, houve birra a rodo, bué de birra….

 

Galvas, em apuros!

Tatitataianas e Tatitataianos,

Doravante, o vosso Tatitataia permitir-vos-á ler alguns episódios, que, ocorridos em curto espaço de tempo e envolvendo muito menos protagonistas, serão, por força das circunstâncias, menos extensos mas não menos agradáveis como leitura.

Para o primeiro flash e com a habitual intenção de vos oferecer um pouco de boa disposição, partilho um dos meus muitos incidentes académicos, enquanto ‘aluno’, que nem sempre se guindou ao elevado estatuto de ‘estudante’, do nosso tão querido Liceu Honório Barreto.

Pois esse invulgar incidente, ocorrido no ano lectivo 1960-61, teve lugar no decurso da minha prova escrita de Ciências Físico-Químicas para o exame do  5° ano, segundo ciclo, do então Liceu Honório Barreto.  Oiçam bem: Ciências Físico-Químicas, Brrrrrrr!

Sempre fui, por um juízo francamente merecido, e partilhado, um aluno menos conseguido nessa ‘abominável’ matéria. Que ninguém conteste, pois sei do que falo…., ai não se não sei!

Por ética, não mencionarei o nome da saudosa professora, que teve a infelicidade de testemunhar esse incidente.

Durante a prova, e como as ‘coisas’ não me corriam a contento, ousei solicitar ajuda. Sempre ouvi dizer: perdido por cem, perdido por mil.

A mencionada examinadora acedeu apaziguar as minhas angústias, procurando, com uma voz adaptada às circunstâncias, segredar-me o que seria, perdão, o que julguei ser, a correcta resposta à questão mais espinhosa e, muito naturalmente, a mais valiosa em pontos.

Constrangido pelo modestíssimo conhecimento de que dispunha, sobre uma matéria, a meu ver, mais apropriada a consagrados estudantes que a modestos alunos de ocasião, lá fui, entretanto, e como Deus permitia, tomando nota de tudo quanto essa simpaticíssima professora me foi declamando, o que, para mim, e em boa verdade, constituía um desfilar de incongruências.

Ao findar esse longo calvário, e pouco seguro quanto à futura localização ou inserção da prosa que me fora recitada, ousei lançar um balde de àgua fria aos ouvidos de quem, tão carinhosamente, se propusera ajudar-me: Senhora doutora, esta resposta corresponde à 3a a) ou à 3a b) ?!

A resposta não se fez esperar e veio com esses acordes: Balha-me Deus, rapazinho! E lá se foi a senhora, sem nunca se retornar….

Verdade, verdadinha e da boa!

PEPITO, O Último Dos Mohicanos….

“Às minhas netas Sara e Clara com a esperança de um dia poderem viver tranquilamente na terra adiada com que Cabral sonhou”, Carlos Schwarz da Silva, PEPITO, 1949-2014.

À família Schwarz da Silva: D. Clara, Isabel, Cristina (Pepas), Ivan, Catarina, João e Henrique, o blog Tatitataia se vos associa com intenção de partilhar a enorme dor causada pelo prematuro desaparecimento físico do vosso e também nosso saudoso PEPITO. E, através do presente texto, Tatitataia também se empenha em prestar uma singela homenagem a este amigo e sui generis Combatente pela Paz e Progresso do Povo, que fez da sua Pátria – Guiné-Bissau – o palco, o espaço onde abnegadamente materializou as suas convicções. Paz à sua alma!

Na sequência dos dois últimos textos da série “O Homem Novo Forjado Na Luta” aqui publicados, este capítulo poderia perfeitamente intitular-se: “O Mais Aguerrido dos Moisés”. Aguerrido em todas as arenas que lhe serviram de palco aos seus desafios e inumeráveis confrontações de vária ordem.

Para definir PEPITO, não escasseiam adjectivos que reconhecem no seu perfil uma frontalidade por vezes controversa, porque também foram múltiplas e controversas as situações com as quais se viu confrontado, sobretudo ao longo da sua vida profissional.

Avaliar, ajuizar a personalidade de PEPITO não é e nem será tarefa fácil para Tatitataia; e quero acreditar que o não será, mesmo para aqueles que, com alguma pretensa objectividade, pretendam formular um juízo sobre essa ‘sui generis’ pessoa, inclusive aqueles que o não puderam aquilatar. Todos juntos não saberão esquivar-se ao reconhecimento de que o guineense PEPITO em circunstância nenhuma poderá ser considerado um vulgar de Linnaeus. 

Tatitataia optou com algum simbolismo da lenda do Último Dos Mohicanos para homenagear o guineense Carlos Schwarz da Silva, vulgo PEPITO que, física e prematuramente, nos deixou a 18.02.2014. Esse trágico acontecimento ocorreu em Lisboa.

Em meados de Agosto de 2010, o meu amigo Mário Sá Barbosa e, seguramente, amigo de muitos mais, fazendo jus à nossa amizade de longa data, prestou-se a acompanhar-me ao Aeroporto da Portela aquando do meu regresso a Paris após uma curta estada em Lisboa. Uma vez cumpridas as formalidades de qualquer check-in, encetámos um informal bate-papo aguardando a chamada para embarque. E é nesse espaço de tempo que o telemóvel do Mário desperta. Com o Mário em comunicação, não pude aperceber-me de quem estava em linha pois, do pouco que falou não pronunciou qualquer nome. Entretanto, confesso ter ficado um quanto embaraçado quando me passa o telefone e diz: Fala!

Identificado o meu interlocutor por ter ouvido do outro lado da linha: um franco Olá João, aqui o PEPITO, foi o suficiente para que a minha voz esmorecesse, esvaziasse de energia e sentisse instalar o conhecido e desagradável nó na garganta! E, sob peso dessa enorme emoção, até me pareceu mentalmente ouvir alguém dizer: João, tens o PEPITO de volta. É agora ou nunca. Abraça-o. E esse abraço foi confirmado pelo e-mail enviado a 17.08.2010, às 01:27… após meu regresso a Paris e assim redigido,

Caríssimo Pepito, “Pepitóvski”

Graças ao Mário Sá Barbosa, consegui, e com enorme satisfação, renovar, melhor, reatar os nossos laços de amizade e não só. Fiquei agradavelmente surpreendido pelo Mário que, no aeroporto aquando do meu regresso a Paris, me passou para as mãos o celular dele sem me dizer quem estava chamando…

É óbvio que o impacto de ouvir-te, depois de mais de vinte anos sem contacto(s), fez com que a chamada, “insípida” pelas circunstâncias, acabasse por ficar inacabada pois não sabia o que dizer (efeito surpresa)…Daí a razão da minha chamada telefónica de há dias!

Creio, entretanto, que perdemos todos a oportunidade de, ao redor de uma mesa (jantar ?!), juntos apreciarmos e saborearmos um bom elenco de verdadeiros contadores de “passadas”!

Mas que pena! A tua presença seria um valiosíssimo estímulo (diria mesmo, uma “provocação”) para o meu “talento” de contador de passada(s)…Ahhh, repito, ahhhh, que pena!…

Doravante terás notícias minhas mais assíduas. Saudações à Isabel, mantenhas à miudagem e um abração amigo, João

Deixei Bissau em 1985 numa altura em que as relações João-Pepito e Pepito-João não respiravam nem transpiravam saúde. Razões? Como descobri-las?  Talvez recorrendo ao que diz a Lei de Coulomb a respeito de cargas portadoras do mesmo sinal e tentar estabelecer paralelo com o relacionamento entre temperamentos humanos da mesma natureza ou muito semelhantes… Mas é num quadro desses e com um Sá Barbosa completamente alheio a esse pormenor que chega por intermédio de um bendito telemóvel essa bem-vinda chamada que pôs termo a duas décadas e meia de um longo, magoado e difícil silêncio. Ironias do destino?!

Como testemunha a cópia desse e-mail de 17.08.2010, 01:27 e acima transcrito, essa chamada acabou por conceder à velha amizade João-Pepito e Pepito-João uma merecidíssima oportunidade de se manifestar de novo, esquecendo pequenas, médias e grandes querelas, de rejuvenescer e adquirir a pujança e a solidez que lhe eram próprias um quarto de século atrás. E depois desse feliz 17.08.2010, os e-mails e um sem-número de longas chamadas Skype permitiram ao João Galvão Borges, o Galvas, ter o seu Pepitóvski completamente reconquistado e ao Pepito o seu Jonas mais jovial que nunca. As saudades, porém, essas, ficarão para sempre insatisfeitas e, sobretudo, inconsoláveis…

Por tudo isso, amigo Sá Barbosa ficamos-te imensa e eternamente gratos. Obrigado Mário!

Isabel e Pepito fazem parte de uma enorme vaga de pessoas singulares e de jovens casais guineenses, cabo-verdianos e não só, como Samanta e Moisés relatados por Tatitataia na curta série do Homem Novo Forjado Na Luta. Essa vaga vinda das bandas do Tejo era constituída por uma plêiade de jovens entusiastas que resolveram abdicar da segurança, da tranquilidade e do conforto de uma vida europeia para regressar à terra e, como então se dizia: saldar a sua dívida para com o povo! 

Entretanto, e bem mais cedo que seria de prever, essa vaga foi perdendo caudal.

E foi perdendo caudal à medida que o Poder, nas mãos dos novos senhores, os Melhores Filhos da Nossa Terra deixavam cair a máscara, mostrando arrogante e orgulhosamente à Guiné-Bissau e ao Povo Guineense as suas verdadeiras intenções: a de se substituírem aos colonizadores que acabavam de deixar o solo pátrio guineense. De Bissau fizeram o mais valioso espólio de guerra e das populações seus perfeitos vassalos. Interessante constatar a ‘mise en garde’ de A. Cabral sobre essa realidade no panfleto «História da Guiné-Bissau e Ilhas de Cabo Verde», maioritariamente escrito e revisto por Cabral pouco antes de morrer: “….. A libertação nacional não poderá significar a transferência de poder dos colonos para uma minoria exploradora nacional…”

E é sob pressão desse aterrador clima político que se dá a ruptura entre o totalitarismo instaurado e os quadros técnicos mais conscientes dessa realidade. Uma ruptura que levou Samanta e Moisés e os demais da citada vaga a terem de (re)fazer malas com alguns poucos haveres e com uma enorme e constrangedora ilusão para uma viagem que seria (e foi) definitivamente sem retorno. E impõe-se afirmar que essa ruptura enquadra-se numa sequência de outras bem mais graves: a do PAIGC e do seu aparelho de Estado com a linha ideológica de Amílcar Cabral. Com efeito o semanário Nô Pintcha, órgão oficial do Partido e do Estado deixara de publicar os extractos de Amílcar Cabral. No fundo, essa foi apenas mais uma das sucessivas rupturas do PAIGC com o seu fundador. A primeira e a mais dramática teve lugar, como todos se lembram, a 20.01.1973, aquando do assassinato de A. Cabral em Conakry.

É justo sublinhar e enaltecer a transbordante coragem de todos quantos se recusaram deixar a terra dispondo-se a assumir as mais nefastas consequências que poderiam advir desse regime que, como mencionado, não tardou a deixar cair a máscara mostrando e demonstrando as suas macabras intenções. Entre esses valorosos resistentes, Isabel e Pepito são merecedores de citação em primeiro plano. E nesse patamar porque, não ficando pela ruptura com o sistema, ele adquire uma outra dimensão quando chega à confrontação após uma fase de aberta condenação.

Abandona o aparelho de Estado deixando o Ministério de Desenvolvimento Rural e afasta-se também das estruturas do PAIGC onde foi militante e, por muito tempo, membro activo da JAAC, Juventude Africana Amílcar Cabral para desbravar novos caminhos por seus pés e por sua conta e risco.

Essa provocante irreverência e o crescente sucesso de tudo quanto esteve sob sua alçada despoletaram os mais variados e ambíguos sentimentos, fazendo de Pepito uma figura extremamente polémica. Amado pelas classes populares e pelos mais desfavorecidos da sociedade e muito nomeadamente no seio dos camponeses, seu terreno de predilecção. Muito mal-amado por alguns dos mais proeminentes do Poder como também pelos muitos parasitas orbitando esse Poder, a exemplo dos conhecidos sarabafais, brilhantes e exímios especialistas no exercício do mimetismo, neste caso político. Uma subespécie de difícil posicionamento taxonómico por dizer amém a TUDO e a TODOS. E que não se esqueça aquele dia de Março de 2001 no qual Pepito e família foram vítimas de uma tentativa de assassinato, conduzida por gente com equipamento militar. Houve tiroteio na residência familiar…

E para reforçar a credibilidade do parágrafo anterior, trago a vosso conhecimento o que me foi permitido presenciar enquanto funcionário do MDR, Ministério do Desenvolvimento Rural quando, em 1975 e anos seguintes, era convocado a participar nas sessões do Conselho Directivo que se reunia durante todo o dia e na última sexta-feira de cada trimestre. Em presença dos directores-gerais e dos responsáveis pela elaboração da acta da reunião, os participantes faziam o ponto de situação dos problemas enfrentados e do progresso dos respectivos projectos, regiões agrícolas, programas, departamentos e outras actividades sob tutela do MDR.

E era nesse espaço, quando Pepito era chamado a pronunciar sobre o (seu) DEPA, que se podia avaliar o nível dessa colectiva e dirigida animosidade versus a pessoa de Pepito, o que fazia que cada sessão tomasse, em sentido figurado, os contornos dos habituais conflitos da Faixa de Gaza. Era verdadeiramente impressionante na medida em que essa agressividade em relação a Pepito quase se tornava palavra de ordem para todas as sessões do Conselho Directivo, mas com um Pepito inamovível e cada vez mais determinado e na defesa da sua posição e dos seus objectivos.

Quando se sabe que o próprio Amílcar Cabral, considerado fundador da nacionalidade Bissau-guineense estaria hoje e a coberto da actual Constituição da República interdito de se candidatar à Presidência da República por limitações impostas pelas suas origens, compreender-se-ão mais facilmente os íngremes e pedregosos calvários percorridos por um Pepito de cujas raízes tão bem conhecemos para, no contexto sócio-político-económico da GBissau de algumas décadas a esta parte, querer e poder dar provas de patriotismo. Esforço seguramente titanesco. Sobre-humano!

Que também se faça saber a recente e não velada resistência da Assembleia Nacional em, finalmente, permitir a abertura de um livro para recolha de assinaturas de condolências aquando do trágico desaparecimento físico do saudoso Pepito que também foi deputado da Nação. Este facto adicional e bem significativo demonstra o ainda longo caminho a percorrer para que a GBissau venha a ser a Pátria de TODOS os guineenses, independentemente do teor em melanina que pigmenta a pele de cada cidadã ou cidadão. E duvidamos seriamente que o governo bissau-guineense venha a ter qualquer iniciativa pública de homenagem a PEPITO.  

O meu longo relacionamento com Pepito no âmbito do privado como do profissional permite-me fazer uma leitura dessa muito carismática figura dotada, entretanto, de uma personalidade muitas vezes fracturante. Anunciarei em pequenos parágrafos o que a memória me permitiu registar desse amigo pessoal e também da controversa pessoa que ele foi. E, ao começar, afirmo que não se sentia muito à-vontade em estruturas onde não estivesse posicionado de forma a fazer-se ouvir e tomar decisões. O abandono do MDR só pode confirmar esse meu sentimento. Adquire a plenitude do seu potencial e da sua capacidade de trabalho e/ou acção quando as suas decisões forem ou puderem ser soberanas. É, indubitavelmente, um líder. Dava ordens, conferia e quase de imediato avaliava o cumprimento dessas ordens. Sabia rodear-se de elementos da sua inteira confiança que avaliava em função da capacidade para cumprir e da prontidão no cumprimento.

Pepito era um trabalhador inveterado, inesgotável. O trabalho era a sua fonte regeneradora de energia!

Um resoluto adversário ou, mesmo, inimigo do fatalismo. Não se contentava em identificar problemas mas sim em implementar soluções mesmo quando se batia com armas desiguais. De uma tenacidade à prova de TUDO. Quando se diz: Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje, Pepito fazia uma leitura radicalmente diferente: não podes deixar para amanhã o que tens de fazer hoje. Essa foi a marca PEPITO!

Mesmo muito apreciado ou mal-amado pela forma peculiar como sempre geriu os projectos sob sua alçada, importa sublinhar que Pepito soube sempre e com muito sucesso levar a sua nau a bom porto. Um facto que, por irrefutável, granjeou-lhe muitos admiradores e, também, obviamente, aguerridos adversários.

A sua ligação à terra-mãe e suas gentes foi uma das características marcantes de sua idiossincrasia. O convívio profundo que manteve com familiares e amigos marcou de forma indelével o seu ser social. Curiosamente, forma-se em Portugal nos anos 70 e nos bancos da faculdade por onde passou Amílcar Cabral, de quem foi profundo admirador. Extremamente activo no meio académico, forja aí a sua têmpera de combatente anticolonialista e antifascista.

De regresso ao País após independência, este abnegado trabalhador afirma-se como um dos mais fervorosos defensores e impulsionadores de medidas dirigidas ao favorecimento e desenvolvimeto do meio rural como sendo a forma mais eficaz de assegurar, a médio e longo prazos, a almejada auto-suficiência alimentar. Animado de um espírito combatente e resoluto, este cidadão exemplar foi um PATRÍCIO da nova era. Sempre ao lado do seu povo, servindo de tribuno das suas mais profundas aspirações. Que as gerações futuras possam apropriar-se de um tal legado!!!

Uma distinta conterrânea soube melhor que ninguém homenagear Pepito ao afirmar: Há pessoas que fazem da vida um sonho. E quando nos apercebemos da existência delas, desaparecem. E tal como o sonho, são fugazes e efémeras.

Nada e Ninguém conseguiu demovê-lo da rota que traçou.

Até Sempre, PEPITO!